Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES >  

Fernando Rodrigues

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136


MÍDIA & POLÍTICA
Nelson de Sá

“Os ridículos e os fingidos”, copyright Folha de S. Paulo, 23/08/01

“Uma campanha não é uma campanha, no Brasil, sem Alexandre Garcia. Ontem, lá estava o simpático porta-voz, anos depois, dizendo:

– Oposição dividida, governo beneficiado.

Culpa da própria oposição:

– A sofreguidão, a um ano e dois meses da eleição, leva a esses ridículos.

Do outro lado:

– O governo pode estar feliz com esse desgaste de quem saiu cedo demais para a eleição de outubro de 2002.

Em suma, quem está em campanha é a oposição. O governo não está, ou ainda, está ?fingindo? que está.

Pedro Malan, Paulo Renato, José Serra, todos uns fingidos. Não são presidenciáveis.

O ministro da Fazenda está só defendendo FHC. É um ?fingido?, se parece estar em campanha. O ministro da Educação é um ?fingido? em suas reuniões com Dick Morris, o marqueteiro de Bill Clinton.

O ministro da Saúde, então, não tem que ficar preocupado com a projeção de Malan nem sair por aí motivando manchetes como esta:

– José Serra quebra patente de remédio contra Aids.

Um político intrépido. Mas não, não é candidato.

**

De um lado, a Globo. Do outro, agora, a Band. De um comentarista da segunda rede:

– Já há gente pleiteando o cargo de presidente da CBF. Um exemplo é Carlos Augusto Montenegro. Caso isso venha a acontecer, configuraria um golpe, já que a CBF tem estatuto e ele precisa ser seguido. Caso Ricardo Teixeira renuncie, o vice-presidente eleito assume. As regras precisam ser seguidas.

Note-se bem: ?golpe? não é sair Ricardo Teixeira, é entrar Carlos Augusto Montenegro.

Paulo Maluf e Celso Pitta deram dois dias de espetáculo em comissão da Câmara Municipal de São Paulo.

**

Um espectador dos dois shows, ou das versões reduzidas nos telejornais, terá notado que o cenário é bem diferente dos depoimentos no Congresso.

Na Câmara Municipal, como acontece no Legislativo norte-americano, os depoentes estão isolados, ao lado só de assessor ou advogado, respondendo às questões de vereadores dispostos diante e acima deles.

Bem diferente do Senado, onde outro dia Malan respondia a Pedro Simon do alto -e sob a proteção de um senador governista presidente da comissão.”

“FHC, Malan e a mídia”, copyright Folha de S. Paulo, 22/08/01

“A lógica usada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em relação à possível candidatura de Pedro Malan em 2002 ficou clara de uma vez por todas.

?Ele [Malan] me disse que não vai se filiar. É um erro, porque a mídia deixará de prestar atenção nele a partir de janeiro, quando esquentar o debate eleitoral?, disse FHC a um interlocutor, conforme relata o repórter Kennedy Alencar.

A mídia é a questão central. É preciso estar na mídia. Ocupar os espaços. Escantear os adversários para os pés de página de jornal ou noticiários da madrugada nas TVs. FHC sabe fazer isso como ninguém. É um mestre na arte de seduzir e fazer prevalecer sua versão.

A preocupação de Malan é conhecida. Filiado a um partido, teria imensa dificuldade para separar, no imaginário popular, o que seriam atos administrativos de atos eleitoreiros.

Para FHC, pelo jeito, essa preocupação é irrelevante. Ou até descabida, uma vez que o objetivo maior é permanecer no poder.

Malan aparecendo diariamente como possível candidato a presidente, torpedeando a oposição sem parar, seria de grande serventia. Mesmo porque não se tem notícia de algum presidenciável governista disposto a defender o governo e a trombar a todo o momento com Lula e cia.

Interlocutores do presidente dizem que FHC já autorizou vários deles a empreender uma verdadeira romaria ao gabinete de Malan. Em breve, deve sair um almoço entre o ministro da Fazenda e um grupo seleto de tucanos. O pedido já foi apresentado. Só falta marcar o dia.

É impossível dizer hoje se Malan resistirá. O ministro demonstra sinceridade quando expõe os óbices da sua eventual filiação partidária.

Mas é também fácil inferir o grau de dificuldade para ficar muito tempo recusando um pedido, ou quase uma ordem, de FHC.”

 

“TV Bahia”, copyright Folha de S. Paulo, 22/08/01

“Em resposta à carta do sr. Fernando Schmidt (?TV Bahia?, ?Painel do Leitor?,19/8), ex-secretário da ex-prefeita de Salvador Lídice da Mata, gostaria de esclarecer. Na verdade, a TV Bahia noticiou que, no dia 11 de julho de 1994, enquanto a cidade sofria as consequências de fortes chuvas, a então prefeita tinha viajado para o interior a fim de participar da campanha do candidato do PT à Presidência da República. Tal viagem foi também anunciada, naquele mesmo dia, por dois jornais de Salvador ? ?A Tarde? e ?Bahia Hoje?. A própria assessoria de imprensa da prefeita confirmou mais tarde que ela não se encontrava na prefeitura porque havia viajado. Além disso, uma equipe da TV Bahia gravou entrevistas com professores municipais que, naquele dia, se encontravam em frente à prefeitura para protestar contra o atraso dos seus salários. Todos confirmaram que haviam recebido também a informação acerca da viagem da prefeita -entrevistas que podemos reproduzir a qualquer tempo. Quando a reportagem foi exibida, na noite do mesmo dia, a prefeita realmente telefonou para a TV Bahia e desmentiu a informação, essa, sim, mentirosa, da assessoria dela. E, no dia seguinte, 12 de julho, no mesmo noticiário, à noite, a emissora exibiu uma declaração da prefeita em que ela dizia que pretendia ir a Sobradinho para ?participar de um seminário sobre a transposição do rio São Francisco?, mas que cancelara a viagem assim que as chuvas começaram. A cópia desse noticiário está devidamente arquivada, como de praxe.? (Carlos Libório, diretor de jornalismo da TV Bahia, Salvador, BA)

