Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Fifa censura atuação da Folha na Copa

Por lgarcia em 20/05/1998 na edição 45

Eis os textos publicados na Folha de S. Paulo a respeito da censura ao jornalista Juca Kfouri:

 

“FUTEBOL
Credenciamento do colunista Juca Kfouri é recusado por entidade e organizadores do Mundial da França

da Reportagem Local

 

O

Comitê Organizador da Copa-98 está censurando a cobertura da Folha no Mundial. A decisão foi anunciada por meio de carta endereçada ao jornal. No documento, o chefe de imprensa do comitê, Alain Leiblang, afirma, em pouco mais de duas linhas, que o pedido de credenciamento do colunista da Folha Juca Kfouri foi recusado após análise conjunta com a Fifa, órgão máximo do futebol. Não cita o motivo.

A medida é mais um capítulo na polêmica distribuição de credenciais para jornais e revistas brasileiros, controlada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A Folha, que havia pedido 50 documentos à Fifa, recebeu só 11 deles. As credenciais oficiais permitem o acesso a treinos, concentrações e eventos do Mundial da França. Somente os documentos fornecidos pela organização da Copa franquearão o trabalho dos jornalistas nesses locais.

Os formulários para credenciamento foram enviados pela Fifa para as confederações nacionais em janeiro. Inicialmente, a CBF informou ter recebido 120 deles. Desses, 90 foram repassados à Associação Brasileira de Cronistas Esportivos (Abrace), que distribuiu 30 para São Paulo, 30 para o Rio e 30 para outros Estados. Foi nessa etapa que a Folha obteve os seus 11 formulários. Dos documentos retidos, a CBF deu pelo menos 18 ao Grupo Estado (que controla os jornais O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e a Agência Estado) e quatro à revista Veja, da editora Abril. Após revelar que a CBF havia retido parte das credenciais que recebera, a Folha enviou cartas de protesto a João Havelange, presidente da Fifa, a Ricardo Teixeira, presidente da CBF, e ao Comitê Organizador da Copa.

Quando outros países também questionaram o número de formulários distribuídos, a Fifa, por meio de seu diretor de comunicação, Keith Cooper, acabou por revelar que o Brasil havia recebido 155 credenciais, e não 120. Assim, dos formulários que havia recebido, a CBF havia retido 65. Após a declaração de Keith Cooper, a confederação passou a controlar a distribuição dos formulários e decidiu repassar mais 15 documentos à Abrace. Assim, além de dar 22 formulários ao Grupo Estado e à Veja, a CBF distribuiu outros 28 pedidos de credenciais, sem revelar quais foram os veículos beneficiados.

Logo após o término do prazo de credenciamento, em 31 de janeiro, o Comitê Organizador da Copa anunciou que o Brasil teria mais credenciais. Foram 50, que a CBF disse ter distribuído em março, novamente sem revelar a quem.
A Empresa Folha da Manhã S/A recebeu, no total, 16 credenciais para seus órgãos (Folha, Folha da Tarde, Notícias Populares e Agência Folha). O Grupo Estado (O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Agência Estado) ficou com 30 documentos.

Assim, mesmo vendendo quase 30% mais exemplares ao dia em média, a Empresa Folha da Manhã S/A recebeu 47% menos credenciais que os do Grupo Estado.

A Folha procurou em Paris o chefe de imprensa do Comitê Organizador da Copa, Alain Leiblang, desde 22h35 (17h35 pelo horário de Brasília), mas não conseguiu localizá-lo para que comentasse o pedido recusado. José Carlin, chefe de imprensa do Centro Internacional de Mídia em Paris, montado para a Copa, também não foi localizado. Mick Michaels, chefe de imprensa indicado pela Fifa para a sede Paris, afirmou que, pelo que sabia, o caso envolvendo a Folha era inédito: nenhum pedido de credenciamento fora recusado até então. Para o jornalista Juca Kfouri, a recusa de seu credenciamento “só pode ter sido por causa das críticas que faço a João Havelange”. Em Teresópolis (região serrana do Rio), onde a seleção brasileira inicia treinamentos para o Mundial, o assessor de imprensa da CBF, Nélson Borges, afirmou que desconhecia o episódio.”

