Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > O GLOBO

Garota da capa e o jornalismo de "celebridades"

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

O GLOBO

Sylvia Moretzsohn (*)

O que fazia aquela jovem desconhecida que mostrava os seios e se insinuava no caminho do famoso autor de novelas, na foto de capa de um dos maiores jornais do país?

Nada, a não ser exibir-se para uma foto.

O que fazia a foto daquela jovem desconhecida que mostrava os seios e se insinuava no caminho do famoso autor de novelas na capa de um dos maiores jornais do país?

Propaganda. Da novela e, por extensão, da jovem exibida.

A atitude da moça, "aspirante a atriz", é perfeitamente coerente com a de personagens de Celebridade, a mais nova atração do horário nobre.

A atitude do jornal é perfeitamente coerente com um certo modo de eleger as notícias.

No caso das Organizações Globo, as novelas produzidas pela empresa são sempre notícia em seus (tele)jornais. E, na medida em que são notícia, geram mais notícias.

Assim, todos os fatos relativos à produção da nova novela tornam-se notícia e alimentam a expectativa em relação ao dia da estréia, que por sua vez gera notícias a respeito da confirmação das expectativas produzidas pelo notici&aacuteaacute;rio precedente.

Profecias autocumpridas, como se diz na sociologia.

Então, a presença do autor num restaurante para assistir à veiculação do primeiro capítulo de sua nova obra já seria notícia. Melhor ainda se uma jovem se insinuasse no meio do caminho, desabotoando a blusa, para a alegria das câmeras.

A cena não precisaria ter sido montada nem pelo jornal nem pela produção da novela. Já seria, "naturalmente", provocada por quem percebe os critérios que conduzem um ato fortuito à primeira página.

A garota da capa, "aspirante a atriz", conseguiu o que queria. Por quê? Porque o jornal deixou.

E por que o jornal deixou? Porque era uma forma mais atraente de fazer propaganda da novela.

No momento em que se volta a falar tanto na aproximação entre universidade e mercado para a melhor formação de jornalistas, esse episódio que O Globo ofereceu na sua capa de 15 de outubro não deixa de fornecer um belo exemplo sobre o que, afinal de contas, se entende por jornalismo.

(*) Jornalista, professora de Jornalismo da UFF

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