Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > CINEMA NA NET

Folha de S.Paulo

Por lgarcia em 29/01/2003 na edição 209

TV DIGITAL

“Projeto digital”, editorial, copyright Folha de S.Paulo, 27/1/03

“A escolha do padrão de TV digital do Brasil foi adiada no final do governo FHC. O debate ressurge na proposta endossada pelo ministro das Comunicações, Miro Teixeira, de desenvolver um padrão nacional para essa tecnologia.

A proposta pode ser extrema, como quem imagina o Brasil criando um novo padrão, exclusivo, para disputar mercado com os padrões norte-americano, europeu e japonês.

Como já ocorreu na TV em cores, o país teria sua própria tecnologia. E assim como o governo já encorajou o sistema PAL-M e a nacionalização da informática, a nova fronteira tecnológica seria desenvolvida em contraponto ao que já se faz no exterior.

A tradução mais pragmática de uma política nacionalista para a televisão digital, no entanto, é a que vê no mercado brasileiro uma espécie de “âncora” de todo o mercado latino-americano e busca tirar vantagem disso, nacionalizando ao máximo a produção de componentes e o desenvolvimento de softwares e projetos de utilização ampla da nova tecnologia. Mas sem criar um padrão novo, mesmo porque os já existentes podem até convergir, com o tempo, para um único padrão mundial.

Não se trata apenas da contraposição entre padrões tecnológicos. Os aspectos econômicos são ainda mais relevantes. Um dos principais problemas no setor eletroeletrônico de consumo brasileiro é a elevada dependência de importações.

Reduzir esse déficit comercial por meio da substituição de importações é urgente. Mas uma política industrial nessa direção não pode focar apenas a televisão digital. Somente uma visão integrada dos setores intensivos em tecnologia da informação poderá conduzir a um modelo racional e viável. Dada a escassez de recursos públicos, é duvidoso que a TV digital seja o principal gargalo.

A inclusão digital é uma dimensão crucial do desenvolvimento. Reduzir esse projeto ao financiamento de um padrão próprio para a TV do futuro exige muito mais que os pareceres de setores empresariais diretamente interessados em favores estatais.”

“A Matrix da mídia (II), copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 26/1/03

“?De novo essa história??, perguntará você ao ver o título da coluna desta semana. Infelizmente sim. É que durante a semana recebi algumas manifestações por emeio que me fizeram pensar em continuar no assunto por mais uma semana (embora ache, para ser sincero, que deveria ser objeto de colunas por muitas mais, mas nem a sua paciência, nem a minha agüentariam).

Essas manifestações se dividiram em dois tipos: umas enfocando o lado propriamente técnico da questão da TV Digital; outras falando sobre a idéia de que há uma Matriz que enforma as visões da mídia brasileira dentro de padrões preestabelecidos, geralmente fabricados fora do nosso país. Sobre as primeiras mensagens, não há muito o que fazer – os seus remetentes simplesmente não entenderam do que eu estava falando. A respeito do segundo tipo de emeios, estes sim tocaram no ponto certo e se dividiram em dois subtipos: os que concordavam comigo e os que discordavam, sendo que o primeiro subtipo apresentava ainda uma outra divisão: alguns, apesar de concordarem comigo, não viam a questão como muito grave.

Para responder aos remetentes que discordavam e aos que concordavam, mas não viam muito problema na existência da Matriz, resolvi seguir no exemplo da TV Digital e fiz uma pesquisa rápida na internet. A idéia era ver como eu – um jornalista mediano – me sairia usando uma ferramenta de pesquisa ao alcance de todos os que trabalham em redação numa busca por fontes diferentes daquelas ouvidas sempre e outra vez a respeito da questão.

Não foi preciso muito tempo – mais ou menos uns 20 minutos no total, divididos em duas sessões – para descobrir, por exemplo, que o Laboratório de Sistemas Integráveis da Universidade de São Paulo já tem praticamente pronto um protótipo de um ?set top?, uma caixinha, capaz de trabalhar com qualquer dos três sistemas de TVD em estudos no Brasil (ATSC, DVB e ISDB). Esta caixinha sairia por algo em torno de R$ 30,00, segundo o professor Marcelo Krönich Zuffo que coordena os estudos ao lado do engenheiro Regis Rossi Alves Faria. Um decodificador similar, que também permita acesso à internet como o brasileiro, sai no exterior por cerca de US$ 800 (algo em torno R$ 2.800,00, com o dólar a R$ 3,50), enquanto um mais simples sai por US$ 150 (R$ 525,00).

