Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > INDÚSTRIA CULTURAL

Gladiadores da vida real

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

INDÚSTRIA CULTURAL

Marcelo Barcelos (*)

O cinema, como o rádio, não deve ser tomado como arte. "O fato de não serem mais que negócio basta-lhes como ideologia." Enquanto negócios, seus fins comerciais são realizados por meio de sistemática e programada exploração de bens considerados culturais. Tal exploração Theodor W. Adorno chamou de "indústria cultural". ("Os pensadores", pp.7)

Para faturar milhões ao dia, os veículos de comunicação de massa usam os meios mais sórdidos e cínicos do retrato de uma realidade brasileira. Ao prometer prêmios ou a solução dos problemas de uma família com dificuldades financeiras, a indústria cultural exige o cumprimento de tarefas humilhantes, vergonhosas e constrangedoras do chamado "sorteado".

Essa pessoa é escolhida a dedo. Tem que ter perfil tal que grande parte dos telespectadores se sensibilize e se solidarize com sua miséria. O sorteado desiludido com a situação econômica, desesperançado quanto ao futuro, passa a este tipo de concurso o dever que é do Estado, ou seja, dar condições para o progresso social, a melhoria na qualidade de vida.

Mas acreditar que essa é a finalidade do programa é, senão outra coisa, ignorância, miopia social frente à realidade. Por se tratar de uma empresa com fins lucrativos, tudo será em seu beneficio. As teorias de administração pregam: "Não se oferece mais do que se pode ganhar." Nada na indústria cultural é realizado ou acontece por acaso, tudo é minuciosamente esperado, inclusive a nossa reação.

Da parte do sorteado, uma derrota não significaria apenas a perda do prêmio, mas também estabeleceria sua incapacidade de ascensão, demonstrando que sua situação não é resultado de uma sociedade elitista e desigual, mas de sua incapacidade individual.

As idéias de Charles Darwin, transpostas para as análises da sociedade, fizeram surgir o "darwinismo social", isto é, a crença de que as sociedades mudariam e evoluiriam num mesmo sentido e que tais transformações representariam sempre a passagem de um estágio inferior para outro superior, em que o organismo social se mostraria mais evoluído, mais adaptado e mais complexo. Esse tipo de mudança garantiria a sobrevivência dos organismos ? sociedades e indivíduos ? mais forte e mais evoluídos, excluindo os mais fracos.

A repercussão deste tipo de concurso na sociedade transmite a todos que se encontram no mesmo estado do sorteado um sentimento já esperado e calculado pela elite, possuidora dos bens "produtores" de cultura. O resultado é a afirmação do darwinismo social, que foi criado como forma de manobrar a sociedade de acordo com os interesses da classe dominante, e ainda vigora nos dias de hoje, mais forte do que nunca.

Posicionamento ideológico

Nossa reação diante das cenas que nos são impostas, como comoção, pena, graça, ironia ou espanto, só comprovam esta realidade. Passa despercebido que estamos diante da realidade não só de uma pessoa, mas de milhares.

Não se sabe qual a dimensão dos danos psicológicos para um indivíduo, sujeito a tarefas físicas ou mentais, humilhantes e degradantes, quando se depara com a derrota. Ele se culpar por ter tido uma atitude desesperada e inconseqüente na busca de um pequeno remédio para sua condição desfavorecida.

O lado positivo do progresso tecnológico são os próprios meios de comunicação de massa, que avançaram na qualidade de emissão e recepção (fibras ópticas, TV a cabo, parabólicas, estações de radio via satélite, DVD etc.), na criação de novos meios de interação (internet), e isso dá uma certa melhoria na qualidade de vida, mas não da grande população, porque é a minoria que tem acesso ? mas isso é pauta para outra discussão. Também é inegável o aumento do poder de manipulação, que veio na mesma proporção do avanço tecnológico utilizado com destreza pelas elites para manter domínio e influência político-econômica, em vigor desde os primórdios da historia brasileira, uma vez que as maiores instituições e as maiores riquezas estão nas mãos das mesmas pessoas há séculos.

Cabe lembrar a pertinência das teorias de Umberto Eco, ao mesmo tempo otimista e pessimista acerca da indústria cultural, que aliena o pensamentos das pessoas mas também possibilita o conhecimento de obras que, sem a publicidade e os programas veiculados, seriam restritas a certos públicos. Como ilustração, vale mencionar da Vinci ou Bach. Estudiosos destacam entretanto o dilaceramento do conteúdo cultural das obras usadas comercialmente: exemplo é o clássico As quatros estações, de Vivaldi, que acabou atrelado a uma propaganda de sutiã.

É necessário refletir sobre a maneira como assimilamos os produtos que nos são vendidos por essa indústria, para que abandonemos a postura acrítica: é preciso que despertem nossos sentimentos de repúdio, estranhamento e censura, e tenhamos posicionamento ideológico ao ouvir dos apresentadores seus discursos inflamados atribuindo finalidade social a seus concursos. Neles, os envolvidos não passam de gladiadores competindo pela vida.

(*) Estudante do 1? ano de Direito da UEMS, Dourados, MS

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem