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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > BBC & DAVID KELLY

Folha de S.Paulo

Por lgarcia em 29/07/2003 na edição 235

BBC & DAVID KELLY

“Site da BBC diz que empresa tem gravação de conversa com Kelly”, copyright Folha de S.Paulo, 24/7/03

“A rede BBC disse ontem possuir a gravação de uma conversa de um de seus jornalistas com o cientista David Kelly, na qual o especialista em armas britânico, encontrado morto na semana passada, manifestaria sua preocupação com o modo como o governo de Tony Blair construiu e apresentou seu dossiê sobre a ameaça militar iraquiana nos meses que antecederam a Guerra do Iraque.

A notícia sobre a suposta fita foi divulgada no próprio site da BBC, num artigo do jornalista de mídia Torin Douglas, mas não foi confirmada pela assessoria de imprensa da BBC.

Segundo o texto, a BBC consideraria a gravação um elemento ?útil? para se defender na atual polêmica com o governo britânico e poderia apresentá-la como prova no inquérito público sobre o caso, que será realizado pelo juiz Brian Hutton.

A gravação teria sido feita pela jornalista científica Susan Watts, do programa de TV da BBC Newsnight, e não reproduziria a conversa de Kelly com o jornalista Andrew Gilligan, também da BBC, autor do polêmico artigo no qual o governo Blair foi acusado de ter exagerado -ou ?tornado mais sexy?- a ameaça iraquiana, quando apresentou seu conjunto de justificativas para a Guerra do Iraque, em setembro de 2002.

Pelo que se sabe até o momento, o especialista em armas biológicas do governo britânico David Kelly era a fonte não identificada citada no artigo original de Gilligan.

Entretanto, após o governo ter negado categoricamente as acusações de manipulação e acusado a BBC de ter inventado a história, Kelly teria procurado membros da administração Blair para dizer que suas declarações não teriam sido reproduzidas com exatidão.

Pouco depois, seu nome foi tornado público como fonte principal da reportagem. Diante da intensa pressão que se seguiu, inclusive com uma convocação para depor no Parlamento britânico, ele acabou aparecendo morto, provavelmente em consequência de suicídio.

Sua morte teve grande impacto no Reino Unido, e o governo está sendo acusado de ter exposto desnecessariamente Kelly ou de tê-lo pressionado de forma indevida, tendo, portanto, uma responsabilidade indireta por sua morte.

O governo joga a culpa na BBC, que teria distorcido as afirmações do cientista.

Ontem, o ministro da Defesa britânico, Geoff Hoon, principal suspeito de ter revelado o nome de Kelly como fonte da reportagem da BBC, visitou a viúva do cientista, mas negou-se a fazer qualquer comentário. Acredita-se que, se o inquérito sobre o episódio concluir que o governo agiu de forma imprópria, Hoon seja forçado a abandonar o cargo.

O premiê Blair voltou ontem ao Reino Unido, após uma viagem de cerca de uma semana aos EUA e à Ásia, e terá de enfrentar a mais grave crise desde que chegou ao poder, em 1997.

Ele também está acuado porque as forças de ocupação anglo-americanas no Iraque ainda não acharam as armas de destruição em massa iraquianas. Estas, segundo o próprio premiê, eram a principal justificativa para a guerra.”

“BBC tem fita de cientista confirmando acusação”, copyright O Estado de S.Paulo, 24/7/03

“A BBC (emissora pública de rádio e televisão) informou ontem que dispõe de uma fita gravada de David Kelly, na qual o cientista manifesta preocupação pela forma como o governo apresentou relatórios para justificar a guerra contra o Iraque. A gravação não só confirmaria Kelly como a fonte da denúncia divulgada pela emissora de ?esquentamento? dos relatórios pelo governo, como eximiria a BBC de insinuações de que, também ela, ?exagerou? em seus comentários sobre a questão. E explicaria também a recusa categórica da direção da emissora de retratar-se.

Kelly, antigo inspetor de armas da ONU no Iraque, suicidou-se na semana passada quando teve seu nome revelado como fonte da BBC, provavelmente pelo Ministério da Defesa – do qual era destacado funcionário.

A fita foi gravada pela jornalista Susan Watts (do programa Newsnight, da BBC2), que entrevistou o cientista. Nela, com a condição de anonimato, Kelly expressa grande apreensão pela política do primeiro-ministro Tony Blair, em relação ao Iraque, chegando a defini-la como obsessiva.