 


Editorial:

 

O

Comitê Organizador da Copa-98 vetou a participação oficial de Juca Kfouri, colunista da Folha, na cobertura jornalística do torneio. Numa nota lacônica, de menos de três linhas e que termina com “saudações esportivas”, o comitê e a Fifa, órgão máximo da organização do futebol mundial, negaram ao jornalista a credencial de imprensa. O documento é uma espécie de passe livre, uma identificação sem a qual o trabalho do jornalista é muito prejudicado, para não dizer impossibilitado. O profissional fica sem acesso a treinos, concentrações e eventos e serviços da organização da Copa.

Tenta-se cassar a liberdade de trabalho do jornalista, a sua liberdade de informar. Na verdade, a burocracia da Fifa parece censurar um profissional que tem se destacado por criticar o mandonismo e outros vícios da organização do futebol brasileiro e mundial. Diga-se de passagem que a presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a da Fifa têm estreita relação familiar.

Essa lamentável decisão, que o comitê organizador e a Fifa nem se deram ao trabalho de explicar, não é fortuita. A CBF já favorecera outros veículos de comunicação quando distribuiu cotas de credenciais, em detrimento deste jornal, que, como em relação a outros assuntos, procura pautar sua cobertura esportiva pela objetividade crítica.

Apesar de se furtar de maneira muito suspeita a esclarecer o veto ao trabalho do jornalista Juca Kfouri, parece que o comando do futebol mundial, sob o tacão de um brasileiro com relações de parentesco muito próximas como o dirigente máximo do futebol do Brasil, quer indicar à Folha, de modo autoritário, que não tolera o debate, a crítica e a liberdade de informar, o que, além de deplorável, é inteiramente inútil.”

 


JUCA KFOURI

 

P

referi deixar passar dois dias antes de me manifestar sobre a atitude da Fifa (leia-se João Havelange), que não quer me credenciar para a Copa da França. Invariavelmente, quando jornalista vira notícia não é boa coisa, e o caso não foge à regra.

Os motivos da censura são tão óbvios que não precisam ser detalhados. Fico dividido entre duas reações que têm a ver com minha maneira de ser. Estaria indignado se a medida atingisse outro jornalista que não eu. Ao ser a “vítima”, detesto a idéia de me fazer passar por tal.

Minha tendência é mesmo rir da ridicularia perpetrada por Havelange, da burrice sem tamanho que ele cometeu, chamando a atenção do mundo inteiro para um jornalista brasileiro que não tem a menor importância. Sem se dizer da inutilidade da medida, porque cobrirei a Copa de toda maneira. Sem credencial, o trabalho apenas será mais difícil.

No fundo, ele e sua turma querem que eu me torne cada vez mais incômodo para os veículos em que trabalho. Ou esperam que eu resolva sair – como saí de outra empresa por discordar do acatamento à pressão que faziam. Bobagem deles.

O editorial desta Folha no sábado fala por si só, assim como as manifestações de solidariedade objetiva já recebidas na rede CBN de rádio, na Rede Cultura de Televisão e na CNT.

Como disse Alberto Helena Jr., dá vontade, repito, de rir diante do que Ricardo Boechat, de O Globo, chamou de ‘golpe baixo’.

Tivesse eu uma vocação mais dramática e faria greve de fome em frente ao Centro de Imprensa em Paris. Já imaginou que sucesso?

‘Jornalista do país tetracampeão não se alimenta em defesa da liberdade de imprensa e pelo sagrado direito de trabalhar!’
Seria um prato cheio para os coleguinhas do mundo todo, embora, cá entre nós, eu seja incapaz de resistir por duas horas diante de um carrinho de cachorro-quente.

‘AI-5 na Fifa’, ‘Vergonha’, ‘Solidariedade’, ‘Honraria’, ‘Parabéns pela homenagem’ são alguns títulos dos e-mails que recebi no sábado. Pois o que Havelange jamais entenderá é que esse é o prêmio do jornalista. E talvez Washington Olivetto seja mesmo quem tenha razão, ao me perguntar o que seria de mim não fosse essa cartolagem ridícula e corrupta feita de pequenos Hitlers.”

 

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