Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Folha: novo surto de “pesquisótica”

Por lgarcia em 20/06/1998 na edição 47


NOS PRIMEIROS QUINZE DIAS de junho a Folha publicou sete matérias sobre pesquisas eleitorais. Cinco delas foram manchetes de primeira página. Significa uma a cada dois dias. Não foram pesquisas diferentes, resultaram de apenas duas sondagens feita pela empresa do grupo cujo único cliente é o próprio jornal (fim de maio e primeiros dias de junho).

No caso da disputa presidencial as matérias eram simples reiterações – o que sinaliza para um evidente uso político do resultado destas aferições.

A Folha volta ao velho estilo de fazer barulho a qualquer preço. Poderia fazer o mesmo usando o seu qualificado corpo de repórteres e articulistas. Prefere fazer jornalismo sem jornalistas. Substitui o debate de idéias pela simulação estatística.

É mais fácil, mais barato e permite o mais pernicioso tipo de factóide: a falsa exatidão dos números. E a campanha eleitoral sequer começou. Imaginem o que virá depois.

(Levantamento realizado por Guilherme Cardoso, jornalista estagiário da equipe televisiva.)

NOSSOS JORNALÕES FIZERAM UM pequeno registro no sábado (13/6/98) sobre novo escândalo na mídia americana: a confissão do repórter de uma das mais confiáveis revistas americanas de que 27 das suas 41 matérias foram feitas com material inventado. Algumas inteiramente fabricadas, de ponta a ponta.

A longa reportagem do New York Times do dia anterior, que motivou a repercussão, não foi reproduzida pelos órgãos brasileiros que detêm seus direitos. Fornece detalhes impressionantes sobre o estado da mídia no país que tem a melhor mídia do mundo.

Stephen Glass, este ambicioso e talentoso repórter de 25 anos, que já desempenhara com muita competência a função de fact-checker (checador, inexistente em nossas revistas) era tão bom profissional que, apesar da idade, foi promovido a editor-assistente.

A fraude apareceu no dia 1/6, quando o New Republic pediu desculpas públicas por três matérias de Glass. Como a revista já havia sido fraudada por uma repórter há alguns anos, a própria equipe dirigente da revista assumiu a investigação de cada uma das suas 41 matérias. Fizeram a reportagem da reportagem: foram à rua, buscaram as fontes, os telefones, e-mails – tudo furado.

O mais incrível, reconhecem os investigadores, é que o trabalho de Glass para mascarar, disfarçar e armar as falsas indicações aos checadores foi muito maior do que se tivesse efetivamente falado com fontes e fatos verdadeiros.

Tudo indica que atrás desta formidável teia de mentiras esconde-se apenas um ingrediente – a paranóia do sucesso. Glass queria chegar lá. E depressa. Já era colaborador da Rolling Stone, George e Harper’s. Já vendera uma matéria para a prestigiosíssima New Yorker e preparava outra para a revista dominical do NYTimes. A matéria sobre o “Caso Glass” saiu com outra, no mesmo dia e jornal, sobre a validade da função do checador diante da megafraude.

Para que o leitor brasileiro possa avaliar a dimensão do problema precisa saber que nas revistas de prestígio (o New Republic é uma delas, apesar da pequena circulação), cada repórter ou articulista, contratado ou free-lance, deve entregar aos checadores todas as suas anotações, fitas, vídeos, números de telefone, etc. Esta função inexiste no Brasil (na Veja a checagem factual, ortográfica, geográfica ou histórica, era realizada pelo Dedoc). Nenhuma revista brasileira investiga a investigação.

APONTADO COMO MODELO DE EFICÁCIA da auto-regulamentação ética, o Conar acaba de ignorar solenemente mais uma violência: o anúncio do modelo Galant da Mitsubishi, veiculado no JB, dia 11/5, p. 21. Diz o seguinte:

“Na última vez que o Japão e Alemanha estiveram tão próximos eles quase dominaram o mundo. Desenho alemão, potência alemã, preço japonês.”

Só faltou proclamar – Viva o Eixo!

(Ver abaixo remissão para texto sobre publicidade do Globo.)

É CORRETA A ATITUDE da Folha de licenciar os articulistas da nobilíssima página dois que venham a ligar-se ao Executivo: casos recentes de André Lara Resende e José Serra.

Mas por que mantém representantes do Legislativo? Delfim Netto e José Sarney são isentos? Parlamentares acima dos interesses pessoais e partidários?

