Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA GAÚCHA

Filósofos a quilo

Por lgarcia em 17/07/2002 na edição 181

MÍDIA GAÚCHA

Gilmar Antonio Crestani(*)

Para se contrapor às oligarquias, a burguesia grega formada majoritariamente por mercadores, inspirada provavelmente no modelo asiático de Giges, da Lídia, instaurou a “primeira” Tirania em Atenas. Esclareça-se. Tratava-se de uma espécie de monarquia conservadora. Objetivava apenas fazer cumprir as leis de Sólon, que haviam sido promulgadas para vigerem 100 anos. Em substituição ao “establishment”, o novo sistema atraiu famílias ricas de outras cidades gregas e concedeu-lhes cidadania ateniense.

Esta migração de pessoas e capital de diferentes origens, por volta do século VI a.C., quando Pisístrato (600 aC 527) estava no comando, teria sido a base do florescimento econômico. Na seqüência, veio o desenvolvimento cultural e político.

Nos séculos IV e III a.C., outra tirania, já sob o conceito pejorativo dado por Aristóteles, frutificou sob o manto da filosofia política. Como hoje, naquela época também havia consultores para dar e vender assessoria. Eis que Platão, filósofo, tal qual os meteoritos da periferia da corte tucana, ofereceu seus conhecimentos para melhorar a administração dos reis Dionísio I e II, de Siracusa, na Sicília. Na base de tudo, a máxima de, com um menor esforço, obter lucro maior, seja econômico, administrativo ou simplesmente político. Portanto, o filósofo Denis Lerrer Rosenfield, guru dos arautos da liberdade, pode não ser platônico com os dionísios, mas também não inventou a odisséia do louvaminheiros.

Mídia ecoa o oráculo de Amon

Quando os espartanos, na Guerra do Peloponeso, derrotaram os atenienses, impuseram o governo dos “trinta tiranos”, de modo a se manterem hegemônicos sem se preocuparem com a menor ameaça de concorrência por parte da rival Atenas. Como sói acontecer nestas questões de conquista e subordinação, os espartanos encontraram no ateniense Crítias, que Platão, no diálogo homônimo, coloca no círculo de Sócrates, um proxeneta a serviço dos espartanos (a Washington da época) para tornar a ditadura mais palatável.

Foi este “filósofo” que deu ar de legitimidade à política espartana aplicada pelos trinta tiranos em Atenas. A atuação política destes legou à cultura ocidental, aperfeiçoando a tirania de Pisístrato, o conceito que este termo ainda goza nos dias atuais.

A revoada de mariposas encontra quente acolhida nos holofotes do coronelismo eletrônico. Iguais às mariposas do Adoniran Barbosa, a trupe adora uma lâmpada para se esquentar. Mas a luz que esquenta é a mesma que baratina o raciocínio. Senão o que levaria um democrata a afirmar que há “traços revolucionários nas ações do governo gaúcho, que podem levar a um Estado autoritário”? Quais? A sua performance à frente da direita gaúcha mereceu a seguinte nota no jornal Zero Hora de 14/4: “Leôncio Martins Rodrigues, Oliveiros Ferreira, cientistas políticos, da USP, e o filósofo Denis Rosenfield, professor da UFRGS, participam neste sábado, dia 13, às 23h do programa Painel, da Globonews, ancorado por William Waack. Reprise neste domingo, 14, às 11h05min e às 20h05min.” Registre-se: é a primeira vez que o jornalista José Barrionuevo, do jornal Zero Hora, destacadamente o maior crítico do atual governo do estado nestes quatro anos, faz propaganda de uma entrevista do canal Globonews.

O oráculo do arauto da liberdade de imprensa, Denis Lerrer Rosenfield, tem tanto valor quanto a gabolice de Alexandre Magno a respeito de sua ascendência divina prevista pelo oráculo de Amon. Conta Plutarco que não poucos sustentavam que havia ocorrido apenas um “ruído na comunicação”, já que, querendo saudá-lo em grego sem a necessária fluência no idioma, o sacerdote teria trocado o “n” pelo “s” (Ô paidion = meu filho, por “ô pai Dios = filho de deus”), mudando totalmente o sentido.

