Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > EXCLUSÃO DIGITAL

Folha de S.Paulo

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136

EXCLUSÃO DIGITAL

"Os sem-tela, copyright Folha de S. Paulo, editorial, 15/8/01

"Uma das dimensões da exclusão social é a perversa seletividade do acesso à educação e à tecnologia, que limita as possibilidades de os indivíduos de baixo poder aquisitivo prosperarem profissionalmente.

Reportagem publicada no domingo neste jornal revelou porém a existência de ofensiva contra o ?apartheid digital?, uma tendência positiva no país, representada pelo acesso crescente das classes C e D à internet. Esse dado é relevante porque os novos limites do analfabetismo estão na capacidade de as pessoas lidarem com a informática, generalizada no mercado de trabalho -daí a gravidade do problema dos ?sem-tela?.

Embora ainda limitada (cerca de 19% dos 11 milhões de internautas), a participação das classes C e D no ciberespaço exibe crescimento maior quando comparada às classes A e B, resultante do maior acesso a linhas telefônicas e facilidades para aquisição de computador. É significativo o esforço dos governos, empresas e organizações não-governamentais para permitir o acesso dos excluídos à internet. Tais experiências são vistas em prisões, favelas, bairros periféricos, onde se espalham telecentros, mantidos pelo setor público, ou laboratórios geridos pela comunidade.

Nada porém é mais decisivo para o combate ao apartheid digital do que conectar as escolas públicas à internet. Há verbas federais para isso, asseguradas pelo Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações), extraído do faturamento de empresas de telecomunicação. Como governantes preferem habitualmente inaugurações vistosas à promoção silenciosa da formação de mão-de-obra, é importante prestar atenção ao uso dos recursos.

Não existe segurança quanto ao bom emprego dessas verbas. Em muitas escolas, os laboratórios de informática são subutilizados ou permanecem fechados. Diversos professores ainda resistem à adoção de novas tecnologias. O grande nó da divisão digital reside hoje menos no acesso aos computadores e mais em escolas capazes de ensinar aos alunos os benefícios da internet."

 

"Só Internet não basta", copyright O Estado de S. Paulo, editorial, 19/8/01

"O Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveu uma ?estrada? virtual, de mão dupla, aproximando a escola – no sentido mais amplo da palavra, do ensino básico ao universitário – da realidade profissional, seja a das empresas, seja a dos empregados ou desempregados. A proposta é simples: quem tem ou procura informação, seja ela qual for, acessa, via Internet, um espaço virtual chamado Cidade do Conhecimento. Nesse espaço, a informação é sempre posse coletiva e a procura dela é, também, um problema de todos. A mediação entre quem precisa e quem oferece informações será feita pelo IEA da USP. Todos os ?habitantes? ou visitantes da Cidade do Conhecimento são voluntários. O professor universitário ou o empresário que responder ao aluno ou ao trabalhador, empregado ou desempregado, estará dividindo seu conhecimento por livre e espontânea vontade.

As possibilidades de um projeto como esse são impressionantes. Mais de 600 escolas, das redes pública e particular, já procuraram o instituto da USP para integrar o projeto. Mais de uma centena de empresas, de médio e grande porte, já são ?habitantes? da Cidade do Conhecimento, com o direito de consultar e ser consultadas. Organizações não-governamentais, com diferentes objetivos, e várias secretarias do governo estadual apoiaram a iniciativa.

Diferentes núcleos de excelência acadêmica internacionais já foram contatados pela USP e aceitaram ter endereço na nova cidade. A meta de reunir pessoas, de lugares e grupos sociais os mais diferentes, para dividir conhecimento já é uma realidade, virtual, porém realidade.

O objetivo do projeto é oferecer, aos que mais precisam, o acesso mais fácil possível ao melhor conhecimento. As escolas públicas e as comunidades mais carentes serão, provavelmente, as mais beneficiadas, desde que exista um ?gerente de conhecimento?, que organize tanto o acesso como as informações dadas. Esse deverá ser o papel dos professores e pesquisadores da USP.

A Internet oferece um universo de conhecimento para os que dominam as formas de apreendê-lo. O professor Alfredo Bosi, um dos inspiradores do projeto da Cidade do Conhecimento, há anos fez uma observação pertinente sobre o uso educativo da Internet: quem não sabe perguntar, quem não sabe como perguntar, pouco fará com a ?torrente de informações? oferecida pelas redes eletrônicas. O professor Bosi lembrou o essencial: ?O que resolve colocar um analfabeto na Biblioteca do Congresso em Washington?? A Internet tem potencial educativo inimaginável, desde que alguém capaz cumpra a dura rotina de ensinar a perguntar e a entender a resposta.

Todos repetem que o meio mais rápido de melhorar a qualidade de ensino na escola pública, de oxigenar o dia-a-dia do mundo do trabalho, de atualizar conteúdos programáticos na universidade é a inserção, o mergulho, na vida digital. Sem ?mediador?, porém, esse mergulho quase sempre se transforma em navegação sem bússola. Apenas a ?curiosidade? digital não constrói conhecimento organizado. O computador é uma ferramenta essencial para satisfazer essa curiosidade, mas informática é veículo, não destino. Alguns políticos estão confundindo essas duas diferentes instâncias, imaginando que distribuir computador, por mágica, gera evolução. É preciso um ?gerente? auxiliando a metamorfose entre a intenção, a curiosidade e a assimilação real do conhecimento. O projeto Cidade do Conhecimento pode se constituir em bom modelo dessa ?gerência?. Tudo dependerá de sua execução."

    
    
                     

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