Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA ESPORTIVA

Futebol e marmelada

Por lgarcia em 26/02/2003 na edição 213

MÍDIA ESPORTIVA

Antonio Carlos Teixeira (*)

Há muito não se ouvia (nem se lia) o termo “marmelada” no futebol. Pois, nesse fim de semana, a maldita palavrinha voltou às páginas dos jornais e ao vocabulário de narradores, repórteres e comentaristas esportivos. Foi logo depois do jogo entre São Paulo e Santo André, válido pelo Campeonato Paulista ? aquele mesmo que pôs em confronto as TVs Globo e SBT pelos direitos de transmissão. O empate bastava para que as duas equipes garantissem vaga às quartas-de-final da competição. Pois o placar foi justamente 2 a 2. São Paulo e Santo André saíram de campo classificados, numa partida suspeita. Aliás, suspeitíssima. Principalmente, a contar do 25? minuto do segundo tempo.

No futebol, o termo “marmelada” explica-se quando dois times “acertam” previamente o placar do jogo, de tal forma que o resultado final seja bom para ambos os lados. A meu ver, o que chamou a atenção não foi o suposto “jogo combinado” entre as duas equipes, mas sim a abordagem da mídia esportiva a respeito do tema. Quando ocorre um fato desses, digamos, inusitado, a mídia o vê como prato cheio para sair da mesmice ? aquela coisa insossa, depois da partida, de ficar dando notas a jogadores e juízes, comentando gols perdidos, expulsões ou a tática utilizada pelos treinadores em campo.

Frise-se que não houve “marmelada” entre São Paulo e Santo André, cuja armação ocorre quando o resultado da partida é arranjado fora dos gramados. No Morumbi houve, sim, “excesso de preguiça” do São Paulo. Ao deixar o adversário empatar, depois de estar vencendo por 2 a 0, o tricolor paulista escolheu o adversário da próxima fase. Mais do que isso, arrastou de seu caminho o Santos Futebol Clube. Campeão brasileiro do ano passado, o time da Baixada Santista dependia da vitória são-paulina para se classificar.

Na Rádio Jovem Pan, ouvi a melhor definição sobre a partida, dita pelo comentarista Flávio Prado. “Estou com nojo”, resumiu Prado em seu comentário sobre o jogo. No ar, reforçou sua visão ao presidente do São Paulo, Marcelo Portugal Gouveia, a quem fez uma série de questionamentos, cobrando-lhe explicações. Não a ele, Flávio Prado, mas sim aos mais de 10 mil torcedores são-paulinos que pagaram para ver futebol. O tom das críticas à partida foi mantido na Jovem Pan, com os repórteres Vanderley Nogueira e Luiz Carlos Cortarollo narrando as esquisitices que viram durante o jogo.

Setenta minutos de jogo

No programa Terceiro Tempo, da Rede Record, as opiniões divergiram. O médico Osmar de Oliveira, dublê de narrador e comentarista, achou normal a falta de combatividade das duas equipes, a partir do gol de empate da equipe do ABC. Convidado do programa, o comentarista Paulo Roberto Martins, da Rádio Globo, foi enfático ao afirmar que o resultado do jogo estava “entalado” em sua garganta. Os “boleiros” que participavam do Terceiro Tempo apoiaram o desinteresse dos adversários em campo. Apresentador do programa, Milton Neves fez a média de sempre. Ficou em cima do muro. Menos mal, já que não procurou influenciar a posição de cada um dos convidados.

A decepção mesmo veio de outra emissora. Juca Kfouri preferiu contemporizar (colocar panos quentes) ao analisar o fato. Justo ele, que é visto como um dos jornalistas esportivos mais éticos do país, inimigo número um da cartolagem e das negociatas no futebol. Juca usou a abertura de seu Bola na Rede, na Rede TV!, para defender a suposta “marmelada” do Morumbi. Fez duras críticas aos colegas da mídia esportiva que, minutos antes, tinham condenado o comportamento de São Paulo e Santo André. Para Juca, a culpa foi toda do regulamento do Campeonato Paulista. É como dizer que o assassino mata porque a lei é branda, porque a impunidade impera… E tome blablablá. Por aí seguiram as explicações daquele de quem todos esperavam reação firme à falta de respeito com o torcedor, patrocinada pelas duas equipes. Mais do que isso, Juca induziu os convidados da mesa-redonda a “aceitar” como verdade absoluta seus argumentos.

Antes de perguntar, discorria pelo menos três minutos acerca do ocorrido. No final, fechava a pergunta com o tradicional “você não acha?”. Pela primeira vez vi um Juca Kfouri nervoso, tenso. Não entendi as razões. Fez seu pior programa na TV. Suas posições eram reforçadas pela narração de casos semelhantes verificados na Europa, principalmente na Itália, onde a máfia da loteria mudava os resultados dos jogos. Nas entrelinhas, dizia que se isso era comum na Europa, por que não podia acontecer no Brasil, um país comprovadamente corrupto? Entre tantos exemplos, chegou a mencionar “acertos” em partidas de Copa do Mundo, como em 1978, quando a Argentina precisava golear (e goleou) a seleção peruana por 7 a 0 para ir à final contra a Holanda.

Juca, estranhamente, achou normal São Paulo e Santo André deixarem de jogar depois dos 25 minutos do segundo tempo. Se fosse um dos mais de 10 mil torcedores no Morumbi, eu exigiria de volta parte do valor pago pelo ingresso. Ficou claro que o ótimo jornalista da Rede TV! e do jornal Lance! desembolsaria o dobro para ver só 70 minutos de um espetáculo que é vendido nas bilheterias por, no mínimo, 90 minutos. Até tu, Juca? E tudo isso ocorreu justo na semana em que a Câmara dos Deputados aprovou um estatuto com direitos e deveres do torcedor.

(*) Jornalista em Brasília

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