Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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Gaudêncio Torquato

Por lgarcia em 20/09/2000 na edição 98

ASPAS

MÍDIA E ELEIÇÕES

"O marketing do vitupério", copyright O Estado de S. Paulo, 13/9/00

"A campanha eleitoral em curso está evidenciando um fenômeno que representa um avanço na etologia nacional: o aumento expressivo da taxa de racionalidade. Em função disso, candidaturas mudam de posições, alterando significativamente o mapa da previsibilidade desenhado por marqueteiros e publicitários que enxergam a opinião pública como um território de consumidores dispostos a comprar firulações cosméticas e televisivas. Para eles, dando-se uma injeção de matéria plástica no corpo social, a reação positiva virá em cadeia. Ocorre que candidato não é sabonete e ?pessoas célebres?, fabricadas pela televisão, não são necessariamente grandes pessoas. Celebridade fabricada é vilania.

A política, desde os tempos antigos, sabe-se, é um teatro de vedetes. Luís XIV, aquele que fez de seu reinado um show, espalhando por toda parte o fulgor de seu emblema, um sol radioso, dizia: ?Os povos gostam de espetáculo; com isso dominamos seu espírito e seu coração.? Os imperadores romanos davam pão e circo ao povo. Desde tempos imemoriais, a política tem sido um exercício de sedução. Na expressão do poeta Ovídio, governar é mais seduzir do que convencer. Seduzindo, Hitler transformou-se no maior carrasco da história contemporânea.

Os povos, felizmente, têm evoluído, talvez não no ritmo e intensidade desejados. A educação para a cidadania, reconhece Norberto Bobbio, tem sido um das promessas não cumpridas a contento pela democracia. Avanços, porém, têm ocorrido. Alguns até em função da corrosão de perfis e saturação de discursos. Veja-se o caso de Maluf, por exemplo. É um ícone do obreirismo faraônico, que hoje assusta. A verdade que exprime parece bem menor que a fala. Está sendo queimado pela fogueira que ele próprio acendeu nos últimos anos, aí incluído um conceito de gestor (?ele faz, ele fará?), como se o fato de fazer não fosse obrigação de qualquer governante. Não será por acaso que o discurso mirabolante de Romeu Tuma (saúde de graça para os paulistanos e perfuração de 140 mil poços na capital) entrará em descrédito.

O marketing chegou ao clímax com a performance esportiva de Fernando Collor como presidente da República. Ele saturou o estilo vedetizado de governar.

De lá para cá, os produtos sintéticos, fabricados às pressas, começaram a criar desconfiança. Pitta, produto do marketing, deu no que sabemos. A sociedade foi vacinada, não em sua totalidade, mas a pedrinha jogada no meio da lagoa está criando marolas que chegam às margens. A taxa de racionalidade das classes médias está se aproximando das classes sociais mais pobres. A pronta submissão à tirania, efeito do ilusionismo político, está, felizmente, diminuindo no País.

O povo percebe quando o discurso, encoberto por tintas e disfarces, falsifica a vida e inverte o real. Nunca foi tão desejada a passagem do herói, com ares divinos, para o homem simples, próximo, capaz de cumprir o que promete. A crise, sabe-se, deflagra a necessidade de ídolos. Na angústia, a coletividade se refugia na figura tutelar do pai protetor. Mas os ?heróis? de hoje estão quase todos cobertos pela lama da desconfiança. E os heróis de ontem, como o último deles, Ayrton Senna, são apenas lembranças ternas no nosso cantinho da saudade. Por isso, quem quer ser herói que tenha cuidado para não descumprir a sagrada lição das Escrituras: ?Nenhum homem, por maior esforço que faça, pode acrescentar um palmo à sua altura? e alterar o pequeno modelo que é o corpo humano.

Quem aparece de maneira mais natural está crescendo nas campanhas. Geraldo Alckmin até pode cair em razão de ligações com Mário Covas, Fernando Henrique, Febem e a criminalidade em São Paulo, mas é o perfil que mais se aproxima de uma identidade real. Quando a imagem de um candidato está distante de sua identidade, ocorre o que se chama de dissonância. É como a sombra muito longe do corpo exposto ao sol do entardecer. Marta Suplicy e Erundina distanciam-se de sua identidade. A candidata do PT tem muito gás para gastar, porque acumulou combustível desde a última campanha e passou a idéia de principal oposicionista. Erundina pode até recuperar o discurso político.

A esta altura, já se pode dizer que há um perdedor na campanha: o marketing da extravagância, do delírio, do vedetismo exagerado, do discurso caricato.

