Segunda-feira, 21 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Frei Betto

Por lgarcia em 06/02/2002 na edição 158

BIG BROTHER BRASIL

"Reality Show", copyright Correio da Cidadania, 2/02/02

"Sim, quero ver a tua vida em detalhes, minuto a minuto, e ouvir as palavras que jorram de tua boca, rir o teu riso e enraivecer-me com o teu rancor, assistir à tua paquera, ao teu namoro, ao teu gesto de carinho, à tua transa, espelhando tua beleza em minha indigência.

Quero deixar de lado amizades, trabalhos, livros e lazer e, de olhos pregados em tua magia, absorver a tua arte de movimentar-se no labirinto da quimera, livre de dores e afazeres, mergulhado na fama e na fortuna.

Venerarei o teu ócio na vitrine, exibindo-te sem pudor a milhões de olhos, despido por infinitas imaginações, liberto das grades odiosas dessa existência de penúria anônima, escrava da rotina atroz de quem jamais aprendeu a voar, nem foi aquinhoado pela sorte.

Abrirei em meu monitor a porta da tua casa mágica e, sob o peso de minhas carências, ingressarei virtualmente em tua liberdade, no teu gozo, no teu charme, no teu riso, na tua sensualidade, como quem toca com os olhos os veneráveis ícones que nos fazem transcender da mediocridade cotidiana.

Minha fidelidade ao teu exibicionismo será a chancela que sacramentará a tua vida como real e, do lado de cá, buscarei a alforria de minha indigência em tuas loucuras, em teus jogos e em tuas danças. Quero decifrar em ti a minha própria intimidade, rasgar a minha alma em tuas mãos e deixar a minha mente impregnar-se dessa ilusão que faz de mim teu pequeno irmão.

Recobrirei a minha realidade com a tua fantasia e farei de teu espetáculo o brilho de meus olhos vazados, nessa permuta hipnótica de quem busca a complacência com seus próprios limites para tentar encobrir a mesquinhez que me corrói.

Ficarei atento ao teu banho, ao teu sexo, à tua ira e às tuas refeições, fiel à exposição perene deste teu ser desprovido de preocupações e conteúdos, entregue a esta liberdade que faz de ti o que não sou, e me permite projetar em teu vigor as minhas fraquezas e em teu esplendor o sabor amargo de meu anonimato.

Verei em tua janela, que se abre para a minha casa, a subversão de todos os valores, como se nos cômodos que te abrigam findassem todos os princípios, escorrendo pelo ralo tudo aquilo que num lar soava como sinônimo de família. Ampliados pela eletrônica, meus olhos contemplarão as tuas intimidades mais ousadas. Sentirei os teus odores e beberei o teu suor.

Esticarei o meu olhar até os limites proibitivos do escárnio e, quem sabe, verei o teu rancor extirpar toda a inveja que jaz em meu peito e a tua voracidade explodir em taras que haverão de suprir os meus desejos mais ignóbeis e saciar as minhas pulsões mais abjetas.

Deste lado da tela, sentirei os teus sentimentos e comungarei as tuas emoções, vendo-te virar pelo avesso nesse zoológico de luxo, exposto à multidão como carne no açougue, a engordar no balcão do voyeurismo a gorda soma dos teus patrocinadores.

Em ti livrar-me-ei de todo ideal que não seja fazer da vida um jogo de entretenimentos, a sedução epidérmica como sucedâneo de quem não atinge as profundezas do amor, vendo-te representar a ti mesmo sob os aplausos invejosos de meu olhar sequioso, preso ao teu desempenho huit-clos.

Aprisionarei a tua vida em meu olhar, tornar-me-ei teu carcereiro eletrônico, decidindo o teu presente e o teu futuro, absolvendo-te ou condenando-te, juiz supremo que se ignora refém do próprio equívoco.

Inebriado com as tuas loucuras, te elegerei objeto supremo de minha admiração, deixando-me devorar pelo teu sucesso, do qual farei tema de todas as minhas conversas.

