Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FSP / Reuters

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

COBERTURA DA GUERRA

"?Não matem o mensageiro?, pede TV", copyright Folha de S. Paulo / Reuters, 12/10/01

"O canal de TV Al Jazeera pediu à Casa Branca ontem que não tentasse impedir a cobertura jornalística de declarações do líder terrorista Osama bin Laden.

?Não deveríamos matar o mensageiro porque odiamos a mensagem?, disse Hafiz al Mirazi, chefe da sucursal de Washington da Al Jazeera, à ?Reuters?.

O governo Bush pediu ontem a jornais americanos que não publicassem a íntegra de discursos de Bin Laden e membros de sua organização, a Al Qaeda, alegando que eles poderiam conter instruções em código a terroristas.

A solicitação foi feita um dia depois que grandes canais de TV norte-americanos, a pedido da assessora para assuntos de segurança nacional, Condoleezza Rice, concordaram em examinar declarações de Bin Laden e pessoas próximas a ele antes de levá-los ao ar em vez de transmiti-los ao vivo.

A Al Jazeera, com sede em Qatar, foi a primeira emissora a transmitir o videoteipe de Bin Laden no domingo após recebê-lo em sua sucursal de Cabul (capital do Afeganistão).

?Continuaremos a fazer nosso trabalho de forma profissional, no Afeganistão ou em qualquer outro lugar?, disse o presidente da TV, Hamad ben Thamer al Thani.

?É uma questão de julgamento e cabe à mídia decidir se vamos transmitir ou não, mas não vamos receber ordens da Casa Branca ou do Taleban?, disse Mirazi.

A Al Jazeera faz transmissões por satélite ao mundo árabe desde 1996. A emissora conseguiu construir uma imagem de objetividade em uma região em que governos frequentemente pressionam os meios de comunicação.

No videoteipe transmitido no domingo, Bin Laden chamou o presidente dos EUA, George W. Bush, de ?infiel? e disse que os americanos não viveriam em paz até que os palestinos também vivessem. Em outro vídeo, transmitido na terça-feira, um porta-voz da Al Qaeda afirmou que era dever de todo muçulmano combater os EUA e que a ?tempestade de aviões? não pararia.

Mirazi disse que a Al Jazeera estava apenas exercendo equilíbrio editorial ao mostrar os vídeos. ?Vamos assegurar o equilíbrio e que a mensagem do outro lado seja transmitida, assim como o ponto de vista dos EUA?, afirmou.

Ele acusou o governo e o Exército americanos de usar preocupações com a segurança nacional como pretexto para impedir que opiniões desfavoráveis aos EUA sejam transmitidas.

?[A situação? é diferente da [existente na? Guerra do Vietnã, quando correspondentes americanos tinham liberdade de movimento?, disse. ?Acredito que o Pentágono e o governo dos EUA controlem a mídia ao impedirem que isso ocorra usando a segurança como pretexto.?

Mirazi também desprezou as alegações da Casa Branca de que os vídeos possam conter mensagens em código a membros da Al Qaeda. ?Pessoalmente, não acho que os membros da Al Qaeda sejam tão sofisticados?, disse."

"EUA pedem censura a TVs; CNN acata", copyright Folha de S. Paulo, 11/10/01

"Depois de ressaltar que era um ?pedido?, não uma ?ordem?, Condoleezza Rice, conselheira de Segurança Nacional do governo Bush, ligou ontem para todos os diretores das maiores emissoras de TV dos EUA para dizer que o governo requisitava a eles que não colocassem no ar declarações gravadas em vídeo de Osama bin Laden e de pessoas ligadas a ele.

A justificativa, segundo a Casa Branca, é que o terrorista pode estar passando mensagens cifradas para seus aliados no mundo inteiro por meio das imagens. Segundo o porta-voz do governo, ?não se trata de impor censura?.

?Ela pediu que as emissoras exercitassem seu julgamento a respeito de colocar estas imagens pré-gravadas no ar?, disse Ari Fleischer. ?E deixou bem claro que estava fazendo um pedido, mas que a decisão editorial só poderia ser tomada pela mídia.?

O pedido surgiu depois de as televisões do mundo todo mostrarem as ameaças de novos atentados feitas por Suleiman Abou-Gheit, porta-voz da Al Qaeda, anteontem à rede de TV Al Jazeera, do Qatar. ?Os americanos devem saber que a tempestade de aviões não irá parar?, disse ele.

