Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > PASSO FUNDO & PARATI

Festas literárias e um poeta esquecido

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

PASSO FUNDO & PARATI

Deonísio da Silva

Outra vez autores e livros ensejam temas formulados com alguns equívocos. Um dos mais visíveis é a contradição da Folha de S.Paulo e de O Globo. Ainda que tenham tido o mérito de baratear o livro nas bancas, oferecendo-o por preço acessível, incluíram poucos autores nacionais e repetiram as traduções. E de novo a imprensa caiu num engano danoso para os leitores: boa parte do público pode comprar o que já tem nas estantes domésticas, pois o catálogo é repetitivo.

A pergunta que não quer calar é a seguinte: onde estão os novos autores dos últimos 30 anos, se as traduções são as mesmas e se são tão poucos os autores nacionais cujos livros são vendidos nos quiosques? Não é possível que entre os catálogos de 3.000 editoras brasileiras haja tão pouco a garimpar.

A imprensa nacional há de fazer uma reflexão indispensável. Cobre mal algumas regiões brasileiras. Uma das falhas mais gritantes atinge o Brasil meridional. É verdade que alguns dos jornais brasileiros de porte médio estão sediados no Sul. Exemplos: Zero Hora e Correio do Povo, em Porto Alegre; Diário Catarinense, em Florianópolis; Gazeta do Povo e O Estado do Paraná, em Curitiba; A Notícia, em Joinville. São jornais que sempre souberam dar espaço a autores e livros. Veja-se a enorme repercussão que tiveram no Rio Grande do Sul a campanha e a recente eleição, para a Academia Brasileira de Letras, do escritor Moacyr Scliar, colunista da Zero Hora e da Folha de S.Paulo.

Mas a cor local freqüentemente precisa ganhar foros de existência nacional. E no caso de autores e livros, este é um problema dramático. A cidade de Passo Fundo (RS), que realiza bienalmente, há 20 anos, o maior evento literário do mundo, na especialidade ? as tradicionais Jornadas de Literatura, que aproximam autores, livros, leitores, professores, alunos ?, raramente vê repercutida na grande imprensa a sua iniciativa extraordinária.

Já Parati, no estado do Rio de Janeiro, em sua louvável iniciativa, foi tratada com toda a atenção pela grande imprensa, que espelhou com vigor a sua primeira Festa Literária Internacional. Mas os leitores foram enganados pelos jornalistas que deram como novidade o tratamento de pop stars ali dispensado aos escritores.

Nem sequer lembraram en passant que as Jornadas de Literatura de Passo Fundo fazem isso e muito mais há 20 anos e que, inclusive, alguns dos escritores que foram a Parati estiveram antes em Passo Fundo. Com muito mais público. E mais autores. Faz muitos anos que em Passo Fundo as Jornadas são realizadas sob lonas de circo, pois na cidade não há um recinto com capacidade para acolher tantos leitores.

Talvez seja o caso de pensar em realizá-las futuramente num estádio, tal o crescimento do interesse do público. Para a Jornada de 2003, que este ano ocorrerá entre 26 e 30 de agosto, há mais de 15.000 inscritos. Os ingressos esgotaram em dois dias. Em resumo, quem leu sobre a Festa Literária Internacional, realizada na cidade fluminense de Parati ? que, aliás, a Folha de S.Paulo denominou "carioca" numa das matérias ?, não pode ser induzido a engano pela omissão sobre qualquer referência à cidade gaúcha de Passo Fundo.

Não é demais lembrar também que há seis anos, por iniciativa da Jornada de Literatura, o município de Passo Fundo concede o maior prêmio literário brasileiro: 100 mil reais ao autor do melhor romance no biênio anterior.

Um poeta do Banco do Brasil

E já que há tantos esquecidos entre bons autores nacionais, eis aqui o Mário Quintana do Sul. Chama-se Solange Rech, teve sólida formação humanista nos tempos do Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Tubarão, onde viveu recluso alguns anos da infância e da adolescência, e trabalhou cerca de trinta anos no Banco do Brasil. Toda a comunidade do banco sabe de sua existência e de seus versos, mas o público leitor convencional ainda não tem a noção do que está perdendo, a não ser aqueles poucos que já leram seus livros, sempre editados por pequenas editoras. Já é hora de lhe dar mais transparência. O homem tem café no bule, tem o que dizer e sabe como expressar o que sente e pensa.

Eis pequenas amostras do livro De amor também se vive (Editora Blocos, Marica, RJ, prefaciado por Salim Miguel, o autor do romance Nur na Escuridão, Editora Top Books) que dividiu com Antonio Torres (Meu querido Canibal, Editora Record) os 100 mil reais do Prêmio Passo Fundo de 2001.


Meu mar de fulvas areias,/ onde penso e me aconselho,/ manda que tuas sereias/ venham ninar este velho. (Solilóquio)

Ó mar, às vezes dás medo/ quando, em ondas bem compridas,/ te atiras contra o rochedo/ com a fúria dos suicidas. (Fúria)

Insistes em querer prova/ de que te amei, linda dama./ E aquela quadra de trova/ que esqueci na tua cama?… (A Prova)

Às vezes, mulher, eu penso/ que és maior do que o universo/ pois o teu sorriso imenso/ não cabe todo num verso. (Sorriso)

Numa plástica de monta/ o doutor segue o ditame/ de engordar bem sua conta/ emagrecendo a madame. (Ironia)

Ao zombar dos governantes/ e ao criticá-los a esmo,/ só mostras, nesses instantes,/ que adoras rir de ti mesmo. (Telhado de Vidro)


Os colegas do Banco do Brasil, em exercício ou ativos, tinham e têm razão de ler e gostar de Solange Rech. Ele é um dos grandes poetas do Brasil. Neste caso, os colegas bancários se anteciparam aos críticos.

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