Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

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Fernando Martins

Por lgarcia em 07/10/2003 na edição 245

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Quem semeia exigências acaba por colher qualidade", copyright Jornal de Notícias, 29/9/03

"Ser a consciência de uma Redacção implica um trabalho que só a longo prazo tem visibilidade

Pediu-me uma estudante brasileira de jornalismo que lhe traçasse o perfil dos leitores do ?Jornal de Notícias?, baseado nas suas reclamações, e tendo em vista a leitura do Provedor das exigências que lhe fazem chegar. Nami Santinhos Gil, prestes a terminar o Curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de S. Paulo, diz que pretende, no trabalho que tem em mãos, estudar o contributo dos provedores (qualquer que seja o nome que lhes dão nas cinco partidas do Mundo) no aumento da qualidade dos jornais.

Para lá das respostas que Nami Gil vai, decerto, ?destilar? em conclusões quantificadas, ficam as reflexões que a jovem proporcionou, e que são oportunas nesta coluna e neste momento.

Os académicos renderam-se, quase todos, à estatística, passando por sobre o nivelamento agressor que os números proporcionam, quando não se têm em conta realidades sociais e antropológicas bem diferentes ? o que vale por dizer que aquilo que é verdade numa determinada cultura, se não é mentira numa outra, pelo menos não corresponde aos mesmos padrões, carreando à verdade uma enorme dose de subjectividade.

Ser Provedor dos Leitores em Portugal não é o mesmo que sê-lo nos Estados Unidos da América, na França, no Canadá ou no Japão. Nem no Brasil. Pelo número e pela natureza dos contactos, em que a cultura cívica desempenha um papel particularmente relevante.

O exercício continuado da democracia em determinada sociedade torna os cidadãos participativos, faz com que neles germinem, explícitos, padrões de qualidade, que os conduzem à livre escolha. E que formam a exigência. É, naturalmente, contrastante com a situação que enfrentam as nações que viveram longos anos sob regimes ditatoriais, e que não teriam sobrevivido à participação cívica de um povo que soubesse claramente o que queria e que massivamente o exigisse ? às claras ou na clandestinidade.

Ao longo de quase quatro anos de funções, diversas vezes o Provedor tentou explicar algumas das razões por que os leitores portugueses exercitam tão pouco o seu direito à qualidade, tornando-se, assim, co-responsáveis por uma realidade que muito poucos questionam.

Ao ponto de poder afirmar-se que uma das tónicas desta página (talvez a principal) foi a estimulação dos leitores para um diálogo que, revestindo a forma da crítica do jornal, teria como objectivo um JN mais perfeito, sem perder os laços de proximidade e de afectividade que fizeram dele o diário mais lido em Portugal.

É talvez cedo para avaliar os resultados práticos dessa tentativa. Tal como nos primeiros tempos, ainda hoje são mais os leitores que pedem a intervenção do Provedor para questões ligadas com o marketing e com a distribuição do jornal, do que para apontarem desvios deontológicos ou faltas de rigor. E continuam a ser em número considerável aqueles que pretendem responsabilizar o Provedor por critérios utilizados na selecção das cartas publicadas na Página do Leitor, ou por adaptações de algumas dessas cartas ? essencialmente cortes com a finalidade de reduzir o seu tamanho excessivo. Tudo isto apesar de, repetidamente e de forma clara, aqui se apontarem os limites da intervenção do Provedor.

Apesar disso, e porque desde o início se afirmou como uma porta de diálogo entre os leitores e o seu jornal, para além de sempre dar caminho às mais diversas (e mais desajustadas à sua função) reclamações, o Provedor chamou algumas vezes a esta página algumas delas ? sempre que considerou que o número de protestos justificava a sua assunção pública.

Destaque-se, aí sim, a acuidade dos leitores do JN para a defesa da qualidade da escrita (as fotografias não foram, nunca, qualitativamente questionadas): gralhas e erros de ortografia e de sintaxe sempre foram implacavelmente denunciados, algumas vezes com o recurso a colecções de recortes, meticulosamente sublinhados e comentados.

Também as falhas na informação útil (farmácias de serviço, programas da televisão e desportivo, cartaz de espectáculos) mereceram frequentes manifestações de protesto e de irritação.

Para além destas, esporádicas, as acusações nunca provadas de favorecimento partidário, clubístico ou religioso.

Por tudo isto tive dificuldade em responder a duas perguntas de Nami Gil: se sinto que a actividade do Provedor mudou substantivamente o comportamento da Redacção, promovendo o aumento da qualidade do jornal; e se acho que os leitores vêem no Provedor uma mais- valia ou apenas um instrumento de promoção do próprio jornal.

Que o Provedor acaba por servir como instrumento de marketing, é inevitabilidade assumida, e não promove qualquer tipo de rejeição. Permanece sempre, importante, a sua função pedagógica.

O Provedor funciona, essencialmente, como a consciência de uma Redacção. Podemos compará-lo com o grilo falante das ?Aventuras de Pinóquio? . A sua acção é necessariamente lenta, e deve ser continuada, persistente. Acabará, infalivelmente, por deixar marcas: nos jornalistas e nos leitores.

Pelo menos é essa a convicção do Provedor, neste momento em que cessa funções.

Têm razão todos aqueles leitores (e já são muitos!) que defendem que o termo ?gralha? não passa, por vezes, de um disfarce de desvios mais graves como a falta de brio profissional, o que vale por dizer dupla falta de respeito: por si próprio enquanto jornalista e pelos leitores. M. Lima, do Porto (bem haja pela sua persistência), dá-nos os exemplos, meticulosamente ilustrados por recortes sublinhados; Raul F. Silva, de Mangualde; Carlos Teixeira, do Porto, Florindo Martins, de Linda- a -Velha; e Manuel Teixeira dos Santos, de Viana do Castelo, tecem considerações diversas a que não faltam os adjectivos por vezes excessivos. Desde a ?desacolagem? da ?Columbia? à ?ambulânvua? para transportar feridos e mortos de um acidente ? um mar de desatenção a que não falta a repetição das mesmíssimas ?Seis diferenças? em dias contíguos (30 e 31 de Agosto passados).

Para n&atildatilde;o falar do Português!

Manuel Gonçalves, de Paredes de Coura; Eduardo Santiago, de Lisboa; e Carlos Pereira Gomes, de Arouca, insurgem-se contra a ligeireza com que, no ?Em Foco? de anteontem (página três), o JN diz reproduzir ?o texto integral dos acórdãos aprovados por unanimidade relativos a quatro arguidos?, quando, de facto, transcreve o comunicado do Tribunal Constitucional relativo aos aludidos acórdãos.

?Qualquer pessoa minimamente informada do que é um acórdão, como tinha de ser o jornalista, cedo se apercebeu do engano do título. Todos os outros foram grosseiramente enganados?, considera Manuel Gonçalves.

O erro foi corrigido na edição seguinte, é certo, mas ainda assim é coerente a observação de Eduardo Santiago: ?Mas já não há na hierarquia do JN jornalistas experientes e com formação??"

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