Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > EM 2003

Folha

Por lgarcia em 08/01/2003 na edição 206

1984 EM 2003

A.D.

Primeiro foi o decreto obrigando repórteres e redatores a indicar a idade de qualquer pessoa citada no noticiário. O tempo de vida de um ministro, presidente, cientista, músico, escritor, atleta ou general passou a ser a segunda mais importante informação da notícia, em seguida à designação do protagonista. Mesmo quando mencionado diversas vezes por dia, todos os dias, e a idade não faça a menor diferença no contexto da notícia.

Agora, com a presença de Fidel Castro nas festas da posse, fica evidente que a Folha avançou no sentido de "normatizar" a manipulação da informação. Os citados, sobretudo quando estadistas, devem ser introduzidos ao leitor com uma etiqueta classificatória.

E pelo Manual de Redação da Folha, não tem conversa: está decidido que Fidel Castro é ditador. Mas se participasse de uma junta militar, não mereceria a qualificação.

Dentro deste raciocínio, os membros da Junta Militar que assumiram o poder no Brasil com a doença de Costa e Silva ? um golpe dentro de um golpe ? não seriam considerados ditadores, mas o próprio Costa e Silva, sim. Ou Médici, ou Geisel.

A decisão é espantosa, embora não seja nova. Mas considerando que a Folha pretende equiparar-se aos grandes jornais do mundo, coloca-se na contramão do jornalismo isento, objetivo e eqüidistante. Nenhum dos pares da Folha (do Washington Post ao El País) ousaria adotar este tipo de editorialização vocabular sob pena de ser definitivamente desmoralizado. Nos piores tempos do stalinismo o Pravda e o Izvestia seriam mais flexíveis e menos preconceituosos. Orwell, com o seu senso crítico, não conseguiria imaginar um mecanismo mais arbitrário para incluir em seu 1984.

A oficialização do procedimento nos leva a outra questão: quem decide o estigma a ser adotado pela Folha na menção a chefes de estado? Empatia, idiossincrasia, referendo interno ou um Conselho de Sábios oniscientes, capaz de decidir hoje como é que um estadista entrará para a história amanhã?

Por que razão Fidel Castro é ditador e George W. Bush (que chegou à Casa Branca através de uma tremenda trapalhada eleitoral) fica com a honrosa distinção de presidente? E Getúlio Vargas como ficará (foi ditador porém morreu na condição de presidente legítimo)?

E por que razão apenas os líderes mundiais são pré-qualificados antes mesmo de se saber o teor de seus atos? Por que a Folha supõe que seu leitor não está familiarizado com o que se passa naquele país? Neste caso, a Folha está qualificando o seu leitor como idiota e a si mesmo de incompetente. Quem anda com o rabo preso no leitor não pode ostentar tamanha arrogância. Ao leitor deve ser oferecida a faculdade de formar seus próprios juízos. É o mínimo que se espera de um jornal.

A Folha conseguiu construir uma bela imagem nos últimos 28 anos. Pode virar pó com meia dúzia de normatizações e decretos semelhantes.

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Magalhães

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