Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > O CIRCO DA RENÚNCIA

Gerson Camarotti

Por lgarcia em 06/06/2001 na edição 124

ASPAS

O CIRCO DA RENÚNCIA

"PFL e Planalto querem ACM falando sozinho", copyright O Estado de S. Paulo, 4/06/01

"O PFL e Palácio do Planalto estão afinados em relação aos ataques do ex-senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA): a ordem é ficar em silêncio e não responder a ACM por um prazo mínimo de um mês.

A estratégia é deixar o ex-senador falando sozinho até a mídia ficar cansada e parar de repercutir o tiroteio carlista. O presidente Fernando Henrique Cardoso já havia adotado a ?lei do silêncio?, determinando expressamente aos ministros que ignorassem ACM. Agora, o PFL resolveu seguir o exemplo.

A atitude do ex-senador pefelista tem irritado os líderes da legenda. A avaliação é de que se Antonio Carlos insistir com os ataques acabará prejudicando não só a aliança, mas também o próprio partido. Os pefelistas não escondem o constrangimento com o tiroteio de ACM feitos nos últimos dias, não só ao governo e ao presidente Fernando Henrique, mas também ao próprio PFL.

Silêncio – O silêncio pefelista foi decidido na última sexta-feira. A gota d?água aconteceu quando Antonio Carlos não só fez duras críticas a Fernando Henrique, mas também acusou o presidente do partido, senador Jorge Bornhausen (PFL-BA), de leniência por ter permitido a indicação do senador Geraldo Mello (PSDB-RN) para líder do governo. ?Agora estão todos zangados, mas se reagissem há mais tempo, como eu reagi, o palácio respeitaria mais o PFL?, chegou a dizer o ex-senador.

Este não foi o único constrangimento do partido em relação às declarações de ACM. Um dia antes, ele disse que tentaria levar o PFL para uma posição de independência ao governo. ?Antonio Carlos esquece que nós estamos no governo com o vice-presidente Marco Maciel e com quatro ministros?, lembrou um integrante da Executiva Nacional do PFL. Ao ser questionado sobre os ataques de ACM, o senador Jorge Bornhausen pôs em prática a estratégia do partido.

?Prefiro não me manifestar?, limitou-se a dizer o presidente do PFL.

?Exílio baiano? – A esperança do partido é que o próprio Antonio Carlos se canse dos ataques e passe a cuidar da política estadual. Alguns caciques pefelistas já apelidaram esse gesto de ?exílio baiano?. Pesquisas feitas nas últimas semanas, na Bahia, apontam que ACM já perdeu cerca de 20 pontos porcentuais de intenções de voto para o governo do Estado. Há dois meses, ele tinha 75% dos votos.

Antonio Carlos também foi aconselhado por colegas de partido a evitar o desgaste de sua imagem com ataques diários. De um pefelista próximo, ACM ouviu que a situação não permitiria sua tentativa de desestabilizar o governo e o País. Uma das reações contra Antonio Carlos, advertiu esse correligionário, poderia ser o fim da parceria entre a Rede Globo e a TV Bahia, de sua propriedade. A Globo pode trocar de afiliada no próximo ano, voltando a trabalhar na Bahia com a TV Aratu.

Agenda – Já no governo, a expectativa é que depois da renúncia de ACM o clima no Congresso volte à normalidade. Mas isso não significa que haverá uma grande ?temporada de votações?. A maior dificuldade continua sendo a votação da emenda constitucional que limita a edição de medidas provisórias pelo presidente da República. Apesar de ter sido posta na pauta desta semana pelo presidente da Câmara, deputado Aécio Neves (PSDB-MG), a emenda poderá não ser votada por falta de um acordo entre o governo e a oposição.

O Planalto só admite votar a matéria caso não haja a proibição de edição de MPs sobre temas alterados por reforma constitucional, como prevê o artigo 246 das disposições transitórias da Constituição. Esta é a imposição feita pelos partidos de oposição para votar a matéria. Mas o governo argumenta que esse artigo dificultará as ações do Executivo. O tema está emperrado na Câmara há quase dois anos e foi uma das promessas de campanha de Aécio Neves para a presidência da Casa."

"Fernando Morais conta sobre o último dia de ACM no Senado", copyright Último Segundo (www.ultimosegundo.com.br), 4/06/01

"O burburinho dá lugar a um respeitoso silêncio quando o ainda senador Antonio Carlos Magalhães entra na ampla sala de seu apartamento funcional, em Brasília, na manhã desta quarta-feira, dia 30 de maio.

