Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > O FÓRUM DE BOVÉ

Gilles Lapouge

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

O FÓRUM DE BOVÉ

"Líder corresponde à imagem mítica dos gauleses", copyright O Estado de S. Paulo, 31/01/01

"A principal genialidade de José Bové é sua cabeça. Ela é tão perfeita, tão bem-adaptada a seu papel de líder e agitador camponês, que deve ter sido preparada com cuidado, desde o ventre de sua mãe, inclundo o cachimbo, eternamente no canto da boca, o bigode, o sorriso gentil, astucioso e pretensioso, a lentidão camponesa dos movimentos.

Essa cabeça faz maravilhas. Sobretudo no exterior, de tal modo que Bové corresponde à imagem mítica que se faz dos gauleses. Como, além disso, Bové é um camponês de verdade, criador de cabras da região sudoeste da França, ele foi inteiramente designado para personificar o eterno camponês desse país exageradamente ?camponês? que é a França. Assim é compreensível porque ele faz tanto sucesso quando vai ao exterior. Sua primeira vitória foi em Seattle, na reunião da OMC em favor da globalização. Naquele dia, Bové interpretou magnificamente seu papel: o pequeno camponês francês, ?cabeçudo? e meio brincalhão, o comedor de queijo e de um bom pão, engraçado, simpático e intratável. Uma ?fábula de La Fontaine? só para José Bové! Ou um ?Asterix, o gaulês? diante das terríveis legiões dos romanos e das hordas da ?globalização?.

Bové, embora seja um camponês, autêntico (e não um desses ?intelectuais de 1968? meio hippies, adeptos da volta ao campo), é também um intelectual. Seu pai é um grande pesquisador na área de medicina, na faculdade de Bordéus.

Ele fez bons cursos e estudou em uma universidade americana, o que lhe permitiu discutir com os jornalistas, em Seattle, sendo aprovado com entusiasmo.

Além dessa cultura, tem uma forte formação política. Aos 20 anos, em 1972, ele é ?rebelde?, e se recusa a prestar o serviço militar. Em seguida, milita em organizações de esquerda, o que explica o instinto ?teatral? que tem pelas ações extraordinárias: em Seattle, quando iniciou sua carreira internacional, em Milhau, no sul da França, saqueou um McDonald’s e, no final, um belo processo do qual, obviamente, saiu com todas as honras. E ontem, Porto Alegre contra Davos. Não podia ser melhor.

Esse gênio da mídia não deve ocultar sua ação permanente de sindicalista.

Também neste caso, as raízes são antigas. Suas primeiras ações remontam a 1974, numa época em que as fileiras ?esquerdistas? (após 1968) conduziram duras lutas em Larzac, bela região montanhosa (Maciço central), onde o Exército queria instalar um imenso campo militar. Contra esse projeto, um grupo de apaixonados pela montanha, ecologistas, esquerdistas fez manifestações durante meses, obrigando o Exército a renunciar a seu projeto (hoje, é em Larzac que Bové tem sua fazenda). A Confederação camponesa começou um pouco mais tarde. Ele a fundou em 1987. E, mesmo que ainda seja menos importante que o sindicato tradicional Federação Nacional dos Sindicatos dos Agricultores (FNSEA), ela tem influência.

Na verdade, desde o início, essa confederação se opõe à lógica ?produtivista? que preconizam tanto a União Européia e a Bolsa quanto o sindicalismo da FNSEA, ou seja, a lógica das enormes explorações agrícolas industrializadas. Bové sempre defendeu uma agricultura individual, que respeite equilíbrios naturais, modesta e melhor adaptada a pequenas explorações, em vez das imensas terras com trigo ou gado pertencente a empresas que visam apenas ao lucro.

Ora, somos obrigados a constatar que os desastres cada vez maiores da vaca louca, alimentos duvidosos e sem sabor dão muita razão à luta, meio caótica, em ziguezague e confusa, mas corajosa, de Bové."

