Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > SEQÜESTROS

Francisco Leali e Chico Otavio

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136


SEQÜESTROS
Angélica Santa Cruz e Alessandro Greco

“Notícias de um seqüestro”, copyright No. (www.no.com.br), 21/08/01

“Há alguns meses, logo depois de um culto da igreja evangélica Vida Nova, no Jaguaré, zona oeste de São Paulo, a estudante Patrícia Abravanel, 24 anos, comentou com amigos que andava se esforçando para desenvolver algum interesse pelos negócios do pai, o apresentador Silvio Santos. Dono de um império de comunicação que inclui 32 empresas e com patrimônio pessoal declarado de cerca de 900 milhões de reais, o empresário não raro se queixa de que nenhuma de suas seis filhas demonstra interesse suficiente para um dia tocar os negócios da família. Parecida fisicamente com o pai – ambos têm o mesmo sorriso largo, por exemplo – Patrícia garantiu aos colegas dos cultos, que se realizam sempre às quintas, que queria também se aproximar mais das preferências profissionais dele. Na manhã de hoje, a mais risonha das quatro filhas que o empresário teve com a segunda mulher, Íris Abravanel, foi sequestrada na porta de sua casa, uma mansão no bairro do Morumbi de onde costumava sair com apenas um segurança.

Aluna do curso de Rádio e TV da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Patrícia começou em maio do ano passado um estágio no Departamento de Marketing do SBT. Por ali, sempre teve atuação discreta. Bonita, extrovertida e namoradeira, Patrícia passou a adolescência entre as aulas e as pequenas farras noturnas com amigos – sempre acompanhada de longe por um motorista e um segurança. Há três anos, resolveu dar uma pausa e passou uma temporada em Londres. Na volta, adotou comportamento mais caseiro. Ficava com os pais – que, por sinal, fazem questão de jantar com as filhas todos os dias. Como o resto da família, Patrícia não freqüenta eventos dedicados a celebridades. No máximo, os desfiles beneficentes promovidos pela mãe para levantar recursos para a Escola do Futuro, uma instituição que recebe estudantes carentes.

Como as irmãs – Daniela, Rebeca e Renata, filhas de Silvio com Íris, e Cíntia e Sílvia, do primeiro casamento do empresário – Patrícia presenciou uma guerra santa em família, quando a mãe resolveu tornar-se evangélica. Como o empresário é judeu, a estudante chegou a participar da cerimônia de bat-mitzvá, que marca a entrada das judias na vida adulta. Mas não deixou de acompanhar a mãe nos cultos evangélicos e – pelo visto – gostou. Além de participar de cultos, eventualmente promovia preces em sua casa. O flerte de Íris Abravanel com a igreja neopentecostal chegou a alimentar boatos de que Silvio Santos estaria insatisfeito com a escolha. No templo da Vida Nova, Patrícia sempre manteve discrição quanto a uma eventual crise conjugal dos pais. Mas deixou claro que havia optado pelo ramo evangélico da família.

Horas depois da confirmação do seqüestro de Patrícia, a direção do SBT enviou às redações dos principais jornais e emissoras de rádio e TV do país um apelo para deter a cobertura do sequestro. ?A família de Patricia Abravanel solicita, de comum acordo com as autoridades, para evitar violência ainda maior contra ela e para não prejudicar contatos e investigações, que o caso não seja noticiado, em nenhuma forma, em nenhuma hipótese.?, diz a nota. Alguns veículos silenciaram. Outros, como a TV Globo, foram em frente. A emissora passou o dia emitindo boletins sobre o seqüestro, com chamadas ao vivo da porta da mansão do empresário. Procurada pelo site bluebus, a emissora explicou que tem como norma não deixar de divulgar nenhum crime público de que tenha tomado conhecimento. Segundo ela, a experiência mostra que a divulgação nunca coloca em risco a vítima e tem favorecido a elucidação dos crimes.

De qualquer forma, o apelo do SBT causou reação semelhante a dos pedidos de Gugu Liberato em relação à notícia de que sua amiga, a médica Rose Souza di Matteo, estava grávida de um filho dele gerado por inseminação artificial. Os dois apelos tratam de um tipo de conduta que não integra as normas da casa. Em março de 1999, durante o seqüestro do compositor Wellington José de Camargo, irmão dos sertanejos Zezé di Camargo e Luciano, o SBT acompanhou e divulgou todas as investigações e cada contato dos seqüestradores com a família da vítima. Foi uma cobertura tão detalhada que, num bilhete enviado aos parentes do refém, os autores do seqüestro pediam que a polícia fosse afastada do caso e que Zezé e Luciano utilizassem o programa do Gugu para enviar mensagens.