Mas tem mais. Na mesma entrevista concedida à Agência USP de Notícias em junho de 2002, o professor Zuffo dava o desenvolvimento do ?set top? como exemplo de que os cientistas do país teriam condições de criar um sistema digital brasileiro. ?Tecnicamente falando, somos capazes de ingressar neste mercado utilizando tecnologia brasileira?, dizia o pesquisador.

O professor Zuffo detona duas ?verdades? preconizadas pela Matriz quando o assunto é TV Digital no Brasil: o tempo necessário ao desenvolvimento de um sistema brasileiro e a falta de escala para a produção. Sobre o primeiro ponto, o cientista calcula que o desenvolvimento do padrão nacional levaria um ano, mais ou menos. Em relação ao segundo, o docente da USP afirma que um país com 54 milhões de aparelhos de TV como o Brasil pode muito bem ter um padrão próprio. ?Nosso sistema poderia ser uma boa mistura dos três existentes?, diz Zuffo, ecoando a idéia que os chineses tiveram quando fizeram os testes de campo em seu país.

Mas não foi só na entrevista de Marcelo Zuffo à agência da USP que encontrei um furo na matriz. Outra publicação universitária paulista, o Jornal da Unicamp, publicou em outubro matéria com a equipe da universidade que estuda a questão. Nela, mais uma afirmativa matricial vai para o beleléu: a de que a TVD, num país como o Brasil, ajudaria na chamada inclusão digital. Uma idéia, aliás, defendida até pelos que querem um sistema totalmente nacional.

Segundo o professor Dalton Soares Arantes, do Departamento de Comunicações da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Unicamp, a TVD nem de longe está com essa bola toda nessa área. ?Chega-se a sugerir que a TV digital poderia servir como alívio para as mazelas sociais, inserir o cidadão no mundo digital, prover serviços de telecomunicações de forma eficiente e barata, atender receptores fixos, móveis e portáteis, além de levar a TV de alta definição a todos os lares sem o auxílio de antenas externas. Infelizmente, tais afirmações carecem de suporte técnico e podem desviar o foco das discussões realmente importantes?, afirma o cientista.

Entre estas discussões, segundo o professor da Unicamp estaria uma básica: afinal o que espera o telespectador brasileiro de uma TV digital? De acordo com Dalton Arantes, pesquisa feita pelo CPqD em parceria com a Anatel mostrou que o mais importante para as pessoas é uma imagem de alta definição. Ou seja, o sistema, num primeiro momento, poderia ser mais simples, permitindo uma entrada mais barata no mundo da TV digital.

Bem, como espero ter demonstrado, não é preciso apelar para Morpheus e Neo (os personagens de Lawrence Fishburne e Keanu Reeves em Matrix) para furar a Matriz da mídia aqui no Bananão. Basta saber o que se quer, ter curiosidade, um pouco de paciência e acesso à internet. Não se precisa saber muito de tecnologia – embora, em minha pra lá de discutível opinião, não ter informações básicas sobre tecnologia hoje é como não saber o nome do técnico atual da seleção brasileira de futebol -, mas é essencial ter disposição para pensar e duvidar de tudo, principalmente das idéias que são muito repetidas. Isso não se ensina nas escolas de jornalismo? Não. Nem nas de história, direito, medicina…Talvez só nas de filosofia. Mas nem precisa: curiosidade e ceticismo para jornalista é que nem agilidade para quem quer ser capoeira – se não tem, deve procurar outra coisa para fazer da vida.

Servicinho – Para quem quiser entrar em contato com os pesquisadores citados, os emeios são mkzuffo@lsi.usp.br (Marcelo Zuffo), regis@lsi.usp.br (Regis Faria) e dalton@decom.fee.unicamp.br (Dalton Arantes).”

 

CINEMA NA NET

“Produções na internet com prazo de validade”, copyright O Estado de S.Paulo, 22/1/03

“Cinco entre os maiores estúdios cinematográficos dos Estados Unidos investiram pesado em mais uma tentativa de estancar a sangria em seus cofres provocada pelo comércio ilegal de filmes na internet. Sony, Universal, MGM, Paramount e Warner acabam de inaugurar, em fase ainda experimental, o Movielink (www.movielink.com), um serviço de aluguel de filmes voltado aos usuários de banda larga.

Pouco mais de 200 filmes estão disponíveis para locação, entre os quais, títulos lançados recentemente e que nem sequer ganharam ainda versões em DVD. O serviço, em sua fase inicial, está disponível apenas para os usuários americanos, mas a intenção, dependendo dos resultados, é alcançar Europa, Ásia e América Latina ainda este ano.

