Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & NOTÍCIA

Gerenciando para padronizar

Por lgarcia em 08/08/2001 na edição 133

MÍDIA & NOTÍCIA

Hugo R. C. Souza (*)

O artigo de Elio Gaspari de 1? de agosto faz referência a reportagem de Luciana Xavier sobre a mais do que comum romaria de empresários à área econômica do governo (!) para exigir a estabilidade de seus lucros fabulosos, bem como a garantia de que seus prognósticos internos sejam realizados. Sob pena de, uma vez não atendidos, botarem 50 mil na rua para que a conta da fábrica feche com a conta da compra de um helicóptero novo para cada filho do dono.

"Noticiaram" a romaria e o pedido (não sei em que tom, não li a reportagem, e a palavra que Gaspari usa para se referir a ela é que nos "ensina"), mas será que se o governo acatar, e deve acatar, alguém vai noticiar, sem aspas, o servilismo?

Talvez não, por um motivo muito simples: o problema é como proteger os trabalhadores, já que as empresas precisam demiti-los para continuar viáveis. Por que os trabalhadores não estão previamente protegidos, o sono assegurado por uma legislação que os deixe tranqüilos perante as urticárias do capital, nervoso porque não pode admitir passar por um período de queda nas vendas sem chutar as nádegas dos que até então montavam seus ventiladores? Porque "os prognósticos não podem sofrer alterações" (uma mentira sem razão, como é sem razão o fato de empresas cujos cofres fazem Tio Patinhas ruborizar tornarem-se "inviáveis" porque venderam 20% a menos de torradeiras)

 Ou seja, a lógica que fará a equipe econômica, provavelmente, passar a mão na cabeça da empresariada e assinar os "incentivos" é a mesma que tapou o buraco dos bancos que, uma vez, quebrados, "acabariam com o sistema financeiro", como foi o Proer. É a disseminação de uma idéia ambígua: a de que o Estado precisa ser benevolente com o capital que sustenta o sistema, para que o sistema possa resolver dar oportunidade de os cidadãos garantirem sua dignidade; ao mesmo tempo que o cidadão, cada vez mais, precisa do Estado para ter garantias contra a voracidade do sistema. Coisa que o Estado se recusa a fazer, em nome da cartilha.

Bem hidratados

É a falsa solução do "gerenciamento", e arrisco estabelecer um paralelo com um gerenciamento da própria imprensa, que se alinha ao enfoque administrativo da ideologia liberal (por convicção ou pelo imperativo do tempo real) e, assim, ajuda a legitimá-la, num círculo vicioso.

Dia desses um redator do site Primeira Leitura (as matérias não são assinadas) dizia que uma solução para as desumanidades dos presídios seria o advento de uma imprensa setorizada ali, como é setorizada no Congresso, no Palácio do Planalto etc. Quer dizer, ele parte do pressuposto que a cobertura do Senado é exemplar porque a Cristina Serra e o Alexandre Garcia estão acampados ali dia e noite, quando sabemos que acontece exatamente o contrário: pela proximidade com o poder, pelo relacionamento direto, acabam corroborando uma forma de administração enquanto Estado, e os pressupostos do poder são legitimados nos pressupostos da reportagem.

Tudo isso, aliado às diretrizes da empresa jornalística e à tal visão mercantilizada vigente, faz com que se cumpra o que afirmou Jânio de Freitas há pouco tempo: "O leitor acaba tendo que fazer o papel do jornalista, porque o jornalista quase sempre faz o papel do governo." Assim, resume-se a noticiar as resoluções, como um diário oficial, ou vai atrás das estripulias do parlamentar com o dinheiro nosso e do presidente abraçado à moçoila sem calcinha. Porque não há o que questionar, já que há concordância de critérios e pressupostos.

Colocando repórteres "especializados" onde podem pipocar "notícias" e tratando a informação de maneira padronizada e generalizada, racionalizando a realidade para que ela caiba no "tempo real" e satisfaça ao mercantilismo da empresa multimídia ? ou seja, gerenciando o jornalismo ?, o resultado são verdadeiras aberrações em forma de reportagem, como tivemos o prazer "estóico" de assistir no Jornal Nacional, no qual uma bela moça com o microfone na mão dizia que os flagelados da seca não estão bem de vida porque os prefeitos retêm o dinheiro que o governo federal envia, suficiente e definitivo para acabar com a dor do sertanejo. Quer dizer: por extensão, a culpa é do sertanejo mesmo! Da próxima vez, que tenham consciência e espírito crítico para votar em alguém que usará o dinheiro que titio FHC mandou para chamar o carro-pipa, e assim viverão felizes e hidratados para sempre!

(*) Estudante de jornalismo da UFF

    
    
                     

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