"Obelix é a mãe!", copyright O Estado de S. Paulo, 1/02/01

"A figura mais extraordinária – ainda que seja instantânea e passageiramente extraordinária – dos últimos tempos é, até onde percebo, o francês José Bové. Na semana passada, ele invadiu uma fazenda de plantação de soja transgênica da multinacional Monsanto com o intuito declarado de destruir os alimentos geneticamente modificados.

Não tenho opinião formada sobre os geneticamente modificados. Tenho, mesmo, dúvidas. Na terça-feira, assisti a uma entrevista do filósofo – também francês – Edgard Morin, no programa Roda-Viva. Fui beber água e quando voltei ele estava falando sobre transgênicos e sobre a Monsanto, não sei se a propósito do episódio protagonizado por Bové. Dizia, em suma, o seguinte:

é bom que a engenharia genética possa transformar os alimentos de forma a eliminar a necessidade do uso de pesticidas, a torná-los mais ricos, mais nutrivivos.

É bom, dizia, que a modificação possa aumentar a produção e, teoricamente (mas sabemos que não é isso; os alimentos existem em quantidade suficiente para alimentar o mundo, ao contrário do que se vaticinou no início do século; o que acontece é que o alimento não chega às bocas necessitadas) acabar com a fome.

No entanto, são péssimas as perspectivas de que a universalização do cultivo de transgênicos transforme o alimento em propriedade de grandes corporações.

A Monsanto e as outras que trabalham com alimentos modificados são proprietárias do milho, da soja, do feijão (será que já modificaram o feijão?) que inventaram e plantam.

Como são poderosas corporações, podem impor seu padrão de plantação.

Substituir todo e qualquer cultivo – alegando exatamente o benefício que o alimento modificado trará, e usando a força financeira como arma de convencimento – por seus produtos. Expandam-se os limites do raciocínio. O Zé Mané quer plantar milho no quintal de sua casa, mas não pode, mais. A patente do milho pertence à firma Tal&Qual Associadas. O Zé Mané terá de comprar a semente da Tal&Qual. Danou-se.

Na mesma TV Cultura, na mesma terça-feira, uns minutos antes do início do Roda-Viva, o telejornal da casa, que está ficando muderno demais para o meu gosto (muderno é aquilo que pensa que é moderno e caminha para o caricato) mostrava Bové – que o Itamaraty expulsou do País – e intercalava closes de sua fisionomia peculiar intercalados com imagens dos bonequinhos de Goscinny e Uderzo – Asterix e Obelix.

Obelix é aquele que carrega menires e vê inimigos em todos os romanos, os imperialistas. É leitura de que adultos e adolescentes gostam, ou gostavam, mas é brincadeira, é piadinha. Bové não é Obelix. Mesmo que se discorde da maneira como manifesta suas opiniões, da violência, da contundência de seu protesto, não se pode compará-lo, infantilizando-o e reduzindo-o, por falsa proximidade, a um signo da indústria cultural.

Bové estava na reunião anti-Davos, em Porto Alegre. Em Davos, três sujeitos de uma ONG ecológica conseqüente (parece estar perto o dia em que as ONGs ecológicas deixarão de ser apenas porta-vozes de preceitos politicamente corretos para agir, efetivamente, e atuar, de fato, em defesa de uma nova-nova ordem mundial), fantasiados de ricos, aproximaram-se da sede do fórum. Ergue-se uma muralha de aço e convocam-se as tropas para impedir que os três – três – perturbassem a ordem.

Que ninguém vá compará-los aos Três Patetas – ridicularizar, infantilizar as resistências, em vez de discutir as questões que trazem à tona as resistências, é uma maneira de anulá-las. O Brazil que não conhece o Brasil, por exemplo, transformou João Gilberto numa figura esquisita, só nisso, figura esquisita, fazendo com que quase todos esquecessem do fato de ser ele um dos maiores gênios musicais do século.

Já ouvi dizerem que Bové, os três de Davos, os ativistas do Greenpeace e outros são figuras quixotescas, um jeito a mais de fazê-los parecer sonhadores meio birutas, meio exóticos, folclóricos – esse tipo de gente que existe para divertir o mundo dito sério, preocupado com problemas reais. Mas as questões deles não são moinhos de vento. Somos eu e você, nós."

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