Em relação às tentativas anteriores, o Movielink apresenta algumas diferenças fundamentais, o que não significa nenhuma garantia de que desta vez vai dar certo. Os preços cobrados são mais baixos do que aqueles praticados no mercado real, até porque os filmes, embora com boa qualidade de vídeo e áudio, apresentam padrão inferior aos DVDs.

Mas a novidade maior está na tecnologia aplicada para ?entregar? os filmes aos usuários interessados e que define bem a mais nova estratégia dos estúdios. O usuário entra no site, escolhe a fita que quer assistir, paga o valor correspondente e baixa para o seu computador um imenso arquivo.

A partir deste momento, ele tem duas opções: assistir ao filme imediatamente ou em até 30 dias. Decorrido este prazo, uma parte do arquivo é corrompida e o acesso ao seu conteúdo passa a ser negado, embora o filme – ou o que sobrou dele – continue ?morando? no seu HD.

Da mesma forma, quem começar a assistir o filme, terá 24 horas para concluí-lo, sob pena de acontecer o mesmo ?truque? descrito acima. É como se as fitas fossem entregues com a velha e eficiente mensagem característica dos melhores episódios de Missão Impossível: ?Este filme se autodestruirá em alguns segundos.?

Embora o serviço esteja respaldado por um segmento expressivo da indústria cinematográfica, outros grandes estúdios ficaram de fora por discordarem – ou não acreditarem no sucesso – da nova estratégia adotada. É bom lembrar que o prazo de validade para programas de computadores não é nenhuma novidade e até aqui não foi impeditivo para a disseminação de cópias não autorizadas. Se vai ser diferente com filmes, o tempo dirá.

Chineses ultrapassam japoneses ? Pouca gente duvidava, mas muitos achavam que demoraria um pouco mais. Não é só a economia chinesa que dá provas de uma vitalidade impressionante. A internet também explodiu na China, a ponto de colocar o país na segunda posição do ranking mundial em número de usuários. No mês passado, 59,1 milhões de chineses estavam conectados à internet, um contingente 184% maior do que aquele registrado em dezembro de 2001. A previsão é de que ao fim de 2003, pelo menos 90 milhões de chineses acessem a internet.

O Japão, com 58 milhões de internautas, está agora em terceiro lugar no ranking. Os Estados Unidos, com 140 milhões de usuários, permanecem na liderança isolada, mas isso é apenas uma questão de tempo até que sejam ultrapassados pelos chineses. Juntos, os três primeiros colocados no ranking (EUA, China e Japão) representam 40% da população mundial com acesso à internet.

Vale lembrar que a parcela de chineses conectados representa menos de 5% da população total do país, de quase 1,3 bilhão, segundo o censo mais recente.

O perfil do usuário chinês não difere muito do perfil da internet mundial. A maior concentração de usuários está na faixa etária entre 18 anos e 24 anos (37% do total). As mulheres chinesas já respondem por 41% do acesso total à internet no território chinês.

Internet atrás das grades ? Nem tudo é um mar de rosas na internet chinesa. De acordo com a organização não-governamental Repórteres sem Fronteiras (www.rsf.org), existem atualmente 42 pessoas condenadas e presas em várias partes do mundo por supostos crimes políticos praticados na Web. Entre esses dissidentes do mundo virtual, 34 são chineses.

A maior pena de prisão, no entanto, foi imposta pelo Tribunal Popular de Hanói, no Vietnã do Sul, a Nguyen Khac Toan, condenado no mês passado a 12 anos de prisão. Em meados do ano passado, o governo vietnamita interceptou várias mensagens eletrônicas enviadas por Toan para diversas entidades internacionais que atuam na luta pelos direitos humanos.

Em novembro, outros três conterrâneos de Toan foram condenados a penas de 4 a 6 anos de prisão, por motivos semelhantes. De acordo com a RSF, tais condenações confirmam a determinação do governo de Hanói de aliar-se à política chinesa de repressão massiva aos usuários da internet.

A entidade também chama a atenção para a situação na Tunísia, ao destacar o caso de Zouhair Ben Yahyaoui, editor do site TunEzine (www.tunezine.com). Em junho do ano passado, ele foi preso e condenado a 28 meses de prisão por divulgar em seu site documentos com críticas ao presidente Ben Alí.

Ironicamente, um desses documentos foi uma carta enviada por um juiz local ao ministro da Justiça com duras críticas ao sistema judicial vigente no país.”

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