Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

PRIMEIRAS EDIçõES > ENTREVISTA / STUART HUGHES

Flashes de um pesadelo em Kifri

Por lgarcia em 08/07/2003 na edição 232

ENTREVISTA / STUART HUGHES

Daniel Scola (*)

A última lembrança que o jornalista galês Stuart Hughes, 31 anos, guarda da guerra no Iraque é um mosaico de imagens grotescas. Produtor da BBC, detonou com o calcanhar direito uma mina terrestre ao desembarcar do carro que levava sua equipe nos arredores da cidade de Kifri, norte do país. Os momentos seguintes à explosão foram de confusão, gritos, desespero e sangue. O cinegrafista que estava com Stuart, Kaveh Golestan, 52 anos, morreu, atingido por outras duas minas. Iraniano, Kaveh trabalhava para a BBC havia mais de 10 anos, e entre muitos prêmios conquistou um Pulitzer. [Estava no carro também o repórter da BBC Jim Muir, baseado em Teerã.]

"Apesar de gravemente ferido, consigo, ainda que vagamente, lembrar daquele pesadelo", diz Hughes. "Como uma série de flashes e imagens distorcidas. Quando houve a primeira explosão, Kaveh correu para se proteger. Isso acabou sendo fatal para ele. Meu colega e amigo atingido por várias minas e eu com a perna em pedaços e gritando. Achei que seria o meu fim." Além de Kaveh, mais 13 jornalistas morreram durante a guerra no Iraque. A experiência de Stuart em cobertura de conflitos não se resume ao Iraque. Há dois anos, fez pela BBC um curso de reportagem em zonas de conflito. Foi enviado da rede britânica ao Oriente Médio e fixou-se em Jerusalém por alguns meses para acompanhar a nova Intifada.

Hughes teve a perna direita amputada na altura do joelho alguns dias depois do acidente, em março. Desde então, divide o tempo entre Londres e Cardiff, no País de Gales, onde faz fisioterapia de adaptação ao uso da prótese na perna. Nesta entrevista ao Observatório, concedida na Universidade de Cardiff há duas semanas, no dia em que experimentou a prótese pela primeira vez, o jornalista avalia o sistema de correspondentes de guerra incorporados a tropas, fala sobre o acidente e se diz mais consciente agora em relação à segurança. "Consegui escapar com o nível mínimo de ferimentos que a explosão de uma mina terrestre pode produzir. Foi pura sorte."

Funcionou o sistema de jornalistas "embedded"?

Stuart Hughes ? Havia pelo menos três tipos de correspondentes no Iraque: os repórteres embedded (o Pentágono credenciou apenas jornalistas britânicos e americanos para se incorporarem às tropas), os repórteres baseados em Bagdá e os "unilaterais". Muitos deles entraram no Iraque por conta própria (alguns até de maneira ilegal). Eu e minha equipe fazíamos parte do terceiro grupo. Partimos do sul da Turquia em direção ao Iraque um mês e meio antes da invasão anglo-americana, em março. Não me arrependo de ter feito a cobertura como unilateral. Se tivesse me juntado ao exército provavelmente teria chegado muito mais perto da linha de batalha. O problema de ser um embedded é que os jornalistas ficam extremamente limitados no que podem informar. Mas, embora exista censura por parte dos militares, acho que este sistema vai acabar se tornando uma norma.

Como foi o acidente?

S. H. ? Nossa equipe estava em Kifri, no norte do Iraque, onde as forças iraquianas tinham perdido o controle daquela área apenas dois dias antes da nossa chegada. Nós tínhamos a informação de que soldados iraquianos haviam recuado cerca de 20, 30 quilômetros. Este foi um período da guerra em que as linhas de batalha se moviam muito rapidamente. Achei que seria relevante investigar o que estava acontecendo na cidade. Kifri havia caído nas mãos dos curdos, e um dos líderes deles nos cedeu um soldado para nos guiar até um bunker, nos arredores da cidade, que servia como posição de defesa para os iraquianos. Eu queria fazer imagens daquela área.

Quando nós chegamos lá, o soldado que nos guiava pediu ao nosso motorista que parasse às margens da estrada. Ele nos garantiu que o local era seguro, e ter seguido esse conselho foi um grande erro. Saí do carro e imediatamente pisei numa mina. A explosão arrancou parte do meu calcanhar. O cinegrafista que estava comigo correu para se proteger pensando que nossa equipe estava sendo bombardeada. Na verdade, ele acabou correndo na direção de uma área minada. Aquelas últimas imagens que eu tenho do Iraque são confusas, mas eu acredito que Kaveh primeiro pisou numa mina. Com a explosão, o corpo dele foi jogado para a frente, detonado outras minas. Morreu horas depois.

O acidente no Iraque foi o preço que você pagou por não ser um repórter "embedded"?

