Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > LEGISLAÇÃO

Gabriel Priolli

Por lgarcia em 01/08/2001 na edição 132

TALK SHOWS

"Senta, levanta", copyright O Estado
de S. Paulo
, 29/7/01

"O talk show caiu na vida. As entrevistas na TV vêm de longe, mas o que hoje chamamos de talk show começou com Ferreira Netto, no fim dos anos 70. Eram programas críticos à ditadura. Depois, Ferreira se converteu à direita autoritária, mas naquela época seus programas eram um raio de liberdade em céu nublado. Seguiram-se, não necessariamente nesta ordem, Marília Gabriela, Juca Kfouri, Maria Lydia, Jô Soares.

Se Ferreira foi quem melhor expressou o talk show dos inícios, Jô foi seu grande nome nos anos 90. Ingressou na área quando, passando da Globo ao SBT, desistiu do humor. Deve ter notado que seu gênero de cômico, um misto de crítica conservadora de costumes e de crítica liberal à ditadura, estava chegando ao limite. Não podendo ou não querendo entrar no modelo novo, que era o do Casseta & Planeta, Jô migrou para a entrevista. Reinou nela por uns dez anos, até que, voltando para a Globo, adotou um modelo multimídia, que mistura música ao vivo (que já usava) e telão – em suma, show e talk show. E aí está o problema.

Porque essa mistura não convence. Adriane Galisteu e Luciana Gimenez também entrevistam convidados, em meio a todo tipo de variedades, como cães amestrados que pedalam bicicletas. Mas qual a diferença entre os talk shows de qualidade, como os de Maria Lydia e Marília Gabriela, e os fracos ou ruins?

Recorro a um critério da imprensa inglesa. Lá se distinguem os quality papers, como o Guardian, o Times e o Independent, sóbrios e sérios, com formato grande – e os diários sensacionalistas, ou tablóides. É óbvio que nada obriga o formato de tablóide a abrigar a má qualidade (na Argentina e no Rio Grande do Sul os bons jornais são tablóides). Pois bem, o que diferencia um bom talk show de um ruim?

Talvez seja algo tão arbitrário quanto o tamanho do jornal: o fato de ficar o entrevistador de pé ou sentado. De pé, a entrevista é ruim, rápida, sensacionalista. Sentado, perguntas e respostas se alongam, o respeito ao entrevistado e ao público aumenta. De pé, ele usa truques. Foi Jô Soares quem iniciou isso, no SBT, começando o programa de pé e usando música ao vivo.

Aliás, não é que Galisteu ou Gimenez se tenham aproximado do talk show – foi Jô Soares quem se aproximou do show. Claro que ele conserva prestígio: o ministro da racionalidade, Pedro Malan, vai a seu programa e dificilmente iria ao de uma das duas moças. Mas parece que Jô quis vingar-se do gênero que liderou na década passada. Ou quem sabe, após dez anos de humor Casseta & Planeta, percebendo que ainda sobrevive o humor velho como o de Chico Anysio e Zorra Total, quis tentar uma síntese pessoal entre entrevistas e piadas. Só que o talk show, a versão atual de uma câmera na mão e algumas idéias na cabeça, é um gênero exigente. Despojado, mas exigente. Convertê-lo em show é matá-lo.

Afinal, se a televisão é imagem, o bom talk show é o que é pouco TV – é o que tem poucos recursos especiais e muita fala. Está mais perto do rádio ou do jornal. Isso deve descontentar os produtores de TV, mas que fazer?

Paradoxalmente, a boa TV é a que tem de tudo. Sufocar a fala no show é pena, e dá resultados fracos."

LEGISLAÇÃO

"Mais de mil projetos sobre televisão tramitam no Congresso. Mesmo que não cheguem a plenário, eles revelam na prática o tipo de TV dos sonhos dos parlamentares brasileiros. É televisão para todo gosto. Há propostas pertinentes, que fixam desde regras para o conteúdo das programações a concessões de canais. Mas há legítimos vôos da imaginação, excentricidades que tentam vetar lutas livres via satélite, proibir ataques a autoridades e até filmes de sexo explícito sem camisinha.

A maioria tem poucas chances de aprovação. Não por serem pitorescos ou inviáveis. O Congresso não aprova projeto envolvendo a televisão que não reflita interesses dos donos das emissoras, garante o senador Pedro Simon (PMDB-RS), que chegou a presidir uma subcomissão permanente sobre TV no Senado. ?É difícil parlamentares votarem algo que não seja de interesse das rádios e das televisões.?

Simon conta que nenhuma linha saiu na imprensa sobre os trabalhos da subcomissão, nos dois anos em que funcionou. Agora, para atrair a atenção da mídia, nova subcomissão será instalada no Senado, no segundo semestre, desta vez abrangendo também cinema e teatro.

O líder do PT na Câmara, Walter Pinheiro (BA), concorda com Simon que é complicado aprovar projetos na área de radiodifusão sem apoio das emissoras. Observa que boa parte das mais de mil propostas em tramitação não passa de bobagens, como um projeto que queria acabar com a exibição de luta livre ou ?vale-tudo, do deputado De Velasco (PFL-SP). A justificativa para a proposta era que um telespectador com tendência a ser violento acabaria inspirado nas lutas. O alcance da medida, no entanto, ficaria restrito, na TV aberta atual, ao inexpressivo Gigantes do Ringue, exibido na Gazeta aos domingos, às 21 horas.