Ele ficara acordado até tarde, revisando pela enésima vez o discurso que iria pronunciar horas depois, na tribuna do Senado. Apesar de estar quatro quilos mais magro (?Não foi a dieta, mas a aporrinhação dos últimos três meses. Perdi a fome.?) e com o cansaço denunciado pelas olheiras, ACM não parece alguém que passou os três meses no fundo do inferno.

Em passos lentos e bamboleantes, anda pela sala cumprimentando os amigos que o esperam desde cedo com um gesto característico seu – um leve afago com a mão direita espalmada às vezes sobre o peito, às vezes no rosto do outro. Na ponta da roda está o filho e suplente Antonio Carlos Peixoto de Magalhães Júnior – ou simplesmente ?Júnior?, como é conhecido -, que daqui a pouco vai ocupar sua cadeira no Senado.

Em seguida vêm os netos e prováveis herdeiros políticos Antonio Carlos Peixoto de Magalhães Neto (o ?ACM Neto?) e Luiz Eduardo Maron de Magalhães Filho (o ?Duquinho?), o primogênito do falecido deputado Luís Eduardo Magalhães.

Afetivamente incorporados à família Magalhães, aqui estão aqueles que talvez hoje sejam os amigos mais próximos de ACM: o jovem empresário baiano Carlos Laranjeira e o médico paulista João Carlos Di Gênio, dono do grupo educacional ?Objetivo?.

Um pouco mais atrás estão o advogado paulista Márcio Tomás Bastos e o publicitário baiano Fernando de Barros, dono da agência Propeg. Até a hora do almoço ainda passarão por aqui, entre dezenas de anônimos e figurões, o senador Íris Resende (PMDB-GO), o barítono, escritor e ex-senador biônico mineiro Murilo Badaró e até um dirigente do MR-8, organização marxista-leninista que edita o jornal ?Hora do Povo?.

ACM veste camisa social engomada, sem gravata, com os punhos abotoados, e calça cinza impecável. Senta-se no sofá diante de uma mesa de centro, onde estão espalhados os principais jornais de Brasília, São Paulo, Rio e Salvador. Pega um deles, ao acaso, lê por alto, com olhar de desprezo, devolve-o à pilha, pega outro.

Seu rosto revela que a cobertura da imprensa não o agrada. Soterrado sob a montanha de críticas, o senador tem uma surpresa agradável: um emocionado artigo em sua defesa, intitulado ?ACM e a volta por cima?, publicado hoje no ?Jornal do Brasil? e assinado por ninguém menos que seu presidente, M. F. do Nascimento Brito. Depois de arrolar as virtudes de político e administrador de ACM, Brito lamenta que ?tudo isto acaba de ser depreciado no Senado – esse templo do corporativismo – que nunca usou de severidade em relação a senadores nada exemplares.?

O entra-e-sai não pára. São senadores, deputados, correligionários, funcionários do Senado. De vez em quando aparece alguém repetindo um apelo: ?Não renuncie?. Alguns são mais veementes: ?Não dê esse gostinho aos tucanos, senador!?. Ele não parece se comover com isso.

Um jornalista traz uma mensagem da dramaturga Eugênia Tereza de Andrade. ?Quando subir à tribuna hoje, senador, não tenha piedade de Fernando Henrique Cardoso?, pediu Eugênia, uma comunista baiana radicada em São Paulo. No fim da manhã chega a notícia de que 400 pessoas, a maioria prefeitos e vereadores vindos de quase toda a Bahia, estão sendo impedidas de entrar no Senado.

ACM parece indignado. Todo mundo sabe que por trás da justificativa oficial para não deixar os baianos ocuparem as galerias (?prevenir possíveis tumultos?) está a mão de seu inimigo Jader Barbalho, que não seria ingênuo de abrir as portas do Senado para uma claque declaradamente pró-ACM."

"Médico da imagem", copyright IstoÉ, 4/06/01

"Mário Rosa, 37 anos, jornalista pela Universidade de Brasília, começou a vida profissional metido em encrenca. Mais exatamente, como assessor de imprensa do então ministro da Fazenda, Dílson Funaro – o controvertido arquiteto do Cruzado.

Dezessete anos depois, Mário mantém a mística: costuma estar onde a confusão está. Após uma trajetória bastante talentosa em veículos convencionais como Veja e a Rede Globo, Mário se especializou numa espécie de pronto-socorro para vítimas da (má) comunicação. ?Administrador de crises?, chamam uns. ?Administrador de imagem?, prefere ele, na convicção de que seu trabalho é do tipo que, como sexo, é melhor antes do que depois.