O povo está à procura de um perfil que agregue honestidade, respeito, equilíbrio, autoridade, experiência, despojamento pessoal, simplicidade.

Quem tiver tais valores, favor apresentar propostas. Mas, como diz a linguagem popular, ?sem forçação de barra?. É oportuno lembrar uma historinha de um russo que, visitando o Jockey Club de Paris, pediu aos anfitriões a definição de um cavalheiro. Seria um título herdado, uma casta ou uma questão de dinheiro? Eis a resposta recebida: um cavalheiro revela suas qualidades sem ser necessário dizer que as tem. Elogio em boca própria, diz o ditado, é vitupério. E o marketing do vitupério é um acinte à cidadania. (Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor-titular da USP e consultor político E-mail:gautorq@dialdata.com.br)"

"Campanha eleitoral na internet", copyright iG <www.ig.com>, 8/9/00

"Estamos a menos de um mês das eleições municipais e há um novo meio de comunicação de massa disponível: a Internet. Embora a maioria dos eleitores ainda não esteja conectada, uma minoria significativa ? sobretudo nas grandes cidades ? está e é presumivelmente formada por pessoas de alta escolaridade e que portanto devem ser consideradas ‘formadores de opinião?. Resolvi dar uma verificada de como anda a campanha eleitoral para a prefeitura de S. Paulo na Internet. Para minha frustração, percebi que ela não está muito presente e, com uma honrosa exceção, apresenta pouco mais do que se pode encontrar na propaganda gratuita pela TV.

Não me considero um viajante experimentado pela via eletrônica universal, mas uma campanha eleitoral para ser efetiva deve ser acessível ao mais bisonho dos interessados. De modo que meus resultados podem ser vistos como representativos dos obtidos pelo internauta ocasional médio. Acionei uma busca de sites de políticos e obtive um total de 86. Desses, três eram de candidatos a prefeito de S. Paulo ? Marta Suplicy, Paulo Maluf e Romeu Tuma ? e um a vice-prefeito: Emerson Kapaz. Outros quatro eram de candidatos a prefeito do Rio de Janeiro: Benedita da Silva, Cesar Maia, Luiz Paulo Conde e Ronaldo Cesar Coelho.

Resolvi abrir os sites dos candidatos paulistas. Com exceção do de Marta, os demais continham apenas notícias de campanha e a propaganda habitual, sem a apresentação de programa ou de propostas mais substanciais. O site de Marta Suplicy constitui a exceção que confirma a regra. Pode-se ler ou descarregar um alentado programa de 33 páginas em que ela expõe detalhadamente como pretende reativar a economia da capital e gerar trabalho e renda, o que ela propõe em termos de descentralização administrativa mediante a implantação de sub-prefeituras e assim por diante.

Após um esforço ulterior consegui localizar o site de Marcos Cintra, que em sua propaganda pela televisão convida os eleitores a se dirigir a ele pela Internet. Mas lá tampouco o interessado encontra um programa ou um elenco articulado de propostas; apenas artigos publicados na grande imprensa e discussões genéricas. Há uma home page de Geraldo Alckmin que sequer menciona sua candidatura a prefeito.

Os sites dos partidos políticos visitados tão pouco apresentam os programas de seus candidatos. A maioria deles parece dirigida aos ativistas, oferecendo notícias e instruções de campanha. É uma pena, pois a Internet deveria ser vista como uma mídia qualitativamente distinta, que poderia exercer uma função política mais sofisticada ao satisfazer a curiosidade de pessoas que dispõem de um nível de informações acima da média e querem cotejar as propostas dos candidatos para a cidade ou que visam problemas específicos.

A Internet veio abrir um gargalo que obstruía a livre comunicação entre candidatos e o eleitorado mais exigente e melhor informado, cuja influência sobre os demais eleitores não deveria ser subestimada. A mídia de massa ? a televisão e a grande imprensa ? simplesmente não dispõe de espaço para informar adequadamente este público. Como é fartamente sabido, a propaganda dirigida ao público em geral se resume a slogans e a propostas e promessas genéricas. Agora, a grande via eletrônica oferece espaço em abundância para que os candidatos se comuniquem com os formadores de opinião e cada um tem a baixo custo toda a possibilidade de mostrar racionalmente que é o melhor. É triste mas significativo que quase nenhum deles esteja aproveitando esta possibilidade."

"O debate frustrado", copyright Jornal da Tarde, 15/9/00

"Do debate político promovido pela Band no dia 4 passado, ninguém saiu satisfeito, nem os participantes, nem o público, nem a imprensa, nem os observadores políticos, e, possivelmente, nem os organizadores.

