Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > LAÇOS DE FAMÍLIA

Gabriel Priolli

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

QUALIDADE NA TV

LAÇOS DE FAMÍLIA

"Laços de Família’ deixa bom saldo", copyright O Estado de S. Paulo, 4/02/01

"Assim como foi em 1996 com O Rei do Gado, que produziu incontáveis manchetes na época e ainda hoje é lembrada pela tematização do Movimento dos Sem-Terra e do Congresso Nacional (este, pelo senador virtual Roberto Caxias), a recém-encerrada Laços de Família, da TV Globo, deverá entrar para a posteridade como ‘a novela que foi censurada’. Não deixa de ser verdade, se escoimado o termo ‘censurada’ dos atributos de arbitrariedade e ilegitimidade, com os quais não poucos, dentro e fora da emissora, procuraram desqualificar a ação do Governo Federal, do Ministério Público e da Justiça contra algumas impropriedades da encenação. Mas não deixa, também, de ser injusto, porque a obra de Manoel Carlos não merece ser recordada apenas pelas circunstâncias que a envolveram, quando demonstrou vigor e qualidades intrínsecas.

Laços de Família reabilitou a faixa de novelas ‘das oito’ na Globo, que há anos enfrenta um perigoso declínio na audiência e iniciou a recuperação em 1999, com a saga ítalo-paulista de Terra Nostra. Não se valeu, entretanto, dos condimentos da cultura peninsular, sempre eficazes quando se trata de seduzir o telespectador do maior mercado de TV do País e, a partir dele, espraiar-se para outras latitudes. Ao contrário, enveredou pelo conhecidíssimo universo contemporâneo da zona sul do Rio de Janeiro, que tantas novelas anteriores abordaram quase à exaustão, e ainda assim teve enorme êxito, elevando as médias de Ibope do horário de 35 para 45 pontos, e ultrapassando freqüentemente os 50 pontos – feito notável nesta época ultra-concorrencial da televisão aberta.

Tal sucesso deve ser atribuído à habilidade do autor em construir situações dramáticas fortemente envolventes, como a disputa de mãe e filha pelo mesmo homem, o conflito de uma garota de programa entre a prostituição e a vida familiar, ou a decisão da mãe de engravidar para salvar a filha da leucemia.

Isso, apenas envolvendo o núcleo central de personagens, porque nas subtramas também houve a garota obsessivamente apaixonada pelo homem mais velho, o casal aflito pela impotência do marido, o parasita casado que engravida a empregada, o machão solitário que assedia e descarta mulheres – uma infinidade de elementos genuinamente folhetinescos, desses que incendeiam a imaginação e levam discussões às ruas.

Os equívocos de Laços de Família, portanto, não residiram na fórmula concebida por Manoel Carlos, mas na posologia administrada pela direção.

Aqui e ali, em alguns episódios, explicitou-se demasiadamente as cenas de violência e sexo, como no assassinato de Ingrid ou nas explosões da testosterona de Pedro. Com a repercussão que causaram, inclusive no plano judicial, fomentaram certa imagem de desregramento na novela, o que chega a ser irônico, dado que, como o próprio título prometia, poucas vezes se viu obra televisiva tão preocupada em reafirmar os valores familiares, além dos comportamentos éticos e das atitudes socialmente responsáveis. O número de doadores de medula e de leitores certamente aumentou no País.

Fica, assim, de Laços de Família, a memória de uma telenovela maiúscula, interessante e polêmica do início ao fim, como deveriam ser todas. Fica, igualmente, o saudável debate público sobre os limites do que é lícito levar ao ar no horário nobre, para uma audiência composta majoritariamente de famílias, com incontáveis crianças e jovens. No que mostrou, no que não pôde mostrar, no que suscitou, Laços fecha o balanço com saldo positivo. E eleva o patamar de qualidade para a decolagem de Porto dos Milagres, que terá a difícil tarefa de substituí-la. (Gabriel Priolli é jornalista, professor universitário e diretor da TV PUC)"

"Sem grandes mistérios, ‘Laços’ tem o maior ibope em anos", copyright Folha de S. Paulo, 4/02/01

"Sem mistério, sem Odete Roitman misteriosamente assassinada, sem segredos que só seriam revelado nos capítulos finais, sem vilões de verdade, sem casal apaixonado que se separa no navio. Mesmo assim, ‘Laços de Família’, de Manoel Carlos, termina como um dos maiores sucessos da TV nos últimos anos.

A vida de alguns moradores do bairro carioca do Leblon -onde vive o autor- conseguiu as maiores audiências da Globo dos últimos anos.

Claro que houve diversos fatores para explicar tamanho sucesso. Primeiro, a acertada escolha da sempre polêmica Vera Fischer como a protagonista Helena -como a supermãe e a supermulher, linda e desejada por todos. Com os beijos ardentes que trocava com o personagem de Reynaldo Gianecchini (uma aposta da Globo que não deu tão certo assim) no início da novela, chegou a levantar rumores de que estaria tendo um caso com ele, ajudando a levantar o ibope.