A síndrome de Aquiles ou Como lidar com as crises de imagem (Editora Gente, 247 páginas, R$ 23) é uma reflexão sobre sua experiência no inferno das crises que arrastam consigo o mais precioso patrimônio de uma pessoa pública – sua reputação – ou de uma organização – sua credibilidade.

?Ainda que as crises se dêem em instituições ou em empresas, elas sempre atingem um ser humano?, diz ele. Não por acaso, Mário Rosa já passou por situações constrangedoras como ver figuras imponentes chorando no seu ombro e ruindo à sua frente. Pouco a pouco, ele próprio foi construindo um sistema baseado na fórmula Andy Warhol às avessas. ?No mundo da informação instantânea?, resume, ?todo mundo tem direito a 15 minutos de fama, mas também a 15 minutos de execração?.

Mário Rosa passou, à sombra, pelo bug do milênio (assessorando o governo federal), pela CPI do Futebol (a CBF como cliente), pela última campanha presidencial argentina (seu candidato, o peronista Eduardo Duhalde, perdeu para Fernando De la Rúa) e cuida ou já cuidou da imagem de corporações como a Rede TV!, HSBC, Caixa Seguros, os Grupos Schahin, Jereissati, Opportunity e um vasto etc.

Se há algum tema que faltou ao livro e sobre o qual Mário Rosa desconversa é quanto ganha um homem dedicado a certas emergências empresariais. Admite apenas que é um bom dinheiro. Amigos dele confidenciam que, em nome de prudência bastante compreensível, Rosa costuma cobrar adiantado. É a prática no mercado onde a pioneira especialização de Mário Rosa já é profissão corriqueira: os Estados Unidos.

O preço pode ser um trabalho excessivo mesmo para quem cultiva a lenda de jamais dormir mais de quatro horas. Quanto ao inequívoco estresse pessoal de situações tão agudas, não há nada que não se resolva com meia dúzia de Cocas light – exatamente o que ele consumiu ao longo desta entrevista.

ISTOÉ – É verdade que você foi procurado pelo Antônio Carlos Magalhães nessa crise do painel do Senado?

Mário Rosa – É, assim como é verdade que fui procurado antes pelo senador Jader Barbalho, e sempre fui procurado por outros políticos. Mas prefiro não trabalhar com eles. Não se trata de uma questão de incompatibilidade pessoal. É que ajudo as pessoas a superar crises de imagem. Os políticos gostam de criar crises de imagem, não só para seus adversários como para si mesmos. É uma atitude canibalesca, de destruição mútua. Prefiro evitar. Todo mundo tem o direito de defesa. Até os nazistas, em Nurenberg, tiveram. Mas nem tudo é defensável. Não creio que Goering tivesse um assessor de imprensa.

ISTOÉ – De todo modo, se não houvesse Brasília e se não houvesse políticos, o que seria da profissão de um gerenciador de crise?

Mário Rosa – Brasília dá, sim, grande contribuição ao tema. É o que chamo de síndrome de Aquiles – o título do meu livro. Aquiles era aquele general grego vitorioso, um super ACM, enfim, um vencedor. Perdeu uma única vez, por causa de uma pequena falha – seu calcanhar não era invulnerável. Seu nome passou a ser associado à derrota e à fragilidade. Essa inversão súbita de imagem que atinge em especial as pessoas poderosas é o que chamo de síndrome de Aquiles.

ISTOÉ – Então, seu livro não é para quem está sendo derrotado. É até para quem está vencendo.

Mário Rosa – No caso dos dois senadores em crise, por exemplo, Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda – são homens talentosos. Você pode acusá-los de tudo, menos de serem ingênuos e imaturos. Mostraram seu ponto fraco. É um paradoxo: as pessoas muito poderosas são mais vulneráveis à crise. Às vezes, cometem erros primários que não precisariam ser cometidos. O modelo que os levou ao topo cristaliza certezas, convicções que não funcionam na hora da dificuldade. Isso vale para políticos, empresários, empresas, instituições: preparar-se antes. Na crise, você mal tem tempo de reagir ao turbilhão.

ISTOÉ – Por falar em crise: ACM teria salvação?

Mário Rosa – Tomei duas decisões ao escrever o livro. Primeira: ressaltar sempre o positivo em vez de acusar o negativo. Segunda: existe um tipo de profissional – e é um perigo que consultores como eu correm – que sai por aí opinando, em teoria, sobre tudo, de maneira geral. Você vira mago – o mago das finanças, o guru da moda, o gênio da computação gráfica… Não há saída mítica para a crise.

