Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ELEIÇÕES 2002

Fátima Pacheco Jordão

Por lgarcia em 17/07/2002 na edição 181


ELEIÇÕES 2002


"Sinais de mudança", copyright O Estado de S. Paulo, 14/7/02

"As pesquisas divulgadas nas últimas duas semanas pelos principais institutos do País permitiram retocar as fotografias do momento dos candidatos à Presidência. Num balanço geral, esse retoque deve trazer inquietações para três deles – Lula, Serra e Garotinho – e razões de algum otimismo para Ciro Gomes.

Antes de mais nada, vale registrar que estas eleições trouxeram uma mudança importante – e para melhor – na política de divulgação das pesquisas pelos veículos. Todos publicam pesquisas de todos institutos, e não apenas aquelas contratadas especialmente, como acontecia até a última eleição. Caiu o curralito da opinião dos eleitores.

Os institutos estão fazendo pesquisas sem exclusividade de clientela, candidatos ou não. É um avanço real, porque a melhor disseminação de pesquisas (ou seja, da expressão da intenção do eleitor no momento) valoriza o cidadão e lhe abre os olhos. Equilibra um jogo que era exclusivo de partidos políticos, governos e empresários.

Os números das pesquisas agora publicadas apontam para as mesmas direções e reforçam com mais clareza a hipótese de segundo turno. Nas pesquisas do Ibope e Datafolha de julho, a soma das taxas de intenção de voto de Ciro, Serra e Garotinho supera a de Lula em 13 pontos. Nas de junho, essa diferença era de apenas 6 pontos em média. Seria remotíssima, portanto, a hipótese de vitória do petista no primeiro turno.

As projeções de segundo turno trouxeram novidades também. O crescimento de Ciro refletiu-se nas simulações de Ibope e Datafolha, que mostraram, pela primeira vez, empate entre ele e Lula no segundo turno.

O mesmo tinha acontecido com Serra em março, após a onda de propaganda na televisão do PSDB, como, aliás, já ocorrera também com Roseana Sarney. Não significa que esse avanço de Ciro seja precário, mas tampouco, ao contrário, seria irresistível. Por enquanto, pode-se afirmar que emitiu alguns sinais para os adversários, entre eles, o mais contundente, o de que, entre junho e julho, Ciro foi o único cujo índice de rejeição não cresceu.

Daqui para a frente, muda todo o jogo de comunicação das eleições. As campanhas foram para as ruas e os resultados das pesquisas apontam indícios significativos para configurar as próximas etapas.

O crescimento de Ciro foi homogêneo, ocorrendo em todas as regiões e segmentos do eleitorado, e há outros sinais a indicar uma movimentação ascendente mais estratégica, pois abriu frestas em nichos importantes de seus adversários.

O Datafolha, por exemplo, mostra a queda de 11 pontos de Lula na Região Sul, onde o PT tem importantes bases políticas. O Ibope aponta perda de 5 pontos na taxa de intenção de voto espontâneo, que é um indicador crucial, por representar uma posição mais consolidada do eleitor. Entre eleitores com escolaridade superior, essa perda de Lula chega a 9 pontos – um desgaste que pode estar relacionado com o ajuste de posição do PT mais para o centro ou mesmo com os acontecimentos de Santo André, pois o Datafolha mostra que nove em cada dez eleitores com escolaridade superior tomaram conhecimento desses fatos. Lula continua na liderança, no entanto, com 37% de votos em média e um piso histórico de sustentação.

Na mesma rodada, o Ibope e o Datafolha apontam uma tendência de perda de pontos, de Serra para Ciro, entre os que avaliam bem o governo de Fernando Henrique, o eleitor mais estratégico para o candidato tucano. O dado positivo para ele é o fato de não ter perdido posição no voto estimulado desde o início de junho, isto é, durante a bem sucedida campanha de Ciro na televisão.