As cenas picantes, aliás, foram um dos pontos altos da novela e um dos fatores que deram início ao conflito da emissora com a Justiça, que pediu o afastamento dos atores menores de 18 anos da trama e a mudança de horário de ‘Laços’, que passou a ir ao ar apenas às 21h.

Atores mirins foram retirados -em um capítulo que teve a maior audiência de 2000, 55 pontos de média-, voltaram, e o ibope continuou alto, com a prostituta de luxo que morava com os pais, o marido da ricaça engravidando a empregada, a filha roubando o namorado da mãe, a mesma filha com leucemia, e a mesma mãe engravidando de um ex-namorado para salváaacute;-la.

‘Em ‘Laços’ deu-se uma reunião positiva para o sucesso: uma boa história, elenco adequado aos papéis, produção competente, direção segura’, avalia o autor Manoel Carlos, que pediu férias de um ano à Globo -ele tem contrato até 2003- e avisou que não quer mais fazer telenovelas. Só não se sabe até quando."

"Efeito Camila, a vitória no último capítulo", copyright O Estado de S. Paulo, 4/02/01

"Eles foram chegando timidamente. Os mais desinibidos perguntavam: ‘É aqui que será dada a palestra sobre doação de medula?’ A recepcionista, antes mesmo do fim da frase, já indicava: ‘É para lá.’ No terceiro andar do prédio do Hemocentro da Santa Casa, em São Paulo, pelo menos 50 pessoas se acomodavam na pequena sala. Os olhares eram curiosos e à espera de respostas. Eles formavam um grupo voluntário de doadores de medula óssea.

Ao entrar na sala, a médica Maria Cristina Albe Olivato, responsável pelo cadastramento de doadores do Hemocentro, perguntou: ‘Quem está aqui por causa da novela Laços de Família?’ Levantaram a mão 70% das pessoas. O restante tinha parentes doentes. Uma parcela mínima estava ali movida apenas pelo espírito voluntário.

É o efeito Camila. Ou o resultado da comoção causada no País com o drama da personagem da atriz Carolina Dieckmann na novela que acabou anteontem. A luta contra a leucemia na TV desencadeou um aumento no processo de possíveis doadores e da descoberta da doença. Segundo o Instituto Nacional do Câncer, desde novembro, quando a leucemia começou a ser abordada em Laços de Família, até a segunda semana de janeiro, a média de cadastrados no Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) saltou de 20 por mês para 900, um crescimento de 4.400%. No Disque-Saúde (0800-611997), o número de consultas sobre a doença passou de 871 para 2.427 no mesmo período.

‘Estou particularmente feliz. Ainda que fosse só por isso, já teria valido o esforço de escrever 209 capítulos, mais de 6 mil laudas, num prazo de 10 meses’, confessa Manoel Carlos, autor da novela.

Foi em ‘algum momento’ dessas 6 mil laudas, que Juvenilha Correia, de 44 anos, descobriu que poderia ser uma doadora. ‘Eu nem imaginava que era possível doar medula’, dizia ela, na semana passada, na fila do cadastramento do Hemocentro da Santa Casa. Juvenilha estava logo atrás da moça de calça saint-tropez e blusa curta, que, aos 24 anos, não sabia da existência do transplante.

‘Não imaginava que alguém pudesse engravidar para que um filho nascesse com medula compatível com a do irmão’, disse Cosma Ruth. Ela também desconhecia o fato de o transplante de medula poder curar outras doenças, como alguns tipos de câncer de mama, de pulmão e neurológicos, além de algumas doenças hematológicas.

Chama – Ainda emocinada, após gravar na quinta-feira a cena em que recebia o transplante de medula óssea da irmã, Carolina Dieckmann disse: ‘É bom saber que pude levar às pessoas um pouco da vida real e do sofrimento de quem tem leucemia e precisa de transplante.’

A Secretaria de Estado da Saúde habilitou, em janeiro, mais seis hemocentros para receber doação de medula óssea. Com isso, a expectativa é de que sejam realizados de 650 exames de compatibilidade por mês nos laboratórios credenciados. Os resultados serão encaminhados para o Redome.

Se por um lado o processo parece ser positivo, o médico Frederico Dulley, responsável pelos transplantes de medula óssea do Hospital das Clínicas, alerta para o fato de a novela criar uma ilusão. ‘É preciso saber se os laboratórios vão conseguir atender à demanda e realizar os exames’, diz.

Mesmo assim, o médico teme que os doadores desapareçam com o fim da novela.

Espera-se que Camila não seja apenas um personagem a ser lembrado. ‘Isso vai depender do govermo federal, do Ministério da Saúde e das secretarias estaduais; a chama tem de continuar acesa.’"

Volta ao índice

Qualidade na TV – próximo texto

Qualidade na TV – texto anterior

Mande-nos seu comentário

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem