Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ORIENTE MÉDIO

Fixação racial e sofisma anti-semita

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

ORIENTE MÉDIO

Luis Milman (*)

Estabelecer um campo de interlocução moral com o jornalista Arbex Jr. parece-me tarefa impossível. Por isso, farei apenas uma elucidação informativa sobre as distorções que o editor de Caros Amigos apresenta na réplica ao meu artigo, seguida de algumas observações sobre a sua mentalidade anti-semita, com o que darei por encerrado o assunto.

Arbex foi referido em meu artigo por ter feito um comentário delirante sobre a existência de um etnovírus fatal secretamente inventado em Israel. O comentário foi publicado em 1998 e eu o arrolei como ilustração da linha editorial de Caros Amigos que, em sua edição de novembro, publicou uma ladainha racista escrita pelo também jornalista Georges Bourdoukan. Em meu artigo, afirmei que Bourdoukan pratica o anti-semitismo de esquerda, tão nefasto como qualquer outro anti-semitismo. Para quem ainda tem dúvidas sobre a sua índole judeofoba, basta ler o novo e igualmente escatológico artigo que ele publica na edição de número 69 de Caros Amigos.

A contestação ao que escrevi para o OI comprova o apego de Arbex Jr. a insanidades que qualquer pessoa de bom senso detectaria sem esforço. Porque escrevi para pessoas sensatas, não esmiucei a matéria sensacionalista e notoriamente fictícia que apareceu no Sunday Times, em 15 de novembro de 1998, na qual se baseou o editor de Caros Amigos para fantasiar sobre a degenerada ciência secreta patrocinada por Israel. No entanto, como ele continua enredado nesta fixação racial, detalho agora algumas peculiaridades da matéria do jornal inglês.

Tivesse sido menos premido pela apologética anti-semita, Arbex Jr. teria descoberto que cinco dias após o aparecimento da reportagem do Sunday Times, em 20 de novembro de 1998, os repórteres Ronen Bergman e Sharon Gal, do diário israelense Haaretz, publicaram a matéria “O Times foi bombardeado por um novela de ficção científica?”, na qual era revelada a fonte da reportagem sobre o vírus xenófobo: um texto de ficção de autoria de Doron Stanitsky, consultor empresarial e conferencista de Tel Aviv. Ao Haaretz, Stanitsky disse que a reportagem do Sunday Times era quase idêntica à trama que ele havia escrito, inspirada na história do espião Marcus Klingberg, ex-pesquisador do Centro de Pesquisas Nes Tziona, sentenciado à prisão perpétua por passar informações à União Soviética, entre 1957 e 1975.

Na novela, um biólogo chamado Arnaki (equivalente em hebraico ao sobrenome Klingberg) recebe, do então primeiro-ministro Ben Gurion, a tarefa de desenvolver um vírus capaz de afetar apenas aos árabes. Meses depois, Ben Gurion cancela a determinação, por discordar da intenção de Arnaki de testar o vírus em crianças de famílias de judeus iemenitas. Arnaki continua com o programa após a renúncia de Ben Gurion e inocula o vírus em algumas crianças iemenitas, que morrem. O governo, então, decide encerrar o projeto. A trama termina com a prisão e a condenação de Arnaki por espionagem. Por pressão do primeiro-ministro, a Suprema Corte de Israel, segundo a novela, nega-lhe sucessivamente a liberdade condicional, para evitar que o biólogo revele o projeto secreto do etnovírus, batizado pelo autor da ficção de “Operação Semente de Amalek”. Fim da novela

Sem distinção

Entrevistados pelo jornal Haaretz, os repórteres do Sunday Times Uzi Mihnaimi e Marie Colvin negaram ter conhecimento da ficção de Stanitsky e reafirmaram que a história era fundamentada em “altas fontes de espionagem”. O jornal israelense ainda informou que a novela sobre a etnobomba era conhecida dos jornais de Israel desde 1996, dois anos antes da publicação da reportagem do Sunday Times. Naquele ano, Stanitsky enviou 80 cópias da ficção a jornalistas, na tentativa de divulgar o texto e, assim, tentar convencer uma editora a publicá-lo. Não obteve sucesso.

Ao contrário do que Arbex Jr. afirma, o governo israelense jamais declarou nada sobre a notícia. Diga-se, também, que a tolice nunca foi discutida no Parlamento de Israel. O comentário de Dedi Zucker, que em 1998 era parlamentar pelo partido Meretz (ele não é mais parlamentar e deixou o Meretz), foi feito apenas para os repórteres do Sunday Times. Já o ex-secretário de Defesa americano William Cohen, citado na reportagem na condição de quem sabia que “Israel era um dos países que desenvolviam pesquisas nesta área”, negou ter feito qualquer declaração a este respeito. De lá para cá, a peça de ficção reelaborada como péssimo jornalismo vem sendo utilizada apenas para atiçar o imaginário anti-semita, de esquerda ou de direita.