 

“FHC quer Malan filiado para atrair a mídia até a eleição”, copyright Folha de S. Paulo, 22/08/01

“O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ao ministro da Fazenda, Pedro Malan, que ele cometerá um erro se não se filiar a um partido porque é a expectativa de uma candidatura ao Palácio do Planalto que alimenta o interesse da mídia por suas intervenções econômicas.

?Ele [Malan? me disse que não vai se filiar. É um erro porque a mídia deixará de prestar atenção nele a partir de janeiro, quando esquentar o debate eleitoral?, disse FHC, ontem, a um interlocutor.

Para o presidente, a imprensa só dedica grande espaço às guerras verbais entre Malan e o PT porque há a possibilidade, ainda que remota, de ele ser candidato ao Palácio do Planalto. Sem a filiação, Malan será ?menos notícia? e terá menos poder de fogo para defender o governo e sua gestão na Fazenda, crê FHC.

Com uma pequena esperança de que Malan reconsidere, FHC discorda dos dois principais motivos do auxiliar para não ingressar na política. O ministro argumenta que perderá credibilidade para conduzir a economia em momento delicado, pois suas afirmações passariam a ser vistas como lances de candidato. Malan teme ainda abrir uma guerra com presidenciáveis do PSDB. Leia-se o ministro da Saúde, José Serra.

Na avaliação do presidente, porém, vale a pena Malan correr esses riscos porque a filiação ao PSDB não significa candidatura. FHC julga que é importante usar a expectativa de disputar o Planalto como chamariz para a mídia prestar atenção nos torpedos de Malan contra a oposição.

FHC tem reclamado aos ministros e presidenciáveis tucanos uma atitude mais firme em defesa do governo. Com medo de desgaste eleitoral e por discordar de pontos-chaves da política econômica, Serra tem se mantido calado quando o assunto é economia.

Malan cumpre um papel de defesa do governo importante para o presidente. FHC disse ao ministro que as especulações têm data para morrer, porque no começo de abril terminará o prazo de desincompatibilização de ocupantes de cargo executivo interessados em concorrer ano que vem.

Malan ainda ajudaria FHC a embaralhar as cartas da sucessão. Interlocutores do presidente dizem que, hoje, ele tem um pendor pela candidatura Serra. Mas uma eventual disparada de Malan nas pesquisas mudaria o quadro e poderia criar um fato consumado. Os presidenciáveis governistas estão abaixo dos 10%, taxa de intenção de voto ultrapassada pelos nomes da oposição.

A ?ameaça Malan? ajudaria FHC a ter mais cacife, levando Serra e outros presidenciáveis, como o governador do Ceará, Tasso Jereissati, a precisar mais do presidente para garantir a postulação nas articulações com o PSDB, o PFL e o PMDB governista.”

“Meios Oficialescos”, Editorial, copyright Folha de S. Paulo, 21/8/01

“Uma das atitudes não incomuns de muitos elementos da classe política ao se elegerem é a de encarar os meios oficiais de comunicação como uma extensão de seus cargos e a serviço de suas pretensões eleitorais. E isso acontece tanto nos Poderes Executivos, com o uso indiscriminado dos ?Diários Oficiais? e dos órgãos de comunicação, quanto nos Legislativos, com os serviços de gráfica e de envio de correspondência, entre outros.

Mesmo quando o Judiciário se pronuncia contrariamente aos usos e costumes que parecem imperar nessa seara, a ânsia moralizadora não prospera. Um bom exemplo vem de 1995, quando a Justiça Eleitoral condenou o então presidente do Congresso, senador Humberto Lucena (PMDB-PB), e outros congressistas pelo uso indevido da gráfica da Casa. Os parlamentares votaram pela ampla anistia, depois sancionada pelo presidente da República, salvando os mandatos dos envolvidos.

Os fatos levam a crer que essa leniência seja suprapartidária, como demonstram reportagens de ontem desta Folha sobre o ex-senador Antonio Carlos Magalhães, do PFL, e o governador do Mato Grosso do Sul, José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT. Como justificar ao eleitor baiano que o ?Diário Oficial? de seu Estado tenha privilegiado ACM -que não exerce mandato nenhum- em 7 de suas últimas 13 edições? O que pensa o eleitor do Mato Grosso do Sul ao saber que seus impostos são também usados para fazer ?santinhos fotográficos? do governador?

As promessas de campanha invariavelmente pregam o bom trato da coisa pública, mas muitos eleitos desembocam na vala comum do abuso dos meios oficiais de informação.

O direito à informação que todos os eleitores têm não pode se confundir com propagandas eleitorais oficialescas. Se o Congresso busca realmente a depuração das práticas políticas, não pode deixar de legislar sobre o assunto e, acima de tudo, de acatar as decisões do Judiciário.”

 

    
    
                     

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