Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > **

Fundamentalismo e o culto ao "Manual"

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

NOTÍCIAS DE UM SEQÜESTRO

Alberto Dines

O Estado de S.Paulo deu um banho na Folha na cobertura do resgate de Olivetto (edições de domingo, 3/2 e segunda, 4/2). No entanto, os dois jornalões concorrentes adotaram o mesmo pacto de silêncio no caso dos seqüestros.

O que atrapalhou a Folha foi o seu "Manual da Redação". Ou melhor, o culto irrestrito a este alcorão interno que estabelece todas as certezas e dirime todas as dúvidas. Os jornalistas na Alameda Barão de Limeira estão sendo convertidos em autômatos, paus-mandados de um livrinho supostamente clarividente e onisciente, capaz de resolver todos os problemas e dilemas, presentes e futuros. E como o jornalismo é uma atividade dinâmica com desdobramentos surpreendentes, das duas, uma: ou a Folha coloca um teólogo ou mulah ao lado de cada profissional para fazer a exegese de todos os seus preceitos ou dá ao livrinho o nome e a função que efetivamente deveria ter ? "Manual de Estilo".

Washington Olivetto foi libertado às 22h40 do sábado (2/2): parte das tiragens já estava distribuída. De que forma um jornalão conseguiu ser melhor do que o outro?

** No domingo, o Estadão conseguiu entregar a uma parte de seus assinantes na cidade de São Paulo uma edição sacudida por uma chamada no alto da primeira página, com a foto do publicitário livre, e mais um caderno de seis páginas inteiras, livres de anúncios, com a cobertura completa das diligências iniciadas na sexta e farto material de apoio.

** A Folha ofereceu a uma parte de seus assinantes na cidade de São Paulo uma edição chocha com uma chamada na primeira mas nenhuma foto do seqüestrado livre, inclusive nas três páginas internas (que na realidade foram duas, considerando o tamanho dos anúncios. Aparentemente não houve outra atualização.

(Este Observador, assinante de ambos os jornais, reside num bairro ligeiramente mais distante do parque gráfico da Folha, dado irrelevante pela ausência de tráfego pesado na madrugada de domingo)

Onde entram os efeitos colaterais do culto do Manualão?

** A Folha está sempre mais preocupada em registrar a existência do livro sagrado que em atender às suas finalidades ? o jornalismo de qualidade. Na página de abertura do caderno "Cotidiano" de domingo (C-1), lá estava a autoflagelação pública, penitência com pitadas de hipocrisia: "Família pediu sigilo à imprensa". Mais importante do que apregoar a existência de uma bíblia é atender aos seus objetivos. Sem conversas e blablablá.

** O Estadão não vai ao confessionário pedir tantas desculpas ao leitor porque deixou de acompanhar um seqüestro. O exacerbado complexo de culpa da Folha não apenas confunde o leitor mas atordoa o seu quadro de jornalistas, anestesia seus instintos e lhes tira toda a iniciativa.

** A isso obviamente soma-se uma opção ideológica ? nas matérias políticas vale tudo. Resultado: o Manualão só funciona em certas páginas, de certos cadernos e para um determinado grupo de profissionais. Como isto nunca foi expresso, o jornalista não sabe se hoje a sua matéria está no âmbito do código ou fora dele. Esquizofrenia pura.

A Folha levou uma goleada porque na hora de chutar a bola foi persignar-se.

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