Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DA GUERRA

Gazeta Mercantil

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

COBERTURA DA GUERRA

"O impacto nos cartuns", copyright Gazeta Mercantil, 11/10/01

"O outono (no hemisfério norte) mal começou e Mort Walker já tenta calcular como será o humor dos Estados Unidos nas férias do fim do ano. Ele não pensa que será comemorativo. E como uma das forças criativas por trás das histórias de ?Hi & Lois? (no Brasil, ?Zezé?), a tira de quadrinhos que alegra os jornais diariamente por 47 anos com momentos das vidas da família Flagston, ele precisa criar roteiros que são sinônimos das atitudes de milhões de americanos chocados e dominados pelos atentados do dia 11 de setembro.

?Quem sabe o que acontecerá??, perguntou Walker, de seu estúdio em Wilton, Connecticut. Como muitos cartunistas de tiras de quadrinhos, ele trabalha com semanas de antecedência, e precisa antecipar como as legiões de leitores vão querer ser entretidas enquanto declina a economia e pairam as ameaças de violência em solo americano. ?Tenta-se captar o humor ou o espírito do momento?, afirmou. ?O único problema é que realmente não é engraçado. Mas se há um momento para deixar de lado as piadas e tentar fazer algo que talvez seja mais animador ou pessoal, é agora.? Ele imagina tiras dominicais que ressaltam o valor das doações para caridade ou de ficar em casa com a família.

Justamente quando a nação se prepara para um conflito contínuo, também acontece o mesmo com suas páginas de quadrinhos – aqueles repositórios de décadas de prediletos familiares como Recruta Zero, Mike Doonesbury, Garfield, Dilbert e Aninha, a Pequena Órfã. As pessoas que precisam de uma gargalhada ou de um choque – dois elementos que os quadrinhos normalmente fornecem em profusão – poderão ter de se voltar para outro lugar. Os cartunistas agora imaginam como fazer as tiras funcionar enquanto o humor da nação fica mais reflexivo e cáustico.

Um tom mais triste parece inevitável, marcando uma mudança em relação ao aspecto da página de quadrinhos durante as crises passadas. Durante a Segunda Guerra Mundial, tiras como ?Terry e os Piratas? e ?Steve Canyon? tornaram-se ultrapatrióticas, até jingoístas, enquanto heróis enfrentam forças antiamericanas. ?O inimigo era demonizado, até estereotipado, e mostrado como quase inumano?, explicou Mary Ann Weston, professora associada da Escola Medill de Jornalismo da Universidade Northwestern que estuda história e questões de jornalismo. Durante a era do Vietnã, o cartunista Garry Trudeau, criador de ?Doonesbury?, se levantou para dar tiros na política americana numa guerra impopular, chegando ao ponto de incluir um personagem Viet Cong com o nome de Phred.

Nesse caso, o humor pode não ser fácil. ?Esforcei-me tanto para parecer vida real?, suspirou Greg Evans, criador de ?Luann?, uma tira diária que relata os altos e baixos de sua protagonista, uma adolescente. Se seus personagens ignoram o que aconteceu em 11 de setembro, comentou, ?soa apenas artificial?.

Uma série de artistas de tiras de quadrinhos entrou rapidamente em ação para produzir material que está mais em sintonia com os acontecimentos atuais. Os leitores verão Luann preocupada com o futuro e o irmão dela, Brad, seria candidato a recrutamento obrigatório. Rob Wilco, o desanimado dono de animal de estimação de ?Get Fuzzy?, de Darby Conley, deverá nesta semana demonstrar como doar sangue. O cartunista Bill Amend, de ?Fox Trot?, já fez isso.

E ?Doonesbury?? Entrará no debate. ?Quanto ao que virá no futuro, é difícil de prever, especialmente com uma antecedência de dez a 15 dias?, afirmou o criador Trudeau. Ele está estudando um roteiro em que B.D. é convocado pela Guarda Nacional ou outro que explora o destino dos ex-colegas de Mike em sua antiga agência de publicidade, localizada, ?improvavelmente?, no World Trade Center. ?Raramente tenho uma idéia clara do rumo que vou seguir no começo de qualquer semana?, conta Trudeau, ?mas, dada a natureza desta história que rapidamente evolui, provavelmente é bom que seja assim.?

