Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES >

Folha de S. Paulo

Por Eleonora de Lucena em 05/10/1997 na edição 31

Poucas personalidades no país expuseram tanto a sua vida pessoal ao público como a atriz Vera Fischer. Em sucessivas entrevistas, a ex-miss Brasil falou de tudo: de seus filhos, maridos, do consumo de drogas e de suas experiências sexuais heterodoxas. Em bares e em shows, revelou sua personalidade sem autocensura. Elogiada pela beleza e pelas qualidades de dramatização, virou o principal mito sexual no Brasil.

Por isso, quando a Redação da Folha recebeu a notícia da internação de Vera Fischer, sob suspeita de overdose, houve alvoroço. Nesses momentos, é preciso discutir como fazer uma edição sóbria, sem exageros ou hipocrisias.

Seria exagero superdimensionar o ocorrido. Seria hipócrita considerar que não havia notícia, que a internação intempestiva se restringia ao interesse privado da família da ex-Jocasta da TV.

Há um indiscutível interesse coletivo pela vida da atriz. Um fato que o jornal não pode ignorar em nome de uma falsa devoção à privacidade atingida. Foi a própria musa que escancarou a sua privacidade e fez disso instrumento para a manutenção de sua imagem controvertida.

Na edição daquela sexta-feira, 5 de setembro, a informação foi colocada em terceiro lugar na hierarquia da primeira página. Ocupou duas colunas acima da dobra.

Na opinião dos leitores da Folha, era exatamente onde ela deveria estar. Pesquisa realizada pelo Datafolha naquela manhã, ouvindo 360 assinantes do jornal no Brasil, trouxe o ranking das notícias que mais interessavam no dia: a rainha Elisabeth falando sobre Diana; o erro na contabilidade das importações e Vera Fischer, em terceiro lugar.

Este foi o único dia em que o assunto Vera Fischer esteve acima da dobra na primeira página e foi manchete do caderno Cotidiano/São Paulo. Foi o momento identificado, também pelos leitores do jornal, como o mais forte do caso, quando a notícia, pelo seu inusitado, gerou mais curiosidade.

Nas duas semanas seguintes, o tema voltou outras cinco vezes à primeira página, sempre abaixo da dobra. Mostramos a atriz acenando da janela da clínica (foto em duas colunas, quarta na hierarquia da página e quarta na escolha dos leitores). Na segunda-feira, 8, publicamos nota informando sua saída da clínica.

Uma semana depois, Vera Fischer (ganhando um troféu no Rio) foi a segunda foto da primeira página. Estava abaixo da foto de Ronaldinho. Na opinião dos leitores ouvidos no Brasil, a imagem de Vera deveria estar até no alto da página – foi mais citada do que a do jogador como a melhor do dia (os leitores da Grande São Paulo preferiam a imagem de Ronaldinho).

Depois, Vera Fischer voltou à primeira quando obteve acordo para ver o filho e quando decidiu se internar novamente. Em todas as reportagens, está presente a versão da assessoria da atriz, quando ela mesma não fala.

Assim, considero que a cobertura do caso Vera Fischer na Folha teve um tom sóbrio e informativo. Sem ignorar a importância da personagem para o público e a curiosidade que o seu drama gera. Nossa pesquisa com os leitores comprova esse acerto.

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