Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DE GUERRA

Folha de S. Paulo

Por lgarcia em 07/05/2003 na edição 223

COBERTURA DE GUERRA

“De olho em 2004, Bush faz ?show? para a TV”, copyright Folha de S. Paulo, 3/05/03

“Classificada por jornalistas e analistas como cenas ?ao estilo Top Gun? ou ?de um episódio de John Wayne?, as imagens de George W. Bush a bordo de um porta-aviões que voltava da guerra no Iraque, transmitidas anteontem pelas TVs, são parte de uma cuidadosa operação de marketing com o objetivo de impulsionar sua candidatura à reeleição, no ano que vem.

Com um capacete de piloto debaixo do braço e uniforme militar completo, o presidente desceu do avião no qual aterrizara no USS Abraham Lincoln com a pose de quem acaba de voltar da guerra. Abaixo do pára-brisa, lia-se a inscrição ?George W. Bush – Comandante-em-chefe?. Sobre uma passarela, uma grande bandeira proclamava: ?Missão cumprida?.

?Foi um golpe de mestre midiático?, disse o analista Thomas Mann, do Instituto Brookings. ?É a quintessência do marketing para promover um presidente?, disse.

Para o analista Dennis Goldford, da Universidade de Drake, no Iowa, a Casa Branca pretende, com o ?show? de Bush, manter o estado de mobilização da opinião pública sobre a questão da segurança nacional e da guerra contra o terrorismo, na qual o presidente leva vantagem sobre seus adversários democratas, considerados ?pacifistas?.

Segundo pesquisa publicada ontem pelo jornal ?Washington Post?, Bush sai do conflito com o Iraque com sua popularidade em alta, mas enfrenta a desconfiança da população em relação à sua capacidade de lidar com os problemas econômicos e as questões internas americanas.

Enquanto 75% e 79% disseram, respectivamente, aprovar a forma com que Bush administrou a situação no Iraque e a guerra contra o terror, apenas 52% aprovam sua condução da economia, 50%, sua política de impostos, e, 43%, sua proposta para o Orçamento federal.

Para os analistas, isso indica que Bush terá de lutar para não repetir os erros de seu pai, há 11 anos: mesmo após derrotar Saddam Hussein na Guerra do Golfo, em 1991, George Bush não conseguiu ser reeleito em 1992. O mau desempenho da economia foi apontado, na época, como principal razão para sua derrota eleitoral para Bill Clinton. (Com agências internacionais)”

“Crítico acusa imprensa dos EUA de ajudar na propaganda da guerra”, copyright Último Segundo / Reuters (www.ultimosegundo.com.br), 2/05/03

“É uma das imagens mais famosas da guerra: um soldado norte-americano escalando uma estátua de Saddam Hussein em Bagdá e estendendo a bandeira dos Estados Unidos sobre o rosto do tirano deposto.

Mas, para o editor da revista Harper?s, John MacArthur, essa imagem de vitória militar norte-americana também é indicativa de uma campanha de propaganda sendo conduzida pelo governo George W. Bush.

?Foi uma oportunidade fotográfica criada para os comerciais de reeleição do presidente?, disse MacArthur, autodenonimado autoridade em matéria de propaganda governamental americana, em entrevista. ?A CNN, a MSNBC e a Fox caíram direitinho?.

Em 1992 MacArthur escreveu ?Second Front: Censorship and Propaganda in the Gulf War? (Segundo Front: Censura e Propaganda na Guerra do Golfo), uma crítica arrasadora de atos do governo e da imprensa que, segundo afirmou, induziram o público ao erro após a invasão iraquiana do Kuweit, em 1990.

Na opinião dele, pouca coisa mudou desde aquela primeira guerra no Iraque, e isso o levou a trabalhar sobre uma edição atualizada de seu livro.

Para MacArthur, especialistas em relações públicas do governo norte-americano ainda redigem artigos falsos para fomentar os interesses do governo, e jornalistas crédulos acreditam em tudo e os reproduzem.

O porta-voz da Casa Branca Scott McClellan negou que exista alguma campanha de propaganda da administração e previu que o público norte-americano vai considerar essa idéia ridícula.

Um porta-voz do Pentágono negou que tenha ocorrido qualquer planejamento em torno do aparecimento da bandeira dos EUA em Bagdá. ?Me pareceu algo bem espontâneo?, disse o tenente-coronel da Marinha Mike Humm.

MacArthur insiste que as duas guerras do Golfo foram marcadas por histórias falsas criadas para enganar o público em momentos críticos das hostilidades.

BEBÊS E BOMBAS

Na véspera da Guerra do Golfo de 1991, foi divulgado que os soldados iraquianos tinham tirado bebês kuweitianos de incubadoras em hospitais e os deixado para morrer. Não foi verdade, disse MacArthur.

Desta vez, afirmou ele, o governo Bush fez declarações falsas sobre armas nucleares iraquianas, dizendo que Bagdá estaria tentando importar tubos de alumínio para produzir urânio enriquecido e que o país estava a seis meses apenas de construir uma ogiva nuclear.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) constatou que os tubos em questão eram para foguetes de artilharia, não para armas nucleares.

MacArthur disse ainda que um suposto relatório da AIEA sobre o qual a Casa Branca teria baseado suas afirmações sobre a capacidade iraquiana de construir armas nucleares simplesmente não existiu.

Cynthia Kennard, professora da Escola Annenberg de Jornalismo da Universidade da Carolina do Sul, disse que o governo Bush dominou a arte de construir imagens favoráveis dele mesmo na mídia e moldar mensagens para adequar-se a seus interesses.

?Isso gerou uma certa paralisia na categoria dos jornalistas?, disse Kennard, ex-correspondente da CBS na Guerra do Golfo de 1991. ?Este não é um momento muito bom para perguntas e respostas inequívocas.?

O CIRCO DE RUPERT MURDOCH

MacArthur não se preocupa com o patriotismo exacerbado manifestado por redes de TV a cabo como a Fox News Channel, de Rupert Murdoch, que supera a CNN e a MSNBC em audiência.

?Isso apenas significa que Murdoch sabe conduzir o circo melhor do que os outros. A guerra e o chauvinismo patriótico sempre vendem bem. Os verdadeiros danos foram provocados pela imprensa de alto nível?, disse MacArthur.

?No que diz respeito à propaganda, o New York Times foi mais responsável por convencer o público da necessidade da guerra do que qualquer outro jornal ou organização de mídia.?”

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