Garotinho perdeu votos num segmento significativo do seu eleitorado, o de jovens entre 16 e 24 anos, faixa em que estão três de cada dez de seus eleitores. Ainda assim, ele manteve em 12% uma estabilidade surpreendente, diante da descrença da mídia e tibieza de suas articulações políticas.

Em resumo, o quadro eleitoral continua em processo de mutação.
As fotografias dos candidatos com certeza sofrerão novos retoques esta
semana, quando o Ibope revelar a avaliação do eleitor sobre o
desempenho que tiveram nas entrevistas ao Jornal Nacional. E assim será
até o fim da eleição. A mídia e os eleitores estão
num jogo mais complexo desta vez. Fátima Pacheco Jordão é
especialista em análise de pesquisas eleitorais"

 


"Presidente da CVM quer o fim da especulação eleitoral", copyright Folha de S. Paulo, 15/7/02

"O novo presidente da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), Luís Leonardo Cantidiano, 53, quer que as instituições financeiras que encomendam pesquisas eleitorais sejam impedidas de atuar no mercado entre o momento que a pesquisa fica pronta e sua divulgação para o público.

Cantidiano, que toma posse hoje na CVM, afirma que não há irregularidade no fato de empresas contratarem pesquisas para uso próprio ou para divulgação. ?O problema surge se a instituição, vendo que a pesquisa pode influenciar as cotações, usa as informações em proveito próprio antes de divulgar o resultado para o público?, afirmou.

Ele assume o cargo no momento em que a CVM apura suspeita de uso de pesquisas eleitorais para especulação no mercado futuro de dólar. Quatro bancos, segundo informações não oficiais, estariam sendo investigados.

Em entrevista exclusiva à Folha, Cantidiano antecipou que vai propor a liberação de parte do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para a compra de ações em Bolsa, como forma de estimular o crescimento de empresas e mercado de capitais.

Ele defende a liberação de 15% do recolhimento mensal para o FGTS (apenas sobre os recolhimentos futuros e não sobre o saldo já existente) para a compra de ações, mas adverte que a adesão deve ser voluntária.

Cantidiano é o 15? presidente em 25 anos de existência da CVM, mas é o primeiro com mandato fixo de cinco anos, conforme determina a nova Lei das Sociedades Anônimas.

Advogado, formado pela antiga Universidade do Estado da Guanabara (atual UERJ), ele teve uma curta passagem pela CVM no governo Collor, tendo sido diretor de março de 1990 a fevereiro de 91. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Luís Leonardo Cantidiano – Quando saí, em fevereiro de 91, prometi a mim mesmo não voltar, mas fui convencido de que posso contribuir para o avanço do mercado e acho que este é o momento da virada. O partido que ganhar a eleição, não importa qual, vai ter de fazer o país crescer.

Folha – Se o PT ganhar, nada muda para a CVM?

Cantidiano – Em princípio, não, pois ela tem independência, e eu tenho que cumprir a lei. Um partido pode dar mais ênfase ao crescimento do mercado do que outro, mas acredito que todos querem buscar o crescimento e a geração de emprego e, para isso, precisam do mercado.

Folha – A CVM está investigando o uso de pesquisas eleitorais para manipulação de negócios em Bolsa. Como o sr. tratará o assunto?

Cantidiano – Não há como impedir que empresas contratem pesquisas de intenção de voto para consumo próprio ou para divulgação, nem há irregularidade nisso. O problema surge se a instituição, ao ver que a pesquisa pode influenciar o mercado, usa a informação privilegiada em proveito próprio, antes de divulgar o resultado para o público.

O que se tem de impedir é que a institui&ccedccedil;ão opere no mercado enquanto a pesquisa não for divulgada. Não sei se é possível regular esse assunto, mas vou propor a discussão o mais rápido possível.

Folha – O senhor já escolheu sua diretoria na CVM?

