Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

PRIMEIRAS EDIçõES > COLUNISMO SOCIAL

Gente boa e gente fina

Por Muniz Sodré em 30/12/2003 na edição 257

“Gente Boa”, a recente seção diária de Joaquim Ferreira dos Santos no segundo caderno de O Globo, substitui, como bem se sabe, a “coluna social” que era tradicionalmente assinada por Hildegard Angel. O fato tem interesse ao mesmo tempo jornalístico e sociológico ? representa, na verdade, uma virada na mitologia classista da imprensa brasileira.

A função histórica da “coluna social” era a de consagrar a modernização dos estilos de vida das elites. Em termos mais diretos, tratava-se da chegada à coalizão dominante no Brasil de setores ponderáveis da burguesia industrial e mercantil, que depois da Segunda Grande Guerra foi aos poucos tomando o lugar da classe agrário-exportadora. A temperatura ideológica deste gênero, ou seja, aquilo que constituía o “tom” jornalístico da visibilidade social da nova fração de classe no poder, consistia na celebração de sinais exteriores de consumo conspícuo.

Antes de tudo, coisas importadas. O general Eurico Gaspar Dutra, presidente da República entre 1946 e1950, já dera o tom geral, esbanjando as reservas de divisas brasileiras na importação de matéria plástica. O Cadillac rabo-de-peixe, a meia de náilon, o uísque, o champanhe, a ostentação de riqueza nas grandes recepções ou em boates são elementos estéticos, digamos assim, que, discursivamente celebrados por colunistas, ajudaram a construir a mitologia do grand monde ou “café-soçaite”.

Melhor talvez do que qualquer sisuda obra sociológica, uma canção popularizada por Jorge Veiga resumia o fenômeno:

“Doutor em anedotas e em champanhota/ estou acontecendo no café-soçaite/ só digo ?enchanté?, ?muito merci? e ?all-right?/ troquei a luz do dia pela luz da Light./ Agora estou somente contra a Dama de Preto/ nos dez mais elegantes eu estou também/ adoro Riverside, só pesco em Cabo Frio/ decididamente, eu sou gente bem./ Enquanto a plebe rude da cidade dorme/ eu ando com Jacinto que é também de Thormes/ Teresa e Dolores falam bem de mim/ eu sou até citado na coluna do Ibrahim/ e quando alguém pergunta como é que pode/ papai de black-tie, jantando com Didu/ eu peço um outro uísque/ embora esteja pronto/ como é que pode? Depois eu conto”.

A canção alinha os elementos expressivos ? pessoas, comportamentos e objetos ? para a configuração do pertencimento ao “soçaite”, abrasileiramento de high-society, depois traduzido para “alta sociedade” e, ainda, “a sociedade” ou “gente bem”. Nem sempre o dinheiro era o principal vetor do pertencimento, como insinua a canção: um “pronto”, isto é, alguém financeiramente “duro” poderia penetrar no círculo dos happy few, desde que manejasse com mestria um obscuro “capital” de relações sociais e de táticas de esperteza ascensional. O “soçaite” sempre foi o mundo do “depois eu conto”.

Mitologia pequeno-burguesa

O colunista era alguém que, efetivamente, contava depois alguma coisa. De seu acesso aos círculos mais fechados e, claro, de sua discrição bem dosada, provinha o seu prestígio junto às elites dirigentes e, daí, junto ao dono do jornal e seu público. A canção celebra Jacinto de Thormes e Ibrahim Sued, mas este último terá sido muito provavelmente o mais notório de todos eles, inclusive por seu estilo particularíssimo de se expressar, com bordões que ficaram famosos. Ele não parecia incomodar-se com os epítetos de iletrado, com que era freqüentemente brindado.

A propósito desse propalado deslustre cultural, testemunhamos certa vez uma reunião na sede de uma famosa revista carioca em que o proprietário admoestava fotógrafos e repórteres contra os males da ignorância, sustentando que o estudo era a única forma de subir na vida. Achava-se presente Ibrahim, que na época fazia algumas entrevistas para a revista. Com o tom desabusado que o caracterizava, interrompeu a fala do outro: “Isto não é verdade! Você e eu somos a prova viva de que, neste país, estudo é desnecessário”. Seu prestígio lhe permitia chistes desta natureza.

Outros colunistas também marcaram época, inclusive de modo mais refinado, a exemplo de Zózimo Barroso do Amaral. Hildegard Angel também ocupou uma posição marcante, publicamente evidenciada por ocasião do espetáculo de seu casamento na Candelária, muito tempo atrás, quando se fez presente o grand monde do Centro-Sul.

Com o passar do tempo, as colunas sociais, tanto no Rio como em São Paulo, foram incorporando personagens de destaque na vida social, sem os traços tão fortemente marcados pelo velho “café-soçaite” do passado. As figuras importantes pouco mudaram, mas alguns empobreceram ou perderam o brilho; a outros, “emergentes”, parece faltar a finesse que suscita identificações e projeções coletivas. De resto, sob o escrutínio cada vez mais apurado do “leão” do imposto de renda, deixou de ser prudente exibir sinais exteriores de riqueza.

A coluna de Joaquim Ferreira dos Santos, dono de um dos melhores textos da crônica de hoje, tem um título sintomático: “Gente boa”, e não “Gente bem”. A troca do advérbio pelo adjetivo é claro sintoma de mutação tanto na forma de tratamento dos bem postos na vida social quanto na sua seleção. Os personagens da coluna têm agora a ver com a mídia ou com situações suscetíveis de passar pelo crivo da midiatização.

A velha farolice da burguesia mercantil dá lugar à “classe mídia” ou classe dos espetáculos, que hoje freqüenta palácios de governo e já faz até mesmo ministro de Estado. A modernização pelo consumo ganhou foros democratistas, contemplando a “plebe rude”, mais fascinada com mídia e equipamentos eletrônicos do que com a vida mitológica de milionários. De vez em quando, uma olhadinha na revista Caras.

A coluna de Joaquim pode não ser nada definitivo em termos de fórmula jornalística, pode ser até mesmo que mude a médio prazo, mas certamente dá boas indicações quanto à mitologia pequeno-burguesa e contemporânea do social.

(*) Jornalista, escritor, professor-titular da UFRJ

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