A afirmação do filósofo, tentando desqualificar Lula, e encampada pelo coronelismo eletrônico, além de autoritária, tem tanto valor quanto o oráculo de Amon. Por falar em arrogância, há traços “platônicos” no raciocínio que a imprensa ecoou. Platão não colocou poetas em sua República, Rosenfield não admite operário no Palácio do Planalto.

A dimensão das urnas

No entanto, umas das premissas vendidas a quilo no circo da mídia é a seguinte: o mercado rejeita Lula, logo, sendo eleito teremos o caos, que filósofos traduzem por “estado autoritário” e os mercadores de opinião, por “argentinização” do Brasil…

A luta “pela liberdade de imprensa e pelo estado de direito”, título de manifesto cuja lista de assinaturas é encabeçada por Rosenfield, não é propriedade, não começou e tampouco se restringe ao grupo que subscreve o texto contra a “censura” divulgado após a condenação na Justiça, por difamação, de dois jornalistas gaúchos. As mesmas razões que levaram o grupo a dizer o óbvio agora fizeram com que o ex-governador saísse pelos fundos do Palácio, sem transferir o cargo. Não contente, o grupo se reuniu em torno de uma CPI de cuja instalação participaram o governo e sua base, mas cujos reais objetivos quem revelou foi o deputado Vilson Covatti (PPB), correligionário do articulista Percival Puggina, em entrevista de rádio: “desgastar o governo”. Depois, quando este mesmo ex-governador que saiu pelos fundos processou o jornal Correio do Povo simplesmente porque não lia seu nominho nas matérias do jornal, os paladinos da liberdade de expressão silenciaram. Da mesma forma, onde estavam os arautos da liberdade de imprensa e do estado de direito quando a RBS processou o Sindicato dos Jornalistas do RS?

Mais sobre os signatários do manifesto: o articulista Percival Puggina, na edição passada do OI, perora a respeito de um fato, a destruição do relógio comemorativo dos 500 anos, espalhados Brasil afora pela Rede Globo, que, aliás, já recebeu da Justiça a sua exata dimensão. Percival é colaborador de diversos jornais, na capital e no interior, mas nunca lembrou que os demais relógios da Globo ? cuja participação na história das liberdades democráticas ainda não está totalmente dimensionada ? sofreram depredação em outros estados da Federação. Lembro agora apenas o de Porto Seguro (BA). Registre-se que a polícia baiana ponderou com os pataxós com cassetetes e gás lacrimogêneo, para afastá-los das comemorações, como não cansaram de mostrar as agências fotográficas na ocasião.

Engraçado é que, na imprensa gaúcha, ele raramente assina seus artigos como sendo político do PPB ou presidente da Fundação Tarso Dutra, mas como arquiteto. Seria vergonha de presidir uma fundação financiada por Maluf? Aliás, no RS não é de hoje que malufar virou verbo impronunciável diante das crianças.

A verdade é que esta questão do manifesto e da peroração do malufista diz respeito à disputa política por espaços. Se é verdade que o RS está dividido, metade à esquerda metade à direita, onde está a metade da imprensa que se perfila com a esquerda? Aponte um único jornal! Deixo ao próprio Puggina dizer quem ele é: “Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PPB/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1? vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PPB e integra o diretório nacional.” Quanto à personagem e sua contribuição para a democracia, os eleitores da capital e do estado já deram a exata dimensão de sua importância, afastando-a, todas as vezes que postulou, dos legislativos.

Holofotes e mariposas

Atribuir à pessoa do governador a responsabilidade pelo ato de destruição do relógio dos 500 anos, como fizeram os jornalistas processados, não é só desinformação ou má-fé, mas, principalmente, fazer pouco caso da inteligência das pessoas. Ora, o que Percival tem a dizer a respeito de sua atuação política durante a ditadura?

A segunda personagem da lista que assina o manifesto, que o Observatório também publicou, deu mostra de sua preocupação com a liberdade e o Estado de Direito ao requerer à Assembléia Legislativa, em várias oportunidades, o impeachment do governador do estado. Como os signatários tinham e têm maioria na Assembléia, por que os pedidos, embora fartamente divulgados na mídia, alguns ao vivo no Jornal Nacional, não prosperaram? Não bastasse isso, espalhou pela cidade outdoors com o esdrúxulo pedido.