A primeira a ceder ao governo foi a CNN. Por meio da assessoria de imprensa, o presidente da emissora, Walter Isaacson, confirmou à Folha que não vai mais colocar no ar ao vivo declarações de Bin Laden ou da Al Qaeda: ?Vamos analisá-las primeiro e então decidir o que fazer?.

A sua capitulação significa de fato a autocensura aplicada a todas as emissoras americanas e, por tabela, do mundo. É que a CNN tem um acordo de exclusividade com a Al Jazeera, a única rede oficialmente autorizada pelo Taleban a transmitir ao vivo de dentro do Afeganistão. A combinação garante que as imagens serão só da CNN e depois reutilizadas por todas as outras.

Foi por meio da Al Jazeera que o mundo viu o vídeo em que Osama bin Laden fala pela primeira vez desde o atentado do dia 11 de setembro, transmitido poucas horas depois dos primeiros ataques ao Afeganistão. As únicas imagens dos bombardeios dos EUA na região também são exclusividade da emissora.

?A política da CNN é evitar colocar no ar qualquer material que nós acharmos que vai facilitar diretamente outros atentados terroristas?, disse Isaacson. E o principal: ?Na hora de decidir o que colocar no ar ou não, a CNN pode levar em conta orientação das autoridades pertinentes.?

Oficialmente, as outras emissoras seguiram na mesma linha. ?Vamos ponderar jornalisticamente antes de decidir quais trechos irão ao ar ou se nenhum trecho será mostrado?, disse a NBC numa declaração oficial.

A CBS se disse ?compromissada com jornalismo responsável, que informa o público sem colocar em risco a vida de americanos?. Já a Fox News ?acredita que a imprensa livre pode e deve ter a responsabilidade de não ser usada por aqueles que querem destruir a América e colocar em perigo a vida de seus cidadãos?.

A Fox havia colocado no ar o depoimento do porta-voz da Al Qaeda minutos depois da CNN, com imagens pirateadas desta. Mas a transmissão não chegou ao final. Foi cortada no meio e, desde então, apenas partes do depoimento são mostradas. O motivo, segundo a empresa, não foi censura, mas a avaliação da ?falta de interesse jornalístico? da fala.

Ontem, o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, sem citar diretamente a transmissão do vídeo de Bin Laden ou das ameaças da Al Qaeda, repreendeu a Al Jazeera pela difusão de declarações ?incisivas ? e ?irresponsáveis?.

?A Al Jazeera dedica um tempo e uma atenção muito amplos a algumas declarações incisivas e irresponsáveis?, disse Powell à CBS. Ele afirmou ainda que os EUA já haviam ?chamado a atenção? das autoridades de Qatar e outros países sobre o assunto.

A principal razão dada pelos serviços de inteligência norte-americanos para o pedido oficial de ontem é a possibilidade de Bin Laden estar se comunicando com suas células terroristas à custa das emissoras norte-americanas.

O argumento não se sustenta. Qualquer pessoa com acesso à Internet pode ver as transmissões da Al Jazeera, ao vivo e em árabe, no site www.aljazeera.net.

A direção de jornalismo da emissora do Qatar disse que não pretende modificar a maneira com que vem cobrindo o conflito. ?Vamos continuar fazendo como antes?, disse o diretor Mohamad Jassem Al-Ali.

Mídia impressa

Não foi só a mídia televisiva que embarcou na auto-censura. A decisão de não noticiar a ameaça do porta-voz da Al Qaeda em suas primeiras páginas de ontem foi quase unânime também entre os grandes jornais norte-americanos. ?The New York Times?, o principal deles, dedicou apenas um texto interno de sua edição ao assunto. No alto da página 8 do caderno especial sobre a guerra, reproduz a ameaça de terça.

?Tomamos esta decisão baseados exclusivamente no mérito que tinham as diversas reportagens que disputavam um espaço na primeira página?, disse à Folha Kathy Park, diretora de relações públicas do jornal.

?Assim, levamos em conta que: 1. não era uma aparição de Osama bin Laden, mas de alguém falando por ele; 2. já havíamos publicado o pronunciamento de Bin Laden na primeira página de segunda-feira, e as declarações de anteontem não eram muito diferentes daquela.?

Indagada se o jornal seguiria o pedido de auto-censura de Condoleezza Rice, Park respondeu: ?Nós não praticamos a auto-censura. Mas fazemos julgamentos noticiosos, milhares deles, todos os dias do ano.?

Em suas edições de ontem, o ?The Washington Post? e o ?USA Today? também ignoraram o assunto em suas primeiras páginas."

***

"Jornalismo na TV acabou, diz especialista", copyright Folha de S. Paulo, 11/10/01

"O escritor e teórico do jornalismo Richard Reeves é uma das poucas vozes discordantes na mídia hoje em dia. Renomado professor das universidades da Califórnia e Columbia e autor do livro ?What the People Know: Freedom and the Press? (O Que as Pessoas Sabem: a Liberdade e a Imprensa, Harvard, 1998), acha que a imprensa vem se portando mal na cobertura do conflito.

Não acredita que a auto-censura vá atrapalhar as emissoras de TV, pois defende que o jornalismo televisivo já acabou. Por expressar suas opiniões, recebe cerca de 500 e-mails com insultos por dia. O autor de um deles dizia que pagaria passagem e casa nova se ele se mudasse do país. (SD)

Folha – O que o sr. acha da auto-censura nas emissoras de TV?

Richard Reeves – Acho que o jornalismo na TV quase não existe mais. Tem muita técnica, atores lendo as chamadas, e só. Como tudo depende da imagem, os câmeras substituíram os repórteres.

Mas eles não viraram jornalistas, e quase não há bons profissionais na TV americana esses dias. Eu jamais confiaria numa informação saída da TV sem checar. A maioria deles não tem a menor idéia sobre o que está fazendo.

Folha – O sr. escreveu um artigo no ?The New York Times? intitulado ?Patriotism Calls Out the Censor?. O sr. não acha que o jornalismo não é o melhor lugar para o patriotismo?

Reeves – Concordo com isso plenamente. Em primeiro lugar, é importante dizer que a imprensa norte-americana é responsável em grande parte pelo que vem acontecendo desde o dia 11 de setembro, pois nos últimos 10 anos os jornais dos EUA removeram 80% de seus correspondentes internacionais do Oriente Médio.

A justificativa é que era muito caro manter um jornalista em outro país tempo o suficiente para que ele de fato virasse uma autoridade sobre uma outra cultura. Ou seja, ninguém sabia e na verdade ninguém ligava se o Paquistão estivesse construindo armas nucleares durante a última década.

Nós não ligamos para isso, afinal somos os EUA, a superpotência, ninguém pode encostar em nós. Acho que até Bill Clinton foi um dos culpados por disseminar este pensamento, que provocou esse desleixo geral. O fato é que ninguém sabe nada sobre o que nos ameaça nesse momento.

Folha – O sr. acha que neste momento o presidente George W. Bush e sua equipe estão mentindo para os jornalistas?

Reeves – Não acredito que Bush saiba das coisas o suficiente a ponto de precisar mentir a respeito delas. Ele é muito ignorante e está muito perdido no meio dessa história toda. Acho que Camp David virou um grande centro de estudos hoje em dia (risos).

Toda a equipe precisa aprender a pronunciar os nomes primeiro, depois descobrir que as coisas não são como pensam."

"A CNN dos árabes", copyright Coleguinhas por mail <redacao@coleguinhas.jor.br>, 8/10/2001

"Não sei quanto a você, mas eu fiquei muito bem impressionado com a qualidade técnica das imagens do Inimigo Número 1 dos EUA, Osama Bin Laden. Limpas, claras, bem editadas, as imagens foram feitas por uma TV chamada Al-Jazeera. Fui catar informação e descobri que a Al-Jazeera (A Península) é uma TV do Catar (sim. A locução verbal infinitiva ali de trás era um trocadilho, hahaha) que transmite notícias 24 horas por dia, uma espécie de CNN das Arábias.

Como a CNN de cá por aqui, a de lá faz um sucesso enorme nos 22 países árabes e, desde há pouco (mas antes dos atentados), também nas comunidades árabes de outros países. ?A chave de nosso sucesso é que abrimos a porta a todo mundo, respeitamos os diferentes pontos de vista?, disse o diretor-geral da TV, Abdallah al-Haj. E ele não está brincando: até as autoridades israelenses são regularmente vistas dando explicações n? A Península (assim chamada, lembra um coleguinha de ascendência árabe, porque o Catar fica na Península Arábica).

No ar desde 1996, a Al-Jazeera é hoje a única estação de TV do mundo autorizada pelos talibãs a manter uma equipe em Cabul. A empresa, aliás, possui um grupo de 85 correspondentes em diversas capitais – incluindo Jerusalém, Washington, Bruxelas e Londres – e pelo menos desde 99 tem a confiança de Bin Laden. Naquele ano, a TV transmitiu uma entrevista de 75 minutos com o bilionário e guerrilheiro de origem saudita, quando este já era acusado desde o ano anterior dos atentados a bomba nas embaixadas americanas da África Oriental, que mataram 224 pessoas."

    
    
                     
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