Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Fernando Martins

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Saturação como arma social", copyright Jornal de Notícias, 3/8/03

"Para Carlos Silva Resende, de Sintra, ?a saturação é uma arma social e os jornalistas são frequentemente manipulados num jogo que tem como objectivo o desinteresse das massas por um assunto que está a afectar uma élite?.

Segundo o leitor, o caso da rede pedófila com epicentro na Casa Pia é uma eloquente ilustração da sua tese, já que, ?sempre que se fala na possível divulgação dos nomes de mais suspeitos (gente da política e dos estrelatos sociais), logo aparece, em manobra de diversão, o levantamento de suspeitas sobre os magistrados ou sobre os jornalistas, pormenores sem interesse no âmago da questão. Ora é o juíz que é novo de mais e comete a afronta de usar ?jeans? no tribunal, ora é o líder da oposição que fala em cabala para destruí-lo a ele e ao seu partido, ou até a história do ?Ferrari? que ninguém viu?.

Para Carlos Resende não passa da utilização hábil de uma arma, que leva a que o cidadão comum desvalorize o assunto ao ponto de já nem sequer poder ouvir falar nele. Será, já com a opinião pública menos atenta e menos activa, possível recorrer mais facilmente aos ?lobbies? e afastar da investigação magistrados incómodos.

Considera o Provedor que o leitor de Sintra criou uma teoria conspirativa que carecerá de fundamento e de prova — reconhecendo embora que , frequentemente, na procura de elementos que mantenham o interesse do público num caso, os jornalistas acabam por desvalorizá-lo e por promover, mesmo, o estado de saturação de que Carlos Resende fala. E admitindo mesmo que, por vezes, os profissionais dos ?media? acabam por servir, involuntariamente, interesses específicos das partes envolvidas.

Não esqueçamos, porém, que aos jornalistas se deve a irreversibilidade de uma investigação amordaçada durante anos.

E, qualquer que seja a dose de contestabilidade dos procedimentos de alguns magistrados, sabemos que é neles que o país deposita uma confiança que nenhuma saturação fará esmorecer: a confiança de que nunca mais ninguém estará acima da lei, e de que, com os verdadeiros culpados dos crimes sobre as crianças, serão castigados todos aqueles que os protegeram mesmo até à fronteira da impunidade.

E a confiança, sim, é uma arma!"

***

"Uma meia verdade pode valer por uma mentira", copyright Jornal de Notícias, 3/8/03

"De uma forma geral jornalistas convivem mal com os temas ligados à saúde.

É uma constatação autenticada por algumas décadas de experiência: de uma forma geral, os jornalistas lidam menos bem com os temas ligados à Saúde. A excepção vai, claramente, para a comunicação especializada, qualquer que seja o tipo do seu suporte.

Pensa o Provedor que essa difícil convivência se radica na apertada vigilância deontológica da Ordem dos Médicos, exacerbada por uma marcação pessoal que quase todos os discípulos de Hipócrates mantinham, em nome da discreção profissional e do controlo da concorrência.

Quaisquer que fosse a idoneidade da fonte da informação sobre um êxito da cirurgia portuguesa, durante muitos anos, o mais provável era que o jornalista encontrasse diante da sua investigação uma cortina de medo, que acabava por conduzir ao silêncio e ao abortar da notícia.

Mais aberta, a informação relativa ao que se passava no estrangeiro era divulgada em Portugal, veículada pelas agências noticiosas internacionais. E, quase invariavelmente, no dia seguinte, sucediam-se nas redacções os telefonemas de médicos que, sob o impulso do brio profissional, esclareciam que a técnica divulgada como grande inovação já era utilizada em Portugal há longos meses, se não anos.

Mas, mais complexa ainda, foi sempre a informação sobre a investigação que envolve os fármacos — com os jornalistas, de uma maneira geral menos bem entrosados na temática, a defenderem-se das possíveis consequências de um confronto entre os gigantes que são os grandes laboratórios, e a esquivarem-se da hábil teia de uma publicidade que nem sempre terá como alvo principal o benefício dos doentes.

Todas as circunstâncias descritas criaram algumas resistências que, por vezes, levam a situações como a denunciada por Emanuel Ribas dos Santos, de Arouca.

Contesta o leitor a notícia publicada em ?Sociedade? (edição de quinta-feira finda) com o título ?Retirado fármaco sem riscos graves?. E radica o seu protesto na circunstância de ter sido omitido o nome do fármaco que o Infarmed – Instituto da Farmácia e do Medicamento mandou que fosse retirado do mercado há cerca de 15 dias.

?Não basta dizer na notícia que se trata de um genérico de ácido acetilsalicílico do laboratório Ratiopharm. Os senhores jornalistas parece que não conhecem o seu país e o grau de iliteracia dos portugueses. Quantos entre os consumidores de medicamentos sabem o que é um genérico? E o que é o ácido acetilsalicílico? Para além do mais, a notícia parece dar mais importância ao protesto do laboratório do que ao alerta à população. E não basta, para que fiquemos de consciência tranquila, garantir que o laboratório recolheu voluntariamente todas as unidades do medicamento. Quem nos garante isso??

Acrescenta o Provedor: e as pessoas que, entretanto, compraram o medicamento, como podem identificá-lo se não for pelo nome?

Tem razão o leitor na sua exigência de uma informação mais completa, num domínio como é o da saúde pública. Mesmo que a informação tenha chegado, como provavelmente chegou, incompleta. O jornalista não é um simples mediador da comunicação: a sua curiosidade tem que ter o tamanho e a persistência bastantes para lhe permitir dar resposta a todas as possíveis perguntas do variadíssimo espectro que é o universo dos seus leitores.

O interesse geral e a sua vertente saúde pública sobrepõem–se aos interesses particulares, quaisquer que eles sejam.

Recordemos, por exemplo, a ameaça recente dos frangos que muitos aviários alimentaram com nitrofuranos. Pretendeu o Governo proteger o nome de algumas das indústrias criminosamente prevaricadoras. Em nome da defesa da economia de um importante sector produtivo. Com o pretexto demagógico da manutenção de aulguns milhares de postos de trabalho. A verdade é que, como relutantemente acabou por ser aceite, acima de tudo estava a defesa dos cidadãos, da saúde pública.

É esse interesse de todo um país que tem de impor-se aos jornalistas, levando-os a vencer inércias e resistências corporativas que até lhes são alheias."

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