Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > ELEIÇÕES 2002

Gabriel Manzano Filho

Por lgarcia em 16/10/2002 na edição 194

ELEIÇÕES 2002

“Na TV, Lula festeja e Serra cobra mais debate”, copyright O Estado de S. Paulo, 15/10/02

“De um lado, um PT confiante, eufórico, comemorando seu crescimento nas urnas e exibindo alianças de primeiríssimo escalão. De outro, um adversário tucano obrigado a ir ao ataque não só para crescer, mas para forçar grande parte do eleitorado a mudar o voto. Foi assim, em ritmos e tons diferentes, a volta dos dois presidenciáveis ao horário eleitoral na TV, ontem. Um partido comemorando sua maior vitória. Outro, afiando armas para virar o jogo no último instante – mais exatamente, para mudar de lado cerca de 20 milhões de eleitores.

?Temos uma base de apoio que nos garante sustentabilidade para fazer as mudanças de que o País precisa?, proclamou o petista Luiz Inácio Lula da Silva nos 10 minutos de horário eleitoral mais cheios de aplausos que já se viu. O programa festejou a vitória – não só a dele, mas a do PT, que também elegeu dois governadores, vai brigar por mais oito governos estaduais no segundo turno, formou a maior bancada da Câmara e elegeu dez senadores.

Os dois presidenciáveis derrotados foram exibidos com grande alarde, apoiando Lula. Anthony Garotinho (PSB) dirigiu-se ao seu eleitorado: ?Eu e o Lula queremos a mesma coisa: mudanças. A vocês, que votaram em mim, eu peço: agora é Lula.? Ciro Gomes (PPS) repetiu as críticas ao governo e disse a Lula: ?Nosso projeto de mudança está renovado em você?. Depois, falando ao espectador: ?Você de casa, que votou em mim, receba a minha gratidão e nesse momento lhe peço: vote no Lula?.

Serra – Em estilo discreto, num cenário austero de quem tem milhões de votos a conquistar em duas semanas e precisa entrar direto no assunto, o tucano José Serra apostou seus 10 minutos da tarde em uma ?entrevista-verdade? com perguntas feitas pelo jornalista Alexandre Machado – solução que deixou alguns tucanos decepcionados: ficou claro o contraste entre o tom vitorioso do rival e o estilo reservado de Serra. ?O primeiro programa é sempre um aquecimento?, explicou o presidente do PSDB e coordenador da campanha de Serra, José Aníbal.

À noite, numa apresentação mais dinâmica, o comando tucano escalou a atriz Regina Duarte para um texto de advertência contra um possível governo Lula. ?Estou com medo?, afirmou ela. ?Medo de perder toda a estabilidade conquistada.? Depois traçou o cenário internacional – ?vem muita pressão por aí? – e o candidato entrou com um discurso mais agressivo sobre seus programas. Serra falou da ?resistência do PT em debater? e reiterou duas diferenças entre um eventual governo dele e o do presidente Fernando Henrique Cardoso: as áreas de segurança, na qual sua equipe de governo atuaria ao lado dos governos estaduais, e emprego, com todos os ministérios envolvidos na tarefa de criar empregos. (Colaborou Janaína Simões, da AE)”

“Lula é capa da revista ?Newsweek? e notícia na ?Time?”, copyright O Globo, 15/10/02

“De um lado, a celebração da democracia, que ainda não foi bem compreendida por Wall Street e Washington. De outro, o candidato do PT, vencendo ou perdendo no segundo turno, deve ser compreendido como símbolo de uma América Latina que mudou de opinião quanto ao liberalismo. E, ainda, a preocupação com a inexperiência de Lula. São as opiniões expressas sobre as eleições brasileiras nas principais revistas semanais dos Estados Unidos, ?Time? e ?Newsweek?, em reportagens sobre a sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso.

A ?Newsweek?, na sua edição para a América Latina, dedica a capa ao petista, sob o título ?O novo Lula?. A reportagem conclui que, se for o próximo presidente, deverá ser o mais fraco que o Brasil teve nos últimos governos, e afirma que ele terá de mudar para governar o Brasil.

?Lula não é tecnocrata hábil nem deverá ter maioria?

Para a revista, a falta de experiência administrativa de Lula poderá lhe causar problemas e assusta os investidores estrangeiros, que ?podem fazer ou quebrar o Brasil?.

A maioria dos investidores duvida da capacidade de um esquerdista, ainda que seu discurso tenha rumado para o centro, de governar um Brasil cuja situação internacional é precária.

O PT se moveu para o centro, e basta lembrar a mudança em relação à antiga posição do partido quanto ao FMI. Os socialistas ?ainda fazem muito barulho político, mas nestes dias eles são bem uma facção minoritária dentro do partido?, segundo a reportagem. As administrações municipais e estaduais do partido têm ?reputação de produzir orçamentos sensíveis?, e as melhores cabeças econômicas do PT vêm de universidades em que Marx foi substituído por Keynes e pelos ?apóstolos de uma marca mais branda do capitalismo?. Um estrategista do banco de investimentos Bear Stearns reconhece a mudança do PT, mas afirma no texto que ?existe o temor no mercado de que ele voltará a ser o velho Lula?.

E há também os problemas de reformas. O governo de Fernando Henrique deixou inacabado o que a revista afirma ser parte do trabalho mais difícil, como a reforma da previdência, que consome 5% do PIB com cerca de três milhões de servidores aposentados. ?Com uma população envelhecendo, o fardo apenas piorará?, segundo a reportagem. ?Cardoso tentou introduzir reformas fiscal e previdenciária modestas, mas foi frustrado pelo Congresso – graças, em parte, ao PT de Lula, o qual foi contrário aos limites de direitos?. O cenário não é encorajador, conclui a reportagem, ainda mais porque o cenário parlamentar será de difícil negociação.

?Por todas essas razões, o próximo presidente do Brasil está apto a ser o mais fraco em anos. Se Lula prevalecer e tentar agradar aos milhões que nele votaram gastando pesadamente, os mercados o rasgarão. Se fizer o contrário, a esquerda tornará sua vida miserável?, afirma Maguire.

Segundo diz Maguire, a saída está na negociação do livre mercado com os Estados Unidos.

Descontentamento com o Consenso de Washington

Na edição americana da mesma ?Newsweek?, o colunista Robert J. Samuelson afirma que Lula, vencendo ou não, simboliza o descontentamento latino-americano para com o chamado Consenso de Washington, expressão que designa, nos Estados Unidos, a política de liberação dos mercados nas Américas.

?A experiência tem mostrado que dois países não reagem identicamente (ao liberalismo) e que, em qualquer caso, o sucesso requer paciência e persistência?. Países que ?se tornaram dependentes do resto do mundo não podem sair facilmente sem se danificarem – e talvez aos outros também?.

Na revista ?Time?, Michael Elliot se pergunta se Wall Street e Washington verão o lado bom da possível eleição de Lula. Ele conversou com o autor do termo Consenso de Washington, John Williamson, do Instituto de Economia Internacional, e sua resposta foi menos perturbadora do que os mercados prevêem.

?Depois de anos de falhas, o PT agora é elegível precisamente porque suas políticas têm convergido para o meio. Lula sendo eleito, e Washington sendo sábio, os Estados Unidos vão aceitar perturbações ocasionais com o Brasil (Lula será sem dúvida bom com Fidel Castro) como um preço que vale ser pago por algo bastante notável. Isto é a vitória da democracia na América Latina?, afirma Williamson na reportagem.”

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