Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO INVESTIGATIVO

FSP / Painel do Leitor

Por lgarcia em 31/10/2001 na edição 145

ANTRAZ, ANTHRAX OU CARBÚNCULO

"Antraz", copyright Folha de S. Paulo, 25/10/01

"Em livros de dermatologia (Sampaio, Azulay e outros) e de doenças infecciosas e parasitárias (Veronesi), antraz e carbúnculo são doenças distintas: antraz é infecção estafilocócica, aglomerado de furúnculos, enquanto carbúnculo é uma zoonose (bactéria carbunculosa ou B. anthracis), eventualmente transmitida ao homem (?anthrax?, em inglês). Em relação aos dicionários, quem cometeu o erro (provavelmente responsável) foi o clássico Candido de Figueiredo, que no seu ?Dicionário da Língua Portuguesa? coloca antraz como sinônimo de carbúnculo. Outros dicionários (?Aurélio?, ?Houaiss?) copiaram o erro de Candido de Figueiredo. Assim, o velho Candido de Figueiredo e os novos ?Aurélio? ou ?Houaiss? não tiveram o cuidado de consultar textos médicos ou dicionários de termos médicos, como o ?Dicionário Enciclopédico de Medicina? (A. Céu Coutinho, 3? edição) -obra clássica, editada em Portugal- e o ?Dicionários de Termos Técnicos de Medicina? (Delamare, 1984), em que antraz e carbúnculo são infecções individualizadas e definidas. Quanto a Luiz Rey, pesquisador da Fiocruz, permita aconselhar que consulte algum livro de dermatologia ou doença infecciosa, para conhecer a diferença entre antraz e carbúnculo, ou o ?Dicionário de Termos Técnicos de Medicina?, de Delamare, cujo prefácio da edição brasileira é de Carlos Chagas, glória da medicina brasileira e do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz). Por fim, uma sugestão: a cada dia que passa adotam-se mais termos do inglês. Para não se usar indevidamente antraz ou carbúnculo, poder-se-ia, como fez a revista ?Veja?, usar o termo ?anthrax?.? (Sebastião A. Prado Sampaio, médico e professor emérito de dermatologia da Faculdade de Medicina da USP, São Paulo, SP)"

 

JORNALISMO INVESTIGATIVO

"O papel da imprensa", copyright O Estado de S. Paulo, 29/10/01

"Perguntam-me alguns, em seminários e debates, se o jornalismo de denúncia não estaria extrapolando as suas funções e assumindo tarefas reservadas à polícia e ao Poder Judiciário. Outros, ao contrário, preocupados com reiterados precedentes de impunidade, gostariam de ver repórteres transformados em juízes ou travestidos de policiais.

Um exame sereno, no entanto, indica um saldo favorável ao esforço investigativo dos meios de comunicação. O despertar da consciência da urgente necessidade de uma revisão profunda da legislação brasileira, responsável maior pelo clima de imoralidade nos negócios públicos, representa um serviço inestimável prestado pela imprensa deste país.

O ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, para citar um caso que já pode ser analisado sem nenhum tipo de paixão, não é, como alguns imaginam, um solitário gênio da corrupção. Armado de notável desenvoltura na prática do desvio de verbas públicas, ele aproveitou como ninguém as brechas abertas pelo próprio sistema. Foi um elo, certamente o mais expressivo, de uma disciplinada linha de montagem que dá suporte à indústria da corrupção.

Setores do governo e da oposição tiveram, voluntariamente ou não, alguma participação na aprovação dos créditos suplementares para a construção da sede do TRT de São Paulo. A denúncia, para além das gravíssimas evidências de corrupção que atingiram o ex-juiz, levantou importantes questionamentos a respeito da fragilidade do esquema de elaboração, aprovação e execução do Orçamento. A imprensa não ficou na denúncia do crime. Foi às raízes do problema. Mostrou os vícios de uma estrutura que precisa ser mudada. Caso contrário, delitos análogos reaparecerão com muita freqüência.

A exposição da chaga, embora desagradável, é sempre um dever ético. Não se constrói um país num pântano. Impõe-se o empenho de drenagem moral. E só um jornalismo de denúncia, comprometido com a verdade, evitará que tudo acabe num jogo de faz-de-conta. Os meios de comunicação existem para incomodar. Um jornalismo cor-de-rosa é socialmente irrelevante. A imprensa, sem precipitação e injustos prejulgamentos, está desempenhando importante papel na recuperação da ética na vida pública.

O jornalismo de qualidade, numa rigorosa prestação de serviço, pode ir ainda mais longe. Resgato hoje, neste espaço opinativo, uma sugestão editorial que venho defendendo há anos. Não seria má idéia inaugurar o Placar da Corrupção. Mensalmente, por exemplo, a imprensa exporia um quadro claro e didático dos principais escândalos: o que aconteceu com os protagonistas da delinqüência, as ações concretas ou as omissões dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Não se trata de transformar jornais numa espécie de contrapoder, mas numa instância de uma sociedade freqüentemente abandonada por muitas de suas autoridades.

Inauguremos, também, o Mapa das Promessas. É muito fácil. Basta recorrer aos arquivos e bancos de dados. Os políticos, pródigos em soluções de palanque, não costumam perder o sono com o rotineiro descumprimento da palavra empenhada. Afinal, para muitos deles, infelizmente, a política é a arte do engodo. Além disso, contam com a amnésia coletiva. Ao jornalismo cabe assumir o papel de memória da cidadania.

O jornalismo público não pode ser pautado pelas assessorias dos governantes ou candidatos, mas pelo interesse do cidadão. Precisamos falar do futuro, dos projetos e dos planos de governo. Mas devemos também falar do passado, das coerências e das ambigüidades. E, sobretudo, não podemos sucumbir às estratégias do marketing político que ameaçam transformar coberturas jornalísticas num show de chavões demagógicos e num triste espetáculo de inconsistência.

O Brasil depende, e muito, da qualidade técnica e ética da sua imprensa. Não cabem, portanto, atitudes amadorísticas. A opinião pública espera que a mídia, apoiada no crescente aprimoramento dos seus recursos humanos e nas balizas éticas, prossiga no seu ânimo investigativo. (Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística, é representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil E-mail: difranco@dialdata.com.br)"

    
    
                     
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