A BBC deverá entregar a gravação ao juiz James-Brian Hutton, encarregado de investigar a morte de Kelly. O juiz deverá apurar se o cientista foi convenientemente tratado pelo governo ou se acabou sendo vítima de uma encenação destinada a tirar o foco da opinião pública de seus argumentos para levar a Grã-Bretanha à intervenção militar no país árabe.

Kelly, de 59 anos, teria dito ao ministro da Defesa, Geoff Hoon, que a entrevista dada à BBC poderia ter sido usada pela emissora na denúncia. Hoon prometeu que não revelaria o nome dele. Mas disse, em público, que identificara o informante. Poucas horas depois, o nome de Kelly apareceria nos tablóides londrinos.

Blair negou categoricamente que tenha dado autorização para a divulgação, deixando claro que o caso ?era e é? da competência do Ministério da Defesa.

Hoon também negou ter permitido o ?vazamento? e se colocou à disposição do juiz Hutton. Ontem, Hoon visitou a viúva de Kelly, que tinha três filhos.

?Vim fazer uma visita à senhora Kelly?, limitou-se a dizer aos jornalistas que lhe pediam uma entrevista. (Associated Press, Reuters, France Presse, EFE e DPA)”

“A fonte que se matou”, copyright O Globo, 25/7/03

“Tony Blair corre o risco de ser o primeiro chefe de governo na história do Estado moderno (ou mesmo em qualquer tempo) a ser derrubado por se revelar mais indiscreto do que a mídia é acusada de ser.

Se você não tem prestado atenção ao noticiário, trata-se do triste fim de David Kelly, cientista e funcionário do Ministério da Defesa da Grã-Bretanha. Ele se matou na semana passada cortando um pulso (e não ambos, como é comum). A causa do suicídio foi a revelação – por setor não identificado do governo – de que ele fora a fonte da BBC (corporação pública de rádio e TV) para uma denúncia cabeluda: o governo Blair adulterara um dossiê, exagerando o perigo representado por Saddam Hussein.

No debate que se trava na Inglaterra sobra para todo mundo. Há quem acuse o governo de ter identificado Kelly para desmoralizar a BBC, porque ele não teria qualificação suficiente para a denúncia que fez. É uma teoria curiosa, porque não perdoa ninguém: a indiscrição de Blair seria um golpe sujo em resposta ao uso pela emissora de uma fonte inadequada para grave acusação.

Colher a informação certa no lugar errado ou de forma errada não é raro no dia-a-dia dos meios de comunicação – e representa um dos mais delicados problemas éticos da profissão. Mais sobre isso nos últimos parágrafos.

Blair realmente exagerou nos argumentos que justificavam a invasão do Iraque. Isso é atestado pela confissão oficial em Washington de que o governo americano fez exatamente isso. Os aliados na ação militar têm os mesmos motivos – e os mesmos pretextos. Mas o episódio também pôs em discussão o comportamento da BBC. Sendo rede pública (financiada com recursos oficiais), muitos jornalistas afirmam que ela não deveria competir no mercado das informações exclusivas e sensacionais.

Faz algum sentido, mas também fica a impressão de que isso reflete principalmente irritação com o sucesso do concorrente. E mais importante é o fato de que a BBC soube proteger sua fonte e o governo foi irresponsável ao identificá-la. As pesquisas de opinião mostram que os ingleses não estão vendo sangue nas mãos dos jornalistas e sim nas dos políticos. Não é por acaso que esta semana Blair tentou tirar o corpo fora, dizendo que não partira dele a ordem para revelar o nome da fonte da BBC. Segundo a imprensa inglesa, ele estaria se preparando para entregar o ministro da Defesa, Geoff Hoon, e assim salvar a própria pele.

Para quem faz e para quem recebe notícias a um oceano de distância da Inglaterra, o episódio é didático. Ele faz lembrar que uma fonte não se torna mais confiável por dizer aquilo que o jornalista tem certeza que é verdade. E que uma notícia não merece selo de autenticidade apenas por confirmar certezas pessoais.

Isso é verdade mesmo quando são os políticos, e não os repórteres, que levam uma fonte a cortar o pulso.”

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