ISTOÉ – Como você lida com o stress da crise: o do cliente e o seu próprio?

Mário Rosa – Preciso dizer que tem alguns clientes que jamais atenderei. Pessoas envolvidas com desfalques financeiros, com prejuízos à coletividade, roubos, corrupção, casos passionais de assassinato, questões de narcotráfico… Essa é a maneira de administrar minha imagem preventivamente, não me associando a esse tipo de crise. Há um outro lado da crise: no mundo moderno, quando se é vencedor, você acaba ferindo muitos interesses. Esses interesses contrariados podem se articular, seja politicamente, seja empresarialmente, e colocar pedras no seu caminho. As crises de imagem não decorrem obrigatoriamente de impostura, má-fé ou erros. Na primeira conversa com o cliente, gosto de apresentar a minha premissa. Digo a ele: o senhor não precisa me dizer a verdade, mas o senhor não pode me falar nenhuma mentira.

ISTOÉ – No fundo, qual é a diferença?

Mário Rosa – O que quero dizer é que a mentira acaba por ser, daqui a uma semana, um mês, dois meses, desmascarada. Não tenho pretensão de que uma pessoa que me conhece há quinze minutos conte toda a verdade sobre a vida dela. Mas tenho a obrigação de alertá-la que qualquer impostura vai ser a pior decisão que ela pode tomar. Durante uma crise, falar a mentira é um passaporte para uma crise muito maior. Porque, quando a mentira é descoberta, e será descoberta, ela cria um segundo problema e amplifica terrivelmente o primeiro. As mentiras não se somam, elas se multiplicam. Temos milhões de olhos nos observando hoje o tempo inteiro. Falar a verdade num processo de crise é ter em conta o mundo em que vivemos. Na era da informação, deixamos nossas digitais eletrônicas e visuais por onde andemos.

ISTOÉ – A verdade, então, não é uma virtude, é uma estratégia?

Mário Rosa – É quase impossível sustentar uma mentira num processo público de grandes proporções. Se não for por um valor moral, que é o desejável, que seja, sim, uma questão estratégica. A verdade tem de ser uma aliada sua. Veja o caso do presidente Clinton, o homem mais poderoso do mundo – podia apertar um botão e destruir tudo. E não conseguiu enganar a opinião pública. A mentira dele só foi flagrada porque vivemos na era do DNA. Deixou vestígio no vestido da estagiária, dançou. A mentira não só tem pernas curtas, ela deixa rastro. Mentir ofende a inteligência alheia e, mais que isso, é uma opção suicida.

ISTOÉ – Político não mente o tempo todo?

Mário Rosa – O que os políticos dizem aos políticos, e como, é problema deles. Cada profissão tem seu jeito de comunicar, seu jargão, sua maneira de negociar. O problema é mentir para a opinião pública. Independentemente de ser feio e antiético, é péssimo negócio.

ISTOÉ – Nessa crise do painel do Senado, alguém mentiu. A opinião pública vai saber quem mentiu?

Mário Rosa – Já se sabe que alguém mentiu. É um caso exemplar: políticos de expressão, homens tarimbados, que tiveram uma vida inteira de vitória, e eis que aparece o calcanhar de Aquiles. Eles superestimaram a possibilidade de sustentar a mentira por um tempo excessivamente longo. Os fatos foram se precipitando e eles tiveram que reconhecer que estavam mentindo. A televisão mostra alguém dizendo alguma coisa e, em seguida, uma nova versão – não há credibilidade que resista a isso. Não é alguém que lhe acusa de ser mentiroso. É você provando, com suas próprias palavras, que mentiu. Não há pior acusador do que você mesmo.

ISTOÉ – Você assessora a CBF ao longo da CPI da Nike. Mas não constrange estar ao lado do atraso? Ou você simplesmente despreza futebol?

Mário Rosa – A primeira conversa que tive com o presidente da CBF durou cinco horas. Ricardo Teixeira é hoje – e não me cabe aqui defendê-lo; quem o defende são os advogados da CBF – o único dirigente esportivo brasileiro que não recorreu da quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico na CPI. Tive acesso a todas as contas bancárias, telefônicas, fiscais. Fiz todos os cruzamentos de dados. A Comissão Parlamentar de Inquérito, que é presidida por um deputado independente, o deputado Aldo Rebello, do PCdoB, fez o mesmo. Nenhum único desvio no campo da moralidade, de utilização dos recursos da CBF, foi apontado. A única coisa que está provada até agora é que ele tem muitos inimigos. É um homem de destaque, atinge outros interesses, é natural. O que não é natural é uma pessoa roubar.

