Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > MILLÔR, 80 ANOS

Flávio Pinheiro

Por lgarcia em 26/08/2003 na edição 239

MILLÔR, 80 ANOS

"A paz (e o humor) da descrença", copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 22/08/03

"Millôr Fernandes tem um nome a zelar. Um nome desenhado em várias dimensões. Com todas as cores do arco-iris. Só com um traço. Com formatos geométricos, arredondados, vazados, cheios. De centenas de maneiras. No dia 16 de agosto, sábado, fez 80 anos. Há 65 carrega este nome e com uma ponta de orgulho conta ter descoberto que quatro pessoas batizaram seus filhos com o erro ortográfico (ou de caligrafia) que crismou sua irredutível singularidade. Milton, como foi batizado, todo mundo pode ser. Millôr, só ele. E agora estes meninos que vão pagar pela tietagem dos pais.

O número 15 dos Cadernos de Literatura Brasileira, editado pelo Instituto Moreira Salles, é dedicado a Millôr, o humorista cético, o gênio do Méier. Além da entrevista de praxe, são publicados dois inéditos – o roteiro de ?Últimos diálogos? feito para o cineasta Walter Salles mas ainda não filmado e dois quadros da peça Kaos – alguns desenhos, depoimentos e ensaios.

Num dos ensaios, a crítica de arte Sheila Leirner define Millôr como ?único nessa marginalidade de escritor de quadros e pintor de escrituras, desenhista do pensamento, cartunista do literário, crítico do grafismo e humorista da tragédia?. Outros falam do Millôr dramaturgo, tradutor e pensador.

Luis Fernando Verisssimo diz em seu depoimento que já se disse que ?Millôr seria o George Bernard Shaw se este tivesse nascido no Méier. Seria um James Thurber (americano e, como ele, escritor e desenhista) com mais tempo de praia?. E Verissimo reconhece que as comparações são imperfeitas. O que Millôr fazia toda a semana em duas páginas de revista ninguém jamais fez.

Zuenir Ventura lembra ?os trocadilhos, o jogo, a polissemia, a brincadeira vocabular?, marcas registradas de Millôr. ?Para bom entendedor meia palavra basta. Entendeu …becil??, cita. Poderia lembrar também a frase que pôs ponto final na implacável campanha de Millôr contra o cinto de segurança – ?Eu não sou contra o cinto de segurança em si. Sou contra em mim?.

Quando a mãe morreu, Millôr era um menino. Foi para debaixo da cama e chorou sem parar. Encontrou naquele momento o que chamou de ?a paz da descrença?. Em Deus, sobretudo. Em boa parte da humanidade, de quebra. Descrença desconcertante, afiada com humor. Lembro de um desenho enorme na Veja ainda nos tempos de durindana militar. O cenário cheio de cores era de luminosa primavera. Em cena tocantemente familiar, o pai levava o filho pela mão. O menino dizia: ?Pai, quando eu crescer quero ser traidor da minha classe?.

Divagar e sempre. Livre pensar é só pensar. Sérgio Augusto mergulhou num mar de frases para quase impossível tarefa de selecionar para um apêndice dos Cadernos 100 entre 15 mil máximas, aforismos, pensamentos, meditações, apotegmas e gnomas de Millôr. Aí vão dez, só como aperitivo:

– Dinheiro compra até amor verdadeiro.

– Monogamia é a capacidade de ser infiel à mesma pessoa durante a vida inteira.

– O problema de ficar na fossa é que lá só tem chato.

– Se é gostoso, faz. Amanhã pode ser ilegal.

– A morte é hereditária.

– O maior erro de Noé foi não ter matado as duas baratas que entraram na Arca.

– Não existe tendência para engordar. Existe tendência para comer.

– A curiosidade mórbida é a mãe do vidro fumê.

– Há males que vem para pior.

– Quando uma ideologia fica bem velhinha vem morar no Brasil.

No meio de cinco mil livros, dezenas de dicionários, Millôr Fernandes continua em plena atividade. Como ele mesmo já disse uma vez parodiando slogan publicitário: ?Quem não é o maior tem que ser o Millôr?.