Cantidiano Os três diretores atuais serão mantidos. Para o quarto cargo de diretor, que está vago, penso escolher um contador ou um operador de mercado, que nos ajude a pensar novos produtos para desenvolver o mercado de ações.

Folha – Depois dos escândalos das fraudes em empresas norte-americanas, a fiscalização contábil é a sua maior preocupação?

Cantidiano – Curiosamente, os problemas que estão acontecendo nos EUA não nos ameaçam muito. Os problemas que tivemos por aqui foram de alteração de balanços para esconder prejuízo. Lá, foi o contrário. As empresas inflaram seus resultados para atrair os investidores. Além disso, as empresas de tecnologia remuneram seus executivos com opção de compra de ações e eles inflaram os balanços para valorizar as ações.

O que as empresas fizeram nos EUA seria considerado ilegal no Brasil? Não acontece coisa pior aqui?

Cantidiano – Os executivos norte-americanos avançaram o sinal ao contabilizar despesas como investimentos e ao usar sociedades de propósitos específicos para esconder passivos, mas estavam dentro da lei.

No Brasil, os diretores das companhias abertas assinam os balanços, os auditores são proibidos de prestar outros serviços às empresas que auditam [para evitar conflitos de interesse? e não podem ficar mais do que cinco anos com uma empresa. Os norte-americanos só estão tomando essas providências agora.

Folha – Qual é sua prioridade: desenvolver o mercado ou aumentar o controle?

Cantidiano – Minha prioridade é desenvolver o mercado. Não adianta ser rigoroso, se não houver mercado. O que importa é fazer com que a Bolsa seja uma fonte de capital para as empresas, que financie o crescimento do país, atraia novos investidores e que as pessoas participem da riqueza nacional por meio dos dividendos.

Folha – Como o senhor espera chegar a esse objetivo?

Cantidiano – Acho que a CVM deve buscar formas de popularizar o mercado e atrair não só a classe média, mas todos os trabalhadores. Vou propor que 15% do Fundo e Garantia do Tempo de Serviço possam ser usados para investimento em Bolsa. O investimento seria voluntário e o percentual se aplicaria apenas sobre as novas contribuições e não sobre o saldo existente.

Folha – A classe média foi em peso para as Bolsas nos anos 70 e perdeu muito dinheiro. Que garantias o trabalhador teria agora?

Cantidiano – O dinheiro do FGTS só poderia ser usado para comprar títulos de empresas que fazem parte do chamado Novo Mercado, criado pela Bovespa, em que todas as ações preferenciais têm direito a voto nas grandes questões fundamentais da empresa, como aumento de capital, fusões, incorporação, mudança de direitos. As empresas que optam por esse mercado têm mais transparência, seguem regras de contabilidade internacionais e elegem novos membros do conselho a cada ano.

Folha – O senhor acha que há interesse do trabalhador em investir em ações?

Cantidiano – O sucesso na utilização do FGTS para a compra de ações da Vale do Rio Doce e da Petrobras me faz crer que sim. As ações ficariam bloqueadas, como se o dinheiro continuasse depositado no fundo. Para estimular a participação, penso que o trabalhador poderia mudar de posição acionária e sacar a parte dos dividendos que ultrapassasse a taxa de rentabilidade do FGTS (3% ao ano).

Folha – O senhor foi diretor da CVM no início dos anos 90. Que avaliação o senhor faz dela hoje?

Cantidiano – Há deficiência de pessoal, mas, nesta semana, estão chegando 24 novos advogados, que vão triplicar o quadro atual. A CVM tem ainda autorização para contratar 93 pessoas no ano que vem. Mas é preciso motivar a casa, incentivar as pessoas a fazer cursos de treinamento e aperfeiçoamento. Quando fui diretor, a CVM não tinha sequer computador. Hoje, todos os funcionários têm terminal próprio.

Folha – O senhor pretende ser o ?xerife? do mercado?