ISTOÉ – Por que será que Fernando Henrique abortou a CPI da Corrupção? Seguindo os seus critérios, não poderia até ser útil para ele?

Mário Rosa – Volto a citar meu mantra: não posso ser o mago da crise ou guru da imagem. Não vou sair opinando inopinadamente sobre tudo.

ISTOÉ – A mídia está superexcitada com esse clima de escândalos. Você é jornalista e, por outro lado, muitos de seus clientes podem ter sido, digamos, vítimas da imprensa. Você acha que a imprensa exagera?

Mário Rosa – É muito mais fácil culpar a mídia do que fazer uma reflexão sobre o mundo que nos envolve. Na era da informação, vivemos duas dimensões: a nossa vida cotidiana e também, de certo modo, vivemos a vida de quem a mídia expõe publicamente. A morte do Senna ou do Kennedy vira catástrofe para nós. O senador ACM e o senador Jader Barbalho são hoje pessoas mais presentes para qualquer um de nós do que o colega de escritório. Quando um laboratório fabrica pílulas de farinha, as vítimas não são apenas as mulheres que engravidaram involuntariamente. Você também se pergunta: será que o analgésico que dou para meu filho não vai fazer mal a ele? Crise de imagem não são um privilégio, entre aspas, dos poderosos. A espada de Dâmocles, pendendo sobre a nossa cabeça, tem a forma de um minigravador e de uma câmera indiscreta.

ISTOÉ – Crise energética, blecaute, apagão. O que você teria a tirar, nesse caso, de seu livro de receitas?

Mário Rosa – Gerenciar a crise não significa inventar estratagemas para enganar a opinião pública. Há coisas concretas a fazer. A começar por coisas muito simples, mas de alto significado: que o ministro das Minas e Energia, por exemplo, reduza o seu próprio consumo de eletricidade. As crises mexem com a sensibilidade, a emoção. Não é só a verdade que está em discussão. São também os valores e os símbolos.

ISTOÉ – Exemplo de uma crise permanente de imagem: o Lula. Há solução para ele?

Mário Rosa – O espelho que vai revelar a resposta não é o de um consultor. O país é que tem de dizer. Campanhas eleitorais são crises de imagem com hora para começar e hora para acabar. São imagens superpostas, que determinado dia serão julgadas pelo voto do eleitor. A eficiência das diversas equipes de campanha consiste em identificar os valores adequados à sociedade naquele determinado momento e associá-los ao candidato.

ISTOÉ – Existe um modo brasileiro de crise?

Mário Rosa – No Brasil, a crise é do Estado ou passa invariavelmente pelo Estado. Quando o procurador Luiz Francisco resolve gravar o senador Antônio Carlos Magalhães, é o Estado acusando o Estado. Quando há uma CPI, é o Estado acusando o Estado. O Estado aqui ainda tem um peso muito maior e os interesses econômicos que gravitam em torno dele, lícitos ou não, fazem com que as fronteiras do poder sejam como uma zona de conflagração permanente.

ISTOÉ – Como isso funciona no caso do apagão?

Mário Rosa – Questiona-se o governo Fernando Henrique. E as empresas privadas de eletricidade? Como elas vêm atuando? Cometeram erros? Cumpriram as metas assumidas? Virou apenas e tão-somente uma crise governamental – esse é o nosso traço. Outra nuance na nossa cultura é a ojeriza pela prevenção. Uma terceira peculiaridade é a estrutura de nosso capitalismo, ainda dominado por empresas familiares de capital fechado. Faça um balanço de recentes escândalos empresariais. Wagner Canhedo não é o administrador profissional da Vasp, é o dono da Vasp. Salvatore Cacciola era o dono do Banco Marka. Há o caso do dono da Encol. O ex-senador Luiz Estevão era o dono do Grupo OK. Ricardo Mansur, o dono da Mesbla e do Mappin. Em empresas familiares com capital fechado, há um modelo, digamos, fechado de decisão. Nos Estados Unidos, a imagem da organização que os executivos profissionais dirigem é um ativo de sua própria imagem. Imaginem o que é trabalhar para a Coca-Cola, a General Motors. Essas marcas têm valor. Se você é um profissional, perder imagem significa reduzir um ativo seu."

    
    
                     

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