Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > FIM DA HEGEMONIA

Globo enfrenta a concorrência

Por lgarcia em 25/12/2002 na edição 204

FIM DA HEGEMONIA

Rafael Heleno Fredson Navarro (*)

Sabem por que a Rede Globo parou de anunciar que “Vem aí mais um programa líder de audiência?” Porque os tempos mudaram e já não é bem assim. Tudo começou em agosto de 1985, quando o SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) modificou sua grade de programação no intuito de aumentar a audiência, até então exclusiva da poderosa Rede Globo, em toda a programação. A mudança se deu com a exibição do filme Pássaros Feridos. Ao anunciá-lo em seu programa, Silvio Santos surpreendia o público nas vinhetas ao vivo: “Logo após a novela da Globo, vocês poderão assistir a um filme sensacional, Pássaros feridos. Não precisam deixar de ver a novela. Assistam-na e depois sintonizem no filme, eu já o vi por várias vezes. É a história de um padre que se apaixona. Pássaros feridos entrará no ar após a novela.”

Nesse período a Globo exibia Roque Santeiro, estrelada por três gênios da teledramaturgia nacional (Lima Duarte, José Wilker e Regina Duarte), produção que devido a seu sucesso no passado é hoje apontada como um clássico. Foi então declarada a guerra pela audiência: a Globo esticava o Jornal Nacional até a novela, enquanto o SBT contornava o problema exibindo desenhos da Pantera cor-de-rosa.

Era o cúmulo Silvio Santos fazendo promoção da novela global? Na verdade, ele mostrou a todos que a emissora não é nenhum bicho-papão. O filme, uma série com duração de uma semana, verdadeiro sucesso conquistado pelo SBT, marcou na história da TV brasileira a primeira derrota da emissora de Roberto Marinho. O SBT foi ousado, investindo cerca de 1 bilhão de cruzados pelos direitos de transmissão. E colheu os frutos, o índice de audiência foi de 47 pontos do SBT contra míseros 27 da Globo.

E não parou por aí: a partir de 1987 o SBT investiu pesado em contratações. No humor trouxe Carlos Alberto de Nóbrega com o programa A praça é nossa, anteriormente exibida pela Rede Bandeirantes. Ainda mantendo a linha do programa comandado por seu pai, Manuel de Nóbrega, a praça é quem mais emprega humoristas no Brasil, há anos. Num país sem memória, é algo extraordinário. A emissora também investiu em música com Sabadão, estrelada por Augusto Liberato. No entretenimento, contou com Hebe Camargo e seu programa de auditório. Os três shows renderam a Silvio Santos altos índices de pontos no Ibope.

Em 1992, chegou a vez da extinta Manchete aterrorizar a emissora de Roberto Marinho com a novela Pantanal. Apresentou Cristiana Oliveira (hoje uma a mais na galeria global), incorporando a personagem Juma Marruá.

Em 1995 começou a acirrada disputa dominical entre Gugu e Faustão. No ultimo domingo de fevereiro de 1995, quando ocorreu o lamentável acidente com o grupo Mamonas Assassinas, o programa Domingo Legal investiu no jornalismo ao vivo para a cobertura completa do trágico acidente e, pela primeira vez, derrotou o principal concorrente, o Domingão do Faustão. O grande feito se tornou tradição durante quase dois anos (1999-2001). Atualmente as lideranças são bem niveladas.

O pior já passou?

Em 1997 o SBT voltou a investir alto, contratando o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, que fez história na Rede Record com o programa Ratinho Livre. Na nova emissora Massa criou o Programa do Ratinho, mistura de jornalismo, entretenimento e humor, sem esquecer, lógico, muita polêmica.

Com a audiência desapareceram a inteligência e a criatividade, que deram lugar a apelações a sexo, violência, vulgaridade e emoção do público. Hoje os elementos apelativos tendem a sobressair. Modelos e dançarinos ocupam espaço na telinha, não por seu preparo artístico, e sim por fotografarem bem diante da câmera. Infelizmente, “carcaças” bem modeladas rendem muita audiência. A culpa é dos telespectadores, que dão espaço a esse tipo de cartada.

No inicio do 3? milênio surgiu a Rede TV! ? “A rede de TV que mais cresce no Brasil” ? e não é piada: por algumas vezes venceram a própria Globo com o programa Noite Afora sob o comando da atriz e apresentadora Monique Evans; Perfil 2000, de Otávio Mesquita (atualmente na bandeirante) e Eu vi na TV, aula de baixaria com o mestre em pessoa, ele, João Kléber. Atualmente, o Superpop, com a ex-modelo Luciana Gimenez, vem conquistando destaque.

Chegou, por fim, a era dos reality shows. No fim de outubro do ano passado, o SBT lançou o programa Casa dos Artistas, adaptação da criação holandesa Big Brother. O público brasileiro parou para conhecer a intimidade dos famosos, seus amores, intrigas e fofocas. A cartada deu certo, o SBT venceu o Fantástico por sete vezes consecutivas, antes líder absoluto desde a estréia, há 30 anos. Daí por diante, o reality show virou moda e ganhou altos investimentos de todas as emissoras. Surgiram assim novas edições da Casa dos Artistas, como Amor a Bordo, Apartamento das Modelos, Fama, Popstar, Acorrentados, Ilha da Sedução e Big Brother Brasil.

Daqui a um ou, mais tardar, dois anos, o reality show terá sido substituído por outra forma de entretenimento grotesco e barato. O pior já passou?

(*) Estudante de Jornalismo

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