* Cadernos de Literatura Brasileira – número 15 – Millôr Fernandes. Editado pelo Instituto Moreira Salles; 184 páginas; R$ 40."

"Millôr Fernandes tem sua obra ?ocasional? devassada", copyright Folha de S. Paulo, 21/08/03

"A carreira de Millôr Fernandes, 80, sempre foi gerida pelo ?ocasional?. Esta é a palavra com que o jornalista explica suas andanças por inúmeras redações de jornais e revistas nacionais e sua atuação em diversificadas áreas artísticas, que abrangem tanto a charge quanto a tradução literária.

?As coincidências em minha vida estão acima da compreensão humana, fora da possibilidade estatística, entrando pela magia e pela metafísica. Com esses acontecimentos não tento nem a ridícula possibilidade de entender. E, por favor, não venham me explicar?, escreveu Fernandes por e-mail, de seu ateliê no Rio.

Da variedade, uma obra foi se consolidando ao longo de mais de 60 anos, desde a criação do pseudônimo Vão Gôgo com o qual assinava a coluna ?Poste-Escrito?, sucesso da revista ?A Cigarra? de 1939. De lá para cá, essa produção ?ocasional? reunida é suficiente para preencher as páginas de um alentado volume do ?Cadernos de Literatura Brasileira?, editado pelo Instituto Moreira Salles, que será lançado hoje no Rio.

?Me sinto -e não estou brincando- como Mestre Vitalino ou o Bispo do Rosário sendo examinados pelos que entendem?, diz o autor de seu refúgio em Ipanema, bairro onde mora desde de 1954, no Rio.

Cidade que é, aliás, o mundo de Fernandes, que não hesita em afirmar na longa entrevista publicada no ?Cadernos?: ?Eu não vivo no Brasil, eu vivo no Rio de Janeiro?. Por isso, as fotos da seção ?Geografia Pessoal? mostram o seu universo das praias, dos teatros e do Méier natal (na zona norte do Rio), as paisagens que alimentam ainda hoje a criatividade do chargista e escritor.

?O ?Cadernos? ajuda a dourar mais um mito. O que vai me fazer ridicularizado no Méier, cuja maior glória até ontem era a grande Fada Santoro.?

E é da faceta teatral do mito Millôr, que já conheceu o sucesso com ?O Homem do Princípio ao Fim? (1967), ?É…? (1977) e ?Os Órfãos de Jânio? (1980), que o livro traz o primeiro e último quadros da inédita ?Kaos?, escrita em 1995, além das anotações do autor para ?Duas Tábuas e uma Paixão? (1982), nunca montada, e trechos de ?Últimos Diálogos?, um roteiro pedido pelo cineasta e colunista da Folha Walter Salles.

?Nunca vou a médico, mas duas vezes por ano vou a um oculista. Mandei imediatamente o ?Cadernos? para ele, o dr. Ghiarone, para que me diga como devo enxergar minha obra, depois deste trauma oftalmológico?, diz.

Esse processo de devassamento de sua vida e obra, Fernandes já vinha experimentando desde o advento da internet. ?Eu me sinto, claro, devassado. Mas isso já era um sentimento que vinha crescendo com o impudor da internet. Todo mundo lê coisas da gente -e até coisas que não são da gente- e colocam na internet. Perdi meu recato, a minha privacidade. Havia coisas minhas que eu não queria ver publicadas, pelo menos não queria ver repetidas.?

Mas o que parece tocá-lo mais é a parte teórica do ?Cadernos?, que traz ensaios sobre o patrimônio humorístico do autor (por Elias Thomé Saliba), seu teatro (por Mariangela Alves de Lima), suas traduções teatrais (por Maria Sílvia Betti) e seu trabalho como artista plástico (por Sheila Leirner), além de um estudo complementar sobre o riso e o humor na filosofia (por Márcio Suzuki).

?Não, não, não me mete nisso. Deixa eu ir à minha praia em passo curto, caminhando na direção contrária?, desconversa.

CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA – MILLÔR FERNANDES. Lançamento: hoje, das 19h às 22h. Onde: Instituto Moreira Salles (rua Marquês de São Vicente, 476, Rio; tel. 0/xx/21/3284-7400). Quanto: R$ 40 (184 págs.)."

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