Cantidiano – O mercado tem de ter liberdade e responsabilidade. Quero estar
conversando com as pessoas do mercado. A CVM precisa ser muito rígida
no exercício do poder de polícia, para não cair em descrédito.
Quem errar, tem de ser exemplarmente punido."

 

"Jornalismo na campanha", copyright Época, 15/07/02

"A imprensa brasileira possui um histórico crítico de coberturas presidenciais. Em 1989, na vitória de Fernando Collor, mesmo publicações orgulhosas de seu poder de investigação foram incapazes de prestar um bom serviço ao eleitorado. Em 1998, a cobertura foi tão superficial – para dizer o mínimo – que pavimentou o terreno para o chamado pensamento único num país já grávido de uma crise cambial que iria explodir logo depois da contagem dos votos.

Sob esse aspecto, a campanha de 2002 não poderia ter começado melhor. O debate entre candidatos não só chegou à imprensa, mas invadiu um espaço de onde fora historicamente excluído – o horário nobre da televisão. Os candidatos têm desfilado regularmente pela TV Bandeirantes, pela Cultura e também pela TV Record. Na semana passada, o Jornal Nacional, da TV Globo, dedicou quatro sessões de dez minutos do programa líder de audiência da televisão brasileira a entrevistas com os principais candidatos à sucessão de Fernando Henrique Cardoso.

Se, no Brasil, a TV é o ópio e também a escola do povo, seu papel como veículo de participação política tem diminuído de um pleito para o outro. Nas primeiras campanhas o horário político gratuito cumpriu uma função democrática, ao garantir um espaço público para os concorrentes. Com o passar do tempo, aquilo que era um terreno igualitário se tornou um circo para campeonatos de marketing e alimento de muita jogatina eleitoral. Hoje, boa parte das alianças de campanha não expressa acordos políticos, mas apenas troca de minutos no vídeo.

Outro recurso são os debates entre os candidatos. O problema, aí, é a tradição de oportunismo, contra o qual ainda não se encontrou remédio eficaz. Convencidos de que toda discussão é um risco, os concorrentes que lideram as pesquisas preferem ausentar-se do encontro, que se reduz, assim, a uma mesa-redonda mal-humorada entre candidatos órfãos de intenções de voto.

Nesse ambiente, as emissoras de TV podem cumprir um papel particularmente relevante. Como os mais de 40 milhões de telespectadores do Jornal Nacional puderam comprovar na semana passada, se dez minutos são um tempo obviamente curto para avaliar um candidato, ainda assim funcionam como uma amostra para conhecer determinados traços da personalidade de cada um. Ajudam a avaliar a competência para reagir diante de situações imprevistas. Permitem que se julgue a capacidade dos concorrentes para livrar-se, com graus diferentes de sinceridade, de questões especialmente incômodas da biografia. Fátima Bernardes e William Bonner tiveram um comportamento à altura da missão recebida. Questionaram, perguntaram mais uma vez, voltaram ao assunto quando ouviram uma resposta com jeito de desconversa. Cobraram contradições.

Há ainda um ponto que deve ser lembrado toda vez que a imprensa se encontra com candidatos.

O direito à crítica e a vontade de investigar são mercadorias fáceis de elogiar em dias de festa. Costumam ser menos apreciadas, contudo, quando atingem interesses mobilizados numa campanha presidencial, quando podem destroçar personalidades que pareciam vistosas e desnudar golpes de retórica vistos como infalíveis. Isso é que explica o esforço de determinados candidatos para associar os meios de comunicação a conspirações imaginárias e articulações delirantes.

Esse comportamento é apenas uma forma grosseira de pressão, uma tentativa de intimidar jornalistas e abafar um debate especialmente necessário num país que entra no século XXI perseguido por tantas incertezas. A imprensa começou a campanha de 2002 exibindo, como regra geral, independência e liberdade. O país só tem a ganhar com isso."

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