S. H. ? Posso dizer que tive muita sorte. A explosão poderia ter atingido outras partes do meu corpo. Acho que não seria totalmente correto dizer que meu acidente ocorreu porque eu não era um embedded. Mas seria correto, na minha opinião, dizer que os jornalistas unilaterais como eu tiveram menos sorte do que os outros.

Você tem dito que está pronto para voltar à ativa. Em um eventual novo conflito, você iria novamente como unilateral ou "encaixado" com tropas militares?

S. H. ? Eu diria que, como jornalista, sim, eu estou pronto e gostaria muito de voltar logo à estrada. Depois do meu acidente, quando me trouxeram de volta a Londres, eu vi na televisão as imagens dos palácios presidenciais sendo tomados pelos soldados americanos. Pensei: eu quero voltar pro Iraque! É como se eu tivesse lido um livro de aventura sem poder ler o ultimo capítulo. Eu gostaria muito de voltar a trabalhar em zonas de conflito. Mas agora, tendo o acidente como referência, eu preciso medir melhor cada atitude que eu tomar daqui para a frente.

Preciso, acima de tudo, avaliar bem meus desejos e minhas ambições. Minha família também será um referencial importante quando eu tiver de tomar essas decisões. Se uma guerra começar amanhã, por exemplo, seria muito difícil dizer a minha família: estou de volta à guerra. Acho que seria demais para eles aceitarem o fato de eu estar indo para uma zona hostil. Ainda não sei se estou totalmente preparado psicologicamente para voltar a uma zona de conflito. Eu disse aos meus pais que gostaria de voltar a ser correspondente em Jerusalém. A princípio eles não gostaram muito da idéia, mas eu tenho certeza, com o tempo vão acabar aceitando.

Certamente minha principal preocupação no momento não diz respeito somente a minha segurança. O acidente me fez refletir sobre muitas coisas e eu estou muito mais consciente em relação à segurança agora do que antes de ir para o Iraque. Minha principal preocupação agora é em relação a minha família. Eu não gostaria de ir para um conflito e deixá-los com a sensação de que eu posso não retornar vivo.

Você talvez tenha sido o único jornalista que conseguiu acompanhar a guerra pelos dois lados: na linha de batalha e como telespectador. Como foi essa experiência?

S. H. ? Eu assisti à invasão de Bagdá pela televisão, dois dias depois da cirurgia para amputar a minha perna. É evidente que eu queria ter estado lá. Por outro lado, não importa como as guerras são mostradas na televisão, eu posso dizer que guerras não têm nada de heróico. Não há nada de divertido em fazer a cobertura de uma guerra como jornalista. Muito pelo contrário, estes são lugares onde milhares de pessoas morrem, inclusive alguns jornalistas. É estimulante ir para uma guerra como jornalista, mas todos os mitos sobre ser correspondente de guerra se desfazem quando você é pego num fogo cruzado, por exemplo.

Em termos de balanço e imparcialidade, como foi a cobertura da BBC no Iraque?

S. H. ? De um modo geral, acho que a BBC se saiu muito bem. Nós tivemos muita sorte de ter correspondentes em todas as partes do Iraque, principalmente em Bagdá. A BBC estava ciente das restrições que o Pentágono havia imposto aos jornalistas embedded, e eu acho que os correspondentes da BBC souberam refletir esse aspecto na cobertura da guerra. Pelo fato de a BBC ser uma grande corporação, a cobertura ficou mais interessante tendo repórteres não só no Iraque, mas na Jordânia, no Kuwait, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. A BBC recebeu cartas e e-mails de ouvintes e telespectadores dizendo que a cobertura era pró-guerra na mesma proporção da audiência que dizia que nós fomos contra o conflito. Na minha opinião, esse fato comprova a nossa imparcialidade.

Como você vê o papel do jornalista embedded depois da guerra no Iraque?

S. H. ? Acho que esse sistema tende a se tornar mais importante a cada conflito. Os generais americanos que comandaram o conflito avaliaram esse sistema de forma muito positiva. Agora, eu acho que seria muito perigoso confiar somente no que é dito pelos repórteres encaixados nas tropas. É preciso sempre ter em mente que há um forte controle editorial por parte do exército.

Acredito que a figura deste correspondente tenda a ser mais importante daqui para a frente, mas ao mesmo tempo o exército com certeza vai querer controlar cada vez mais a pauta do jornalista. Basta lembrar que cada correspondente que se juntou ao sistema ganhou um manual elaborado pelo Pentágono com 12 páginas sobre o que eles podiam e o que eles não podiam dizer. Colocar o jornalista com as tropas é questionável do ponto de vista ético. Mas esse sistema é uma tendência que vamos ver mais e mais.

(*) Mestrando em Jornalismo pela Cardiff University, País de Gales

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