Os atos de governo, quaisquer que sejam, são a matéria-prima da imprensa. Os do Poder Judiciário, idem. Mas só a imprensa e os jornalistas não podem ser criticados e cobrados por seus erros. Antes só o papa gozava de infalibilidade, agora também jornalista. Se o prejuízo for iminente, que inspire precauções antes que o prejuízo chegue, a palavra é censura prévia. Se for depois, extrapolando os limites de opinião, é cerceamento da liberdade de expressão. E digo isso com a autoridade de quem está sendo processado por “excesso manifesto por parte do demandado” (Processo 00110088904, RS).

Um dos jornalistas condenados pelo Poder Judiciário, membro da trupe que está preocupada com a liberdade de imprensa, acabou de abortar mais uma obra-prima de cima de sua sabedoria. Fiquemos só com o título, que este espaço, como diz o Observatório, não admite palavrão: “Os canalhas do governo”. Outra “reportagem” do famoso superlativo tratava da iniciação sexual do governador Olívio Dutra…

Se, para os romanos, “nenhum caminho é bom para quem não sabe aonde quer chegar”, para certo jornalismo qualquer versão é boa, desde que satisfaça o cliente. Pode-se inclusive atender o interessado simplesmente desmerecendo os que a eles se contrapõem. O pesadelo é ver a esquerda chegar ao poder pelo voto, mas a declaração do megaespeculador Soros, retumbada pela imprensa, de que, no Brasil votam os americanos, soa como música aos ouvidos.

Diz-se do mau advogado que é advogado de porta-de-cadeia. Isto é, urubu da desgraça alheia. Agora estamos também conhecendo os filósofos de porta de redação. Como mariposas, adoram holofotes.

À moda dos citas

A nota da Ajuris sobre o fato que Percival escreveu na edição anterior do Observatório ajuda a entender o vezo do articulista: “E traçar um paralelo entre decisão judicial fundamentada no devido processo legal com o assassinato de jornalista, ocorrido no Rio de Janeiro, sob os auspícios do crime organizado, como pretenderam alguns, ou, ainda, equiparar processo judicial a ato de censura, próprio de regimes totalitários, é, aí sim, um absurdo intolerável. Revela prepotência, pois sonega o direito, ao menos em tese, do ofendido de buscar indenização em juízo. A liberdade de imprensa é característica da democracia, direito fundamental da cidadania à informação. E o direito à crítica é seu traço característico. Mas, como todo regime de liberdades públicas, sofre limitações. É o preceito ético que exige a responsabilidade do profissional por suas opiniões. E o Judiciário é o espaço adequado para receber a pretensão daquele que se sente vítima de ofensa. O contrário traduz vezo autoritário de quem só admite como verdade a sua própria voz, pretendendo imunidade penal e tentando, de forma frustrada, condicionar a atuação judicial. A imprensa livre e o juiz independente não são valores corporativos, mas voltados ao interesse público.”

Engraçada essa turma que elegeu o Poder Judiciário como desculpa, justamente quando a Unicef indicou o Judiciário gaúcho como exemplo na aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente. A briga deste pessoal deveria ser com quem faz as leis, mas aí teria de dar um tiro no próprio pé, já que o mascote da turma, que amadrinha a lista, não vê nenhum problema em seu guru passar oito anos governando através de Medidas Provisórias. O comportamento do Judiciário gaúcho motivou inclusive a visita de senadores mexicanos.

Aliás, o Judiciário gaúcho é pioneiro em várias matérias, como o reconhecimento do direito dos homossexuais, a troca de nome e tantas outras aplicações ditas alternativas. A vanguarda na aplicação do direito sofre ataques justamente da vanguarda do atraso. Como eles nãatilde;o têm o que falar do Poder Judiciário, atacam quem a ele recorre. Este grupo e a imprensa que ataca o Poder Judiciário, e não suas decisões, deveriam dizer se defendem ou não a existência de um Poder Judiciário autônomo, nos moldes da clássica tripartição de Montesquieu.