À espera de que os corvos venham devorar o meu coração, e agora que a nossa história foi para os quintos dos infernos, quero ser consumido e consumado por ti, arrancando de meus olhos todas as escamas, até que eu possa ver também ao vivo, na busca desenfreada de audiência, o marido espancar a mulher; o filho estuprar a mãe; o pai assassinar a filha; enfim, o horror, pois sei que o show não pode parar e que o seu limite é não ter limites. (Frei Betto é escritor, assessor de movimentos sociais e pastorais, e autor do romance ?Alucinado Som de Tuba? (Ática), entre outros livros)"

 

"Realidade caricata", copyright IstoÉ, 4/02/02

"Ninguém escapa do Grande Irmão e de seus olhos opressores e onipresentes, que a todos espreita na sociedade vigiada do angustiante livro 1984, do escritor inglês nascido na Índia, George Orwell (1903-1950). Para repetir este estranhamento adaptado para o entretenimento e transformado na mania mundial de as pessoas bisbilhotarem a vida alheia, a Rede Globo gastou algo em torno de R$ 25 milhões na esperança de angariar o maior número possível de espectadores para seu Big Brother Brasil, versão do programa holandês exibido em 21 países. Pelo menos na estréia, a audiência bateu nos satisfatórios 49 pontos. Em compensação, o resultado se mostrou sofrível e constrangedor. Não dá para engolir a alegria ensaiada dos 12 participantes da gincana televisiva. Felizes e exibidos, eles nitidamente interpretavam para as 38 câmeras e 60 microfones espalhados pelo local, como um bando de escoteiros seguindo as orientações do líder.

A emissora alardeou e jura que todos saíram de uma seleção entre 500 mil inscritos por carta e pela internet. Mas ao que parece muitos olheiros da Globo participaram da escolha, escalando bonitões e bonitonas. Seja como for, o fato é que na estréia alguns participantes foram ostensivamente privilegiados pela edição totalmente videoclipada para forçar um glamour – artificial, é certo – que diferenciaria o programa do similar Casa dos artistas, do SBT, que no passado se transformou em febre nacional. Só que beleza e corpos sarados também cansam e a chatice dos chamados reality shows tende a prevalecer. Até o momento, a produção e os apresentadores Pedro Bial e Marisa Orth – em evidente pagação de mico consentida pela obrigação profissional – estão fazendo de tudo para apimentar a rotina da casa construída especialmente para o programa. Impuseram um teste de resistência metendo os 12 concorrentes dentro de um carro para ver quem aguentava o sufoco e levava o prêmio de quatro rodas. O modelo Caetano foi desclassificado da prova porque não aguentou e urinou num balde, dentro do automóvel."

 

"BBB", copyright Folha de S. Paulo

Dia 2 – "O sr. Otavio Frias Filho, diretor de Redação, quando travestido de articulista, não consegue esconder o ranço antipetista que permeia as edições do jornal que dirige (?BBB?, Opinião, pág. A2, 31/1). Misturando alhos com bugalhos, critica o Partido dos Trabalhadores ao fazer análise da epidemia de mau gosto que inunda os meios de comunicação televisiva por meio dos ?reality shows?. O que espera o sr. Frias? Que o PT organize passeatas contra essa distorção de diversão social promovida pela mídia? Há assuntos muito mais relevantes e sérios para um partido como o ?nosso (…) de esquerda? ocupar seu tempo. Cesar Luiz da Silva Pereira (Curitiba, PR)

Há algum tempo, quando as Organizações Globo e a Folha se uniram para lançar o projeto do jornal ?Valor Econômico?, vi e ouvi, até mesmo no ?Painel do Leitor?, as mais exasperadas reações contra a parceria. Os argumentos eram que a Folha deixaria de ser imparcial quando o assunto a ser tratado pelo jornal fosse relacionado à Rede Globo. O artigo ?BBB?, de Otavio Frias Filho, prova que a Folha não perdeu a coragem, a imparcialidade e a ousadia após a parceria. O texto engrandece ainda mais a já elevada reputação desse jornal. Victor Hugo Rodrigues Alves Ferreira (Ribeirão Preto, SP)

Dia 1 – ?Com relação à reportagem ?Estréia afeta processo judicial contra o SBT? (Ilustrada, pág. E1, 29/1), em que a Folha envereda por interpretações jurídicas sobre o plágio de que fomos vítimas com ?Casa dos Artistas?, fazemos os seguintes esclarecimentos: Em nenhum momento a direção do ?Big Brother Brasil? questionou o fato de a tal ?Casa? ser uma cópia. O que foi dito e publicado fora de contexto é que, embora seja um plágio descarado -qualquer telespectador pode comprovar-, tínhamos certeza de que o resultado no ar seria diferente. E foram citados os motivos: não seriam artistas desempenhando papéis, o sistema de eliminação seria transparente -entre outros cuidados que não foram tomados com a ?Casa?, talvez propositadamente, com o objetivo de mascarar a evidente cópia. Na verdade, como já é público, não só pela semelhança absoluta entre os programas, o SBT rompeu as negociações com a produtora do programa, já tendo posse de todo o projeto necessário para levar o produto ao ar. E assim fez.? (Luis Erlanger, Central Globo de Comunicação (Rio de Janeiro, RJ)"

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