Nenhum ser de página de quadrinhos poderá chegar tão perto do alvo como a mulher de Funky Winkerbean, personagem central da tira do mesmo nome. Em uma tira com estréia prevista para esta semana, Cindy, repórter televisiva, faz reportagem em frente aos escombros das Torres Gêmeas. ?Os quadrinhos são a maneira de a nação – em bons e em maus tempos – falar de uma posição clara?, afirmou Tom Batiuk, o criador da tira. ?Mas o que aconteceu mudou totalmente a vida de todos. Não sei até que ponto é fácil para todas as tiras mostrarem isso.?

Vários cartunistas relatam ter rastreado seus arquivos de material não-publicado num esforço de depurá-lo de quaisquer comentários ou brincadeiras desgarrados capazes de agredir. Mort Walker diz que ?matou? duas de suas tiras do ?Recruta Zero?. Ambas tiravam um sarro do Pentágono. As tiras de ?Doonesbury? para a semana de 17 de setembro foram cortadas, segundo o Universal Press Syndicate, que publica esses quadrinhos; Trudeau sentiu que as tiras, que satirizavam uma brincadeira pela internet com relação à inteligência do presidente Bush, ?eram nitidamente inadequadas para publicação durante uma época de crise nacional?.

Scott Adams, criador do famoso ?Dilbert?, adiou a publicação de uma série de tiras que mostram o personagem-título criando sua própria companhia aérea. ?Não sei quanto tempo vamos deixá-la fora?, disse ele. ?Pode ser que simplesmente tenha de ser eliminada.? Outra série de tiras retrata o trabalho que se desenvolve em Elbônia, uma fictícia cidadezinha perdida no interior em que os personagens vivem ?num país muito parecido com o Afeganistão e usam barba comprida, preta; essas estão permanentemente em suspenso?.

Outros pretendem manter tudo como está em seus universos de três quadrinhos. Os soldados de ?Recruta Zero? não vão para a guerra, segundo seu criador, Mort Walker. ?Quero ajudar o Pentágono e o governo?, disse ele. ?Não quero ficar sentimentalóide?, disse Dean Young, o cartunista que está por trás da ?Blondie?, de mais de 70 anos. Seus personagens, acrescentou, ?são feitos para divertir e ser engraçados?. Mesmo assim, pode ser que ele acrescente referências sutis aos acontecimentos atuais.

Na verdade, conservar o clima tradicional de uma tira pode ser mais importante do que nunca. Brian Walker, o filho de Mort, pretende mostrar seus personagens fazendo o que costumam fazer.

Mas os cartunistas podem fazer novas mudanças nas próximas semanas. Os quadrinhos ?inequivocamente vão reproduzir a atmosfera do país, e eu simplesmente não sei qual vai ser?, disse Scott Adams, de ?Dilbert?. ?Acho que as pessoas vão recorrer ao ?pungente??."

"Censura é tema de encontro sobre imprensa", copyright O Globo, 15/10/01

"As seqüelas dos atentados do dia 11 de setembro parecem ter se transformado nas maiores inimigas da liberdade nos meios de comunicação. Ontem, a censura às redes de TV e jornais americanos na cobertura da guerra dos Estados Unidos contra o terrorismo foi o principal tema da 57 Assembléia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), realizada em Washington.

No documento que analisa a situação da imprensa no continente americano nos últimos meses, o presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP, o dominicano Rafael Molina Morillo, diz que os Estados Unidos vêm sacrificando um de ?seus tesouros mais preciosos? – sua liberdade de imprensa.

Morillo se referiu ao fato de que as TVs vêm atendendo aos apelos do governo para limitar a veiculação de imagens de terroristas, a fim de impedir a difusão de mensagens para seus simpatizantes.

– Algumas medidas adotadas pelas autoridades americanas podem ferir direitos humanos – advertiu Morillo.

Na Grã-Bretanha, também há ameaça de interferência na cobertura da guerra. O governo pretende convocar um encontro com os maiores meios de comunicação do país para discutir a melhor forma de difundir os pronunciamentos de de Osama bin Laden. As empresas de comunicação estão com medo que o governo Blair apele para a censura."

    
    
                     
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