Se foi o Poder Judiciário que acolheu o pedido, censurando o comportamento pontual dos jornalistas, por que a trupe se volta contra o governo do estado? Simples. Como políticos, sabem que não se chega ao Judiciário pelo voto, mas só ao Executivo e ao Parlamento.

Os citas, povo caucasiano que migrou para o planalto iraniano entre os séculos IX e VII antes de Cristo, tinham alguns costumes muito estranhos. Mas um foi ditado pelas contingências. Relata Heródoto em sua História que, sendo a madeira terrivelmente escassa em seu território, os sacrifícios aos deuses tinha de ser feito de outra forma. Então, para cozer as carnes, eles as desossavam e inseriam-nas, com água, no estômago da vítima, de modo que “um boi se coze a si mesmo”. Os ossos supriam a falta de madeira para cozinhar a carne.

Sob as asas do coronelismo eletrônico

O coronelismo eletrônico deleita-se em cozer seus desafetos, com inteligência, tal qual os citas do Heródoto. Veja como se constrói uma informação (aliás, a Editora Vozes publicou um livro que trata exatamente da perícia da RBS; trata-se de Os construtores da informação: meios de comunicação, ideologia e ética). Com o título “Eles tentam dar a volta por cima” (14/7), o jornal Zero Hora constrói uma informação a respeito de políticos cassados que estão tentando retornar pelo voto. Como sói acontecer, esqueceu de mencionar outro deputado que foi cassado, Ibsen Pinheiro, do PMDB gaúcho, que está tentando voltar. Claro, é seu ex-funcionário.

Por causa de uma disputa política, que a revista Imprensa registrou muito bem, a RBS sempre fez questão de ligar o problema de violência à administração da Secretaria de Justiça e Segurança, ocupada por um desafeto da empresa. As matérias são editadas de tal modo que a associação é imediata. Aí leio no Diário Catarinense, do mesmo grupo, e não vejo a mesma associação. A manchete daquele diário diz que “A violência assusta bairros de São José e de Florianópolis” (13/7), mas o editorialista não liga a criminalidade à política de segurança daquele estado. Dá para entender?

A unificação das polícias pelo Estado foi mais contestada pela RBS do que pelo corporativismo policial. A iniciativa serviu de modelo ao governo federal, que a recomendou a outros estados da Federação. A RBS, ainda não recomposta da ação indenizatória que o secretário de Justiça e Segurança, José Paulo Bisol ganhou, de R$ 1,2 milhão, resolveu dar o troco. No dia de inauguração da nova sede que abrigaria o comando das duas polícias, que contou com representante do Ministério da Justiça, o jornal Zero Hora (5/7) construiu uma reportagem especial para mostrar que a poucos passos do local meninos de rua foram flagrados cheirando loló. Como os meninos de rua cheiram loló em quase todas as cidades, há muitos anos, não teria sofrido nenhum prejuízo se a matéria tivesse saído um dia antes ou um dia depois da inauguração.

Os filisteus migraram da Ilha de Creta para o Egito, depois estabeleceram-se na Palestina. Hoje estão por aí e dizem lutar a favor da liberdade de imprensa e pelo Estado de Direito. Para conseguir o intento pode ser com uma nova forma de mercado, o da especulação, na pessoa de um Soros, por exemplo. Mercados regionais vendem filósofos a quilo como moeda de troca para obtenção de favores. Mercadejar, aliás, é tão antigo quanto a sobrevivência, inclusive para os ditos filósofos. O pai de Zenão de Citium (334-262 a.C.), mercador, leva para ele, de Atenas, tratados socráticos. Zona de fronteira é de contrabando, inclusive de conhecimento. E se a fronteira é a da ética o contrabando torna- se produto explosivo. Aliás, a filosofia agradece aos mercadores na pessoa de Platão, que praticou o comércio como forma de sobrevivência. Mas nesta República, como na de Platão, não há lugar para poetas. Certamente preferiria mercadores ou gente como o rei Dionísios, de Siracusa. Tales de Mileto também teria sido um homem de negócios, mercador de sal. Napoleão filosofava que o bom líder é aquele que age como um mercador.

Portanto, jornalistas de aluguel e filósofos mercadores, não se avexem. Reúnam seus correligionários e vão à luta. O coronelismo eletrônico os guarda e protege.

(*) Funcionário público federal

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