Não duvido que Arbex Jr. continuará sustentando que a história, mesmo assim, é plausível e que o jornal Haaretz não desmentiu definitivamente a reportagem do Sunday Times. É improvável que ele reconheça que a sua crença num vírus patife equivale, em termos racionais, à crença de Bourdoukan na alegada denúncia de que adolescentes palestinos são assassinados para a extração de órgãos (Caros Amigos, 69, dezembro de 2002) ou que Israel foi criado pelos nazistas. E certamente não admitirá que, com Bourdoukan, dedica-se à verborragia do vale-tudo anti-semita.

Em meu artigo anterior, referi que o anti-semitismo, sob o rótulo de anti-sionismo, integra o receituário doutrinário de algumas seitas ultra-anarcotrostkistas obtusas e barulhentas. Algumas delas recepcionaram a tese da negação do Holocausto, mas não fiz menção especificamente aos negadores do Holocausto quando apontei o anti-semitismo dos caros amigos Arbex Jr. e Bourdoukan. A razão é simples: não é preciso negar o Holocausto para ser anti-semita. É suficiente sustentar que os sionistas são iguais (ou talvez piores) que os nazistas, que Israel criou o maior campo de concentração do mundo ou “que Israel é um estado bíblico, fundamentalista, mandatado por um Deus que teria adotado os judeus como povo escolhido”. Quem escreve este tipo de idiotice deve ser chamado de quê? Esta mistura de erudição de almanaque sobre a religião judaica com ignorância instrumental sobre o sionismo é próprio de quem? Respondo eu: de anti-semitas ortogonais, como Arbex Jr..

Arbex Jr. lucubra convulsivamente um devaneio peculiar: ele quer que Israel deixe de ser um Estado judeu para transformar-se num Estado de judeus. Ou seja, com um eufemismo ele pensa ser possível eliminar rápida e seletivamente a existência política de Israel. Um Estado não-judeu de judeus é o máximo que ele tolera, porque, neste caso, não teríamos Estado de judeus nenhum, nem sionismo e nem o conflito com os palestinos. Neste delírio seletivo, tudo no mundo segue como de resto e resolve-se o grave problema do Oriente Médio. A futura Palestina poderá ser um Estado árabe, como querem os palestinos, porque, com relação aos árabes, não vale a distinção aplicável a Israel e aos judeus apenas. A Palestina será mais um Estado árabe, como o são, sem que isto cause maiores inquietações ao editor de Caros Amigos, a Jordânia, a Síria, o Líbano, a Arábia Saudita, o Iêmen, a Tunísia, a Argélia, a Líbia, o Barein, o Catar, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, o Marrocos, o Egito e o Iraque.

Mitômanos

Esta solução parece ser funcional porque para Arbex Jr e sua seita Israel é um Estado judeu no sentido religioso do termo. Um Estado bíblico e ilícito, como ele diz. Já os Estados árabes, como qualquer outro Estado, são nacionais e lícitos. Só assim ficam esclarecidas as premissas do entimema do tal Estado não-judeu de judeus, que o editor de Caros Amigos apregoa e gostaria de ver implantado, talvez como Stálin, no Birobidjão.

Os anti-semitas são inescrupulosos e ficam inventando histórias de terror para camuflar seus desejos velados. Mas, como também são ignorantes, terminam presos nas armadilhas que gostam de armar. O jornalista Arbex Jr. alega que é rotulado de anti-semita apenas porque é um crítico de Israel. Não é nada disso. Há muitas críticas respeitáveis sobre condutas políticas de governos israelenses que nem de longe são anti-semitas ou anti-sionistas. Israel é um ente político e não está acima da crítica ou do protesto, que é livre e pode ser mais ou menos veemente. Ele, Bourdoukan e a revista Caros Amigos não são críticos. São devotos de uma ideologia que não convive com a existência de Israel. E, em nome dela, entregam-se de corpo e alma à mistificação racista.

As opiniões que o editor de Caros Amigos manifesta a meu respeito me são indiferentes e, obviamente, sua noção de sofisma não vale um comentário. Por isso, encerro a incursão que decidi fazer, a contragosto e a título de desmascaramento, pelo terreno desta fabulação sem caráter, a partir do qual Arbex Jr. propõe a sua visão sobre o conflito israelense-palestino. O assunto é sério demais, dramático demais, para ser discutido com mitômanos que acreditam em bombas étnicas.

(*) Professor e jornalista

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