A ENTRADA EM CENA de Época trouxe para o campo das revistas a guerra de preços até então travada nos cafundós da imprensa popular (ver abaixo remissão para “Época começa com guerra de preços”). Plantada a semente do diabo, breve a teremos reproduzida no olimpo da grande imprensa com conseqüências imprevisíveis para a pluralidade de opções jornalísticas.

Na resposta ao novo concorrente (que sai aos sábados) Veja antecipou para o mesmo dia sua data de saída. E, como não poderia deixar de ser, adiantou em mais de 12 horas a hora de fechamento das matérias. Como não pode puxar o início dos trabalhos semanais para o domingo, temos a mesma revista, com igual número de páginas, elaborada num período de tempo menor. Com a inevitável perda de qualidade informativa.

Numa demonstração de total descaso para os leitores que pagam adiantado, a revista continua sendo entregue aos assinantes no domingo.

EXEMPLO DA POLITIZAÇÃO do problema da droga e da complacência dos jornalistas com relação ao narcotráfico é o texto divulgado pela Folha (12/6/98) na capa do caderno local com o título “Estudo desvincula tráfico de violência”.

O trabalho, realizado pela Fundação Escola de Sociologia e Política (Fesp) fez o levantamento das prisões das pessoas acusados de uso e tráfico de drogas nos distritos da capital paulista no segundo semestre de 1996 (há dois anos). Segundo a pesquisa o maior volume de prisões de traficantes acontece no centro e zona norte da cidade. E na zona sul, considerada a mais violenta da cidade, é onde ocorre o menor número de prisões por causa de drogas.

Com base em números referentes a um período em que o desemprego não era tão agudo o jornal afirmou em manchete (e deu seqüência no dia seguinte) que não existe a suposta vinculação da violência com o uso e tráfico de drogas. Em outras palavras: a violência tem origens sociais, culpa do governo.

Ora, o estudo trata da prisão de suspeitos por uso ou tráfico de drogas. Refere-se à repressão. Não envolve mortes entre bandos de traficantes, as famosas chacinas.

No dia seguinte, 13/6, os jornais de S. Paulo, inclusive a Folha noticiavam o 44º massacre do ano (ao longo de 1997 ocorreram 47, indício de que neste ano o número deve dobrar). Nesta chacina foram liquidados quatro amigos que dormiam num casebre da zona oeste e ferida gravemente uma adolescente de 13 anos, grávida. A polícia acredita que este novo serial killing – que jamais vai para a primeira página – está ligado à cobrança de dívidas entre traficantes.

Com base em estudos mal digeridos e este tipo de “jornalismo crítico” passa-se para o leitor a idéia que o narcotráfico afinal não é tão diabólico.

(Nota de 17/6: emissoras de rádio e televisão noticiam chacina, na madrugada, de 11 pessoas em Francisco Morato, Grande São Paulo. Motivo apontado pela polícia: drogas.)

O JORNALISTA ELIO GASPARI passou três semanas no semi-árido do Nordeste para ver de perto a seca e a fome. Sua matéria foi publicada no domingo (14/6) por O Globo e Folha (que também publicam suas colaborações semanais).

O Globo valorizou o trabalho com manchete de primeira página: “MST fez 20% dos saques mas ficou com metade da comida”. A Folha não viu importância suficiente para destacá-la na primeira página.

Nas páginas internas, os títulos foram praticamente iguais, prova de que respeitaram o autor: ‘Na seca de 98 a fome mostrou (mostra) a cara do saque’.

Antetítulo da Folha: ‘Sem comida, flagelados saqueiam depósitos oficiais, colocam tema na ordem do dia e abalam governo FHC’.

Subtítulo de O Globo: ‘Ação de flagelados e de sem terra põe a nu quatro séculos de empulhação e impulsiona onda de radicalismo oportunista”.

O Globo destacou em separado a história de um pequeno comerciante arruinado por um saque em 1958. No texto da Folha esta história não aparece.

O trecho em que o repórter se refere à visita presidencial deu título principal numa das páginas da Folha: ‘FHC bate o ponto e ignora os saques’. Antetítulo: ‘Presidente passa poucas horas em Tejuoca, no CE’.

O Globo titulou o mesmo trecho assim: ‘Quatro de maio de 98, o dia de todos os saques’. Antetítulo: ‘A população sofrida quer é trabalho, dignidade, não esmola, diz o presidente ao bater o ponto no sertão’.

O trecho do qual O Globo tirou a manchete denunciadora sobre o MST foi colocado pelo repórter (e mantido pelos dois jornais), no penúltimo parágrafo do texto.

O nome desta disciplina poderia ser Jornalismo Comparado.

 

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