Entre os projetos em tramitação, há casos curiosos como o do deputado Lincoln Portela (PSL-MG), que defende a ?proibição de utilização de expressões pejorativas e desrespeitosas a autoridades públicas e órgãos dos Três Poderes da República?. Pobre turma do Casseta & Planeta, Urgente!, com sua paródia ao presidente (?Enrolando Henrique Cardoso?, com Hubert), feita no programa que recentemente foi alvo da ira do Congresso ao mostrar uma prostituta ofendida ao ser confundida com parlamentar, pois, afinal, ela ?ganha a vida honestamente?.

Mais curioso é o projeto da deputada Nair Xavier Lobo (PMDB-GO) que proíbe a veiculação de filmes com cenas de sexo explícito sem o uso de preservativos. A medida atingiria principalmente canais pagos, como Playboy (DirecTV e Sky) e CineSex (Tec Sat).

Na avaliação de Simon, pela falta de controle e leis ordenando o mercado, as emissoras até apelam pouco. ?Fazem menos do que poderiam fazer?, afirma. Para ele, a sociedade deveria preocupar-se com rádio e TV tanto quanto com saúde ou educação. ?A TV é a grande babá eletrônica dos brasileiros.?

O excesso de violência e mortes nos programas, por exemplo, acaba sendo recebido pela população como ?algo normal?, adverte o senador, que é autor de um projeto que exige a exibição de programas educativos por cinco horas por semana.

A violência na TV é objeto de vários projetos. O senador Romero Jucá (PSDB-RR), por exemplo, sugere a criação de um selo com a advertência ?esta publicação ou este filme incentiva a violência? para identificar filmes exibidos na TV ou programas de conteúdo violento veiculados por rádios ou outro veículo.

Quem faz coro a Simon é o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que apresentou projeto defendendo a versão brasileira de programas estrangeiros feita só no Brasil e por brasileiros habilitados, para evitar distorções da língua.

Segundo ele, esse trabalho não raro é feito nos Estados Unidos, com traduç&ootilde;es mecânicas. ?Já vi trocas indevidas, como traduzirem a palavra sábio por médico numa produção?, lembra. A medida afetaria canais como Fox, que tem séries como Ally McBeal e Filhos da Praia dubladas nos EUA, nem sempre por brasileiros. Rebelo diz que os canais devem usar com responsabilidade a concessão recebida do Estado. ?Escola, pai e mãe têm pouca ascendência sobre as crianças?, afirma. ?Não pode haver censura, mas é preciso impor limites.?

O anteprojeto do ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, que está em consulta pública e será enviado à Câmara nos próximos meses, determina ao explorador de serviço de radiodifusão a exibição de ?porcentual mínimo de dramaturgia brasileira inédita?. Mesmo sem especificar o porcentual, esse artigo já provoca polêmica no meio televisivo, porque hoje só a Globo produz novelas e seriados. As outras emissoras importam esses produtos.

A proposta do ministro exige das emissoras a transmissão de um porcentual mínimo de programas educativos e informativos dirigidos à criança, entre 7 e 22 h. Nesse período, os anúncios deverão ser adequados à criança. Também não traz maiores explicações. Walter Pinheiro observa que é necessário regulamentar bem esse capítulo porque estudos mostram que a criança se espelha nos personagens de desenhos e programas infantis. ?Ela extrai dessas figuras comportamentos que aplica no cotidiano.?

Pinheiro ressalta que sempre se reclama do baixo nível dos programas. Mas a responsabilidade não seria só dos canais, passaria também por um problema cultural. ?Ratinho é uma porcaria, mas tem audiência porque expressa coisas do cotidiano.? Para ele, não será uma lei que vai alterar esse comportamento, o trabalho envolve evolução cultural da população.

Há grande quantidade de propostas de conteúdo voltado para a utilidade pública. O senador Gerson Camata (PMDB/ES), por exemplo, defende a obrigatoriedade de pelo menos dois minutos da programação das TVs para divulgar fotos e nomes de menores desaparecidos.

Já o deputado Rosinha (PT/PR) propõe que se proíba a propaganda de remédios na TV para evitar estímulos ao consumo indevido. O deputado Djalma Paes (PSB-PE) quer que as emissoras sejam obrigadas a divulgar listas de foragidos da Justiça.

Jaques Wagner (PT-BA) propõe a veiculação gratuita e obrigatória de campanhas de prevenção à aids na TV e no rádio (um minuto diário, em horário nobre), enquanto Paulo Paim (PT-RS) define a cota de 25% de presença de negros e afro-descendentes em atrações de TV, filmes e peças. Em peças publicitárias, a exigência compromete 40% do elenco.

O senador Roberto Requião (PMDB-PR) quer espaço nas TVs para divulgar a atuação dos parlamentares. Sua proposta torna obrigatória a reserva de 5 minutos, entre 19 e 23 h, para retransmissão diária de programa oficial do Congresso. Esse tempo se somaria ao Voz do Brasil, que noticia por rádio as ações do governo e do Congresso. ?Observamos diariamente a mídia apresentar reportagens distorcidas sobre o Legislativo, insistindo no escândalo de apelo fácil e deixando de levar ao conhecimento público coisas importantes que aqui ocorrem?, justifica Requião."

    
    
                     

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