Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO COMPARADO

Folha

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

JORNALISMO COMPARADO

Marcelo Salles (*)


"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar." (Bertolt Brecht, que morreu em 14/8/1956)


Folha de S.Paulo e O Globo são os dois maiores jornais do Brasil. Líderes em suas respectivas praças, não seria demais dizer que, entre os veículos de comunicação impressos, são os que mais influem na formação de opinião dos leitores. Juntos, aos domingos, podem alcançar tiragens superiores a um milhão de exemplares. Cada um com mais de 100 páginas.

Antes de tudo, é preciso ter em mente que ambos atuam conforme a mesma lógica. Folha e Globo dependem do establishment, e por isso trabalham para manter a ordem estabelecida, regulada pelas normas do mercado.

Em função das relações íntimas estabelecidas entre as Organizações Globo e o poder no Brasil, costumamos apontar O Globo como um dos maiores porta-vozes do governo. Um exemplo: entre 29/5 e 3/6 deste ano, 50% das manchetes trouxeram o nome de Lula, 100% das quais favoráveis ao atual presidente. Assim, pode-se dizer que O Globo guarda, além da essência, uma aparência de defensor intransigente do governo.

Com relação à Folha, esta análise requer maior cuidado. Porque, embora suas manchetes e textos não resistam a uma leitura mais aguçada, alguns deles podem parecer extremamente contundentes. Mas apenas parecem. Dois exemplos: "Vendas caem e inadimplência sobe" (FSP, 14/8) e "Classe média corta saúde, escola e lazer" (FSP, 15/6). Em ambos os casos a Folha, baseada em pesquisas, aponta para dois problemas centrais que atingem o Brasil. Assim, sua aura crítica está reafirmada. Mesmo sem buscar as raízes dessas questões ? provavelmente por não ser um jornal radical.

O conselho de Brecht

A questão é que a Folha, em momento algum, relaciona ? e esta seria a chave para verdadeiramente compreender a questão e, assim, caminhar na direção de suas soluções ? a queda das vendas ou a perda de poder aquisitivo da classe média às políticas neoliberais visceralmente estabelecidas no Brasil. Ou seja, o jornal descontextualiza, e mostra uma conseqüência como se fosse causa. Há duas semanas, reproduzi neste Observatório [remissão abaixo] as palavras de Rubens Valente, repórter da Folha:


"Não se pode desconsiderar os fundamentos da Folha, que são claros e estão no Manual de Redação, como a defesa da livre iniciativa, das privatizações e todo o receituário do capitalismo" (revista Contraponto, setembro de 2002).


Portanto, não é tão difícil assim entender as razões que levam estes jornais a não se posicionarem em defesa do interesse nacional. Basta abrir um deles e constatar duas, três páginas de propaganda dos mesmos bancos que lucram, em apenas um semestre, bilhões no Brasil. Nenhum deles é nacional. Ou pelas empresas de telefonia que reajustaram suas tarifas em mais de 500% desde a privatização. Ou de faculdades particulares que formam profissionais para as filas de garis. E por aí vai…

Na semana passada, as manchetes do Globo e da Folha (15/8), respectivamente "Apagão pára Nova York e espalha o medo" e "Blecaute atinge EUA e Canadá e causa medo", evidenciaram mais do que a falta de liberdade dessas publicações. Ao destinarem ao tema cerca de 1/3 de suas primeiras páginas, entre textos e imagens, e de imprimirem um tom de catástrofe à notícia, Globo e Folha deixaram claras suas predileções pela capital financeira do mundo. O flagelo da Aids na África, os 50 milhões de brasileiros que vivem na miséria, a destruição de uma civilização de sete mil anos no Iraque: nada disso foi noticiado como "um caos", ou em termos equivalentes, pela mídia grande.

O monopólio da informação no Brasil é tão descarado que, ao fim do Jornal da Globo, Ana Paula Padrão pode se dar o luxo de dizer, sem medo de errar: "E você já sabe o que vai estar nas manchetes dos principais jornais de amanhã".

Globo e Folha: dois jornais grandes, dois jornais perigosos. Cada qual a seu estilo, obedecendo à mesma lógica. Melhor seria lê-los conforme recomendação de Bertold Brecht: desconfiando.

(*) Estudante de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense

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