Em parte, o fracasso foi atribuído à legislação eleitoral. O brasileiro, que é proverbialmente desorganizado, quando se mete a pôr ordem em algo cai no extremo oposto, no excesso de regulamentação. Em certa dose, no entanto, o anticlímax se deve ao critério da própria emissora. Como explicar, por exemplo, que o Zé, aquele Zé ninguém, fosse sorteado nada menos do que sete ou oito vezes para lançar farpas e insinuações maldosas a todos os candidatos, menos Tuma e Maluf? Não foi muito estranho?

Por falar em Tuma, o representante do PFL não esteve nada bem. Romeu Tuma já é normalmente amarrado em público, e com o engessamento imposto pelo programa ficou ainda pior, penoso de ver e ouvir. Aquele homem não anda bem.

Apresenta aspecto convalescente e valetudinário. Foi mais uma maldade do PFL jogá-lo às feras nessa disputa para a qual se mostra tão mal equipado, e não só de saúde.

De todos participantes, convenhamos que os únicos que sabiam falar com competência sobre o governo da cidade foram Luiza Erundina, Marcos Cintra e Geraldo Alckmin. A mais jejuna foi Marta Suplicy. Seu discurso em todos os momentos parecia lição de escola muito mal decorada. Mas o pior foi sua falta de respeito e lealdade pelos concorrentes quando começou a ler perguntas dirigidas a Marcos Cintra, que não passavam de indiretas e provocações a Geraldo Alckmin, impedido de responder (outra limitação do programa). Um papelão. Não venha mais o PT falar em ética. Sua candidata jogou no lixo a ética do PT, que se julga dono da moralidade pública. Que ninguém se iluda com os seus lindos olhos azuis. Aquela senhora, se tiver poder nas mãos, vai ficar tão arrogante e atrevida quanto Paulo Maluf. Marta é loba em pele de ovelha.

Quanto a Paulo Maluf, lembra um mau ator em fim de carreira, repetitivo, inconvincente, mal ensaiado. Será que seu marqueteiro é tão amador que ainda não ensinou a Maluf que para falar mentira na tevê ele tem de piscar menos? Debater-se menos nas respostas?

Luiza Erundina faz um tipo interessante. Atarracada e com aquele jeitão de Maria Quadrado (Canudos), apresenta-se com certo ar maternal, protetor (?vinde a mim os excluídos?). Seu discurso é prosaico, mas sólido, sem tropeços nem promessas absurdas. Só que muito marcada como patrona dos desvalidos, quando ao prefeito cumpre cuidar da cidade como um todo.

Geraldo Alckmin, nota 10 de aplicação e comportamento. Confiável, fluente, a cabeça realmente no lugar. Só precisa de um pouquinho mais de turbulência para quebrar a figura um tanto congelada de primeiro da classe ou congregado mariano. Ele cresce quando responde às agressões e aos golpes baixos.

Alckmin, Marcos Cintra, Erundina e o impagável Enéas comunicam-se em bom português, ao contrário dos demais. Como os políticos estão falando mal!

Algumas pérolas : ?A segurança pública é uma sensação? (Tuma). ?O PSDB fez privatizações alienígenas? (Zé de Abreu). ?A cidade que eu nasci? (Maluf).

Populismo? Nem Adhemar de Barros falava assim. Nem Brizola o faz. E nem Jânio, que ia para o extremo oposto, falando como um livro de gramática aberto.

Que dizer dos demais? Marcos Cintra, correto, elegante, com seu arzinho de raposa esperando a hora de atacar. José Maria Marin, mais apagado do que um pavio em fim de festa. Enéas Carneiro, o Barba-Azul, sem dúvida o maior cômico de nosso cenário político atual, a barba negérrima, a vociferação furiosa, os óculos coruscantes. Quem o leva a sério?

Fernando Collor, pelo contrário, causa inquietação. Encarna a própria figura do ressentimento, a linguagem rancorosa e corrosiva, com aquele olho fixo terrível, o ?olho do diabo?, como se diz. Conseguiu, no entanto, o que pretendia: chamar atenção sobre si, com seu domínio desinibido da televisão.

Em tempo ? Não basta votar bem só para prefeito. É preciso saber escolher os vereadores, para que não tenhamos de tapar o nariz sempre que passamos pelo Viaduto Jacareí. (Gilberto de Mello Kujawski é ensaísta e autor de ?O Sabor da Vida? (ensaios) e de ?O Elmo de Marubrino? e-mail: gmkuj@ig.com.br)

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