Em fevereiro passado, durante a mega rebelião que se alastrou por vários presídios de São Paulo, os espectadores do Domingo Legal assistiram a conversas por celular entre Gugu e presos rebelados. Em meio ao bate-papo, o apresentador aproveitava para perguntar se os amotinados estavam vendo seu programa. ?Sim! Estamos vendo, sim?, respondia o detento. Em abril, um preso rebelado na penitenciária regional do Carumbé, em Cuiabá, interrompeu as negociações com a secretaria de Segurança Pública afirmando que só encerraria a rebelião depois de dar uma entrevista para o apresentador. Nas democracias, o destino das notícias são os olhos e ouvidos do público. A menos que se acredite que, dependendo da importância dos personagens envolvidos, as pessoas só tenham direito de conhecer-lhes o lado risonho da vida.”

 

“Approbato é favorável à divulgação”, copyright O Globo, 23/08/01

“Entre o direito da população de ser informada sobre um seqüestro e o da família da vítima de manter o caso sob sigilo, não há consenso. Consultados sobre o assunto, autoridades e advogados divergem sobre qual deve ser a atitude dos meios de comunicação diante dessa situação. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Rubens Approbato, e o corregedor-geral de Justiça do Estado do Rio, desembargador Paulo Gomes, defenderam a divulgação como um recurso importante para a solução do caso.

– É uma questão delicada, que envolve o problema íntimo da família e o interesse público, por se tratar de um crime hediondo que não pode ficar oculto. Acredito que o seqüestro poderia ser divulgado para que não se fique submetido aos bandidos, mas não dá para criticar uma família que queira ser preservada – disse o presidente da OAB.

O corregedor Paulo Gomes afirmou que, a partir do momento em que as próprias autoridades, através de serviços oficiais, estimulam as pessoas a denunciar crimes, não há como impedir a divulgação dos fatos. Para ele, o silêncio sobre o crime só beneficia os seqüestradores.

– Se os autores do crime exigem que não se dê a divulgação, isso me parece um indício de que a não divulgação é favorável a eles – disse.”

O ministro da Justiça, José Gregori, é contrário à divulgação.

– O apelo da família deve ser respeitado. Não é uma decisão estática, mas, estando em jogo a vida de uma pessoa, a imprensa deveria se resguardar – disse Gregori.

Já o coordenador da central Disque-Denúncia no Rio, Zeca Borges, é favorável à divulgação de notícias sobre seqüestros porque, segundo ele, com isso a população pode ajudar, fornecendo informações vitais para se elucidar os crimes. Em 1995, quando o Disque-Denúncia foi criado, contribuiu para a libertação de duas estudantes que eram mantidas em cativeiro por seqüestradores no Rio.

Borges afirma que, ao divulgar notícias de seqüestro, a imprensa impede que a polícia fique sozinha na luta contra esse tipo de crime.

– A solidariedade da população é fundamental, trazendo novas informações para a polícia – acredita Borges.

O procurador-geral de Justiça do Estado do Rio, José Muiños Piñeiro Filho, acha que a publicação de informações afeta as investigações.

– Recomenda-se que a imprensa não dê informação sobre o fato imediatamente enquanto não for orientada pela autoridade policial.

Para o advogado carioca Ivan Nunes Ferreira, a decisão deve ser tomada de acordo com a consciência dos responsáveis.

  • Há, por um lado, o direito de informar. E, por outro, razões humanitárias. Cabe a um dar valor a esses dois pesos.”

 

“Jornais do RJ noticiam sequestro de filha de Silvio Santos”, copyright Vox News, 22/08/01

“Jornais cariocas – O Globo, O Dia, Extra e Jornal do Brasil – mantiveram o compromisso com a notícia e divulgaram todas as informações sobre o sequestro de Patricia Abravanel, uma das filhas de Silvio Santos, que pediu silêncio aos meios de comunicação. Tanto O Globo, quanto a Rede Globo informaram em suas matérias que, desde 1990 divulgam todos os sequestros explicando que o silêncio favorece apenas um lado – o dos bandidos – e, devido as notícias, vários casos foram solucionados. Os meios de comunicação de São Paulo estão respeitando o apelo do empresário.”

    
    
                     

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