Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > GUERRA NA MÍDIA

Gonçalo Júnior

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

GUERRA NA MÍDIA

"Esforço de guerra", copyright Gazeta Mercantil, 28/09/01

"Durante a semana passada, a rede de televisão americana CNN pareceu envolvida num escândalo sem precedentes em seus exatos 20 anos de história – um escândalo que poderia comprometer sua reputação. E-mails circularam por todo o planeta com a acusação de que a emissora havia manipulado informação para mobilizar a opinião pública internacional a favor dos Estados Unidos após os ataques às duas torres do World Trade Center e ao Pentágono, em 11 de setembro. Os e-mails faziam referência direta a uma mensagem que partira do Brasil no dia 12, assinada por um estudante da Unicamp, na qual a autenticidade de uma fita que apresentava a comemoração de palestinos aos ataques era contestada. De acordo com a denúncia, as cenas seriam, na verdade, de 1991, por ocasião do fim da Guerra do Golfo. Chegou-se a afirmar que peritos da Universidade de Campinas (Unicamp) estariam analisando uma suposta fita que provava a fraude.

A CNN, de imediato, distribuiu duas notas reafirmando a autenticidade das imagens feitas pela agência Reuters e a própria Unicamp cuidou de desmentir o boato (leia textos à página 2 do caderno). Mesmo assim, até o começo desta semana, mensagens sobre o assunto continuavam a circular, modificadas com as mais diferentes versões. Para o principal executivo da CNN, o chairman e CEO Walter Isaacson, os e-mails contra sua empresa mostram um dos malefícios que a rede mundial de computadores pode trazer quando usada a serviço da boataria. Há três meses no cargo, ele falou esta semana pela primeira vez a um jornal brasileiro. Por e-mail, respondeu a mais de quatro dezenas de perguntas. Esquivou-se de questões delicadas como o engajamento da imprensa dos EUA na cobertura dos atentados e a incoerência desse comportamento num país que se diz orgulhar de ter um jornalismo independente e comprometido apenas com a função de informar.

Isaacson afirma que a CNN continua a respeitar esses princípios e nega que tenha sofrido censura ou pressão do governo americano para não mostrar imagens de impacto dos atentados. Admite, porém, que a polícia americana tem dificultado o acesso da imprensa aos locais destruídos. O jornalista também falou sobre os 20 anos da CNN. Reconheceu que a emissora cometeu erros na cobertura da última eleição presidencial e diz quais cuidados vai tomar de agora em diante para que as falhas não se repitam.

Formado pelas universidades de Harvard e Oxford, Isaacson lidera um megacongolomerado de informações, o CNN News Group, que inclui 16 redes de cabo e satélite, três redes privadas, duas emissoras de rádio, 14 web sites e um serviço de informação por telefonia móvel. O jornalista trabalhou na revista ?Time? por 13 anos, até o grupo se fundir com a Warner. Em 1993, tornou-se editor de novas tecnologias do grupo – televisão a cabo, serviços online e internet. Especialista em guerra fria, escreveu dois livros sobre o assunto: ?Kissinger: A Biography? (1982) e ?The Wise Men: Six Friends and the World They Made? (1986). A seguir, os principais trechos da entrevista:

O sr. poderia comentar o boato de que a CNN teria apresentado imagens antigas para forjar a comemoração de palestinos aos ataques do dia 11?

Walter Isaacson – Este e-mail é um atestado dos perigos da internet. Felizmente, conseguimos acompanhar a rota da mensagem e descobrir quem a iniciou. Agradecemos à Unicamp e à Reuters por ter nos ajudado a desvendar esse boato ridículo.

Como vocês encontraram o autor da mensagem original?

Isaacson – O estudante havia assinado a mensagem e incluiu o nome de sua universidade. Procuramos a Unicamp, que já sabia dos boatos e tentava localizar o autor. A universidade cooperou com a CNN imediatamente, e distribuiu esclarecimento sobre o episódio. Eu e meus colegas congratulamos a Unicamp pela rápida resolução do caso.

A CNN pretende adotar alguma medida legal contra o estudante?

Isaacson – Não, não temos essa intenção. O estudante se deu conta de que era um engano. Ele se retratou por meio de um comunicado. A Unicamp agiu de maneira responsável e também se posicionou a respeito do episódio. Infelizmente, boas notícias não correm da mesma maneira ágil com que as más notícias.

De que maneira um boato desse tipo pode abalar a imagem de uma empresa? A CNN tratou desse assunto no ar?

Isaacson – Certamente isso abalaria nossa imagem se não tivéssemos respondido prontamente. A reputação da CNN é conhecida em todo o mundo. Agimos rápido, encontrando o responsável e contatando a Reuters para atestar a autenticidade das imagens. Decidimos não falar a respeito desse rumor no ar. Divulgamos o comunicado e nos certificamos de que estaria disponível nos sites, uma vez que o boato havia surgido na internet. Acreditamos que se a Unicamp e a Reuters divulgaram uma nota sobre isso e o próprio estudante admitiu que se tratava de um mal-entendido, não há nada mais a dizer a respeito.

Como o sr. soube dos ataques?

Isaacson – Eu participava da reunião editorial das 8h30, onde estou todos os dias nesse horário. É a ocasião em que planejamos a pauta da nossa cobertura diária com a participação de toda a equipe. Durante o encontro, um dos nossos repórteres em Nova York nos telefonou e contou que um avião havia batido em uma das torres do World Trade Center. Nossa reunião foi encerrada imediatamente e fomos acompanhar o acidente. Quando a segunda torre foi atingida, eu estava assistindo à nossa transmissão ao vivo com imagens do prédio.

O sr. imaginou que poderia ser um atentado ou que se tratava de uma fatalidade?

Isaacson – Como o resto do mundo, nós não estávamos certos de nada, mas começamos imediatamente a fazer a cobertura do episódio e a reunir informações a respeito.

Quanto tempo demorou para que a CNN começasse sua transmissão?

Isaacson – A CNN foi a primeira rede a iniciar sua transmissão ao vivo desde o primeiro ataque. O primeiro avião atingiu o World Trade Center às 8h45. A repórter Carol Lin entrou no ar às 8h49, quando imagens ao vivo das torres foram apresentadas. Atualmente, a CNN possui 12 sucursais e mais de 600 afiliadas nos EUA. Como uma rede de notícias 24 horas no ar, estamos preparados para cobrir qualquer evento, em qualquer lugar. No entanto, é impossível estar verdadeiramente preparado para uma cobertura dessa magnitude, especialmente quando a tragédia envolve o transporte aéreo (o espaço aéreo norte-americano ficou fechado durante três dias) e atrasa a ida de mais gente da equipe para Nova York e Washington.

Mesmo com a vantagem de estar perto dos fatos, que dificuldades a CNN teve para a cobertura?

Isaacson – É muito grande a demanda por notícias em torno dos ataques, não apenas porque se trata de uma história importante que precisa de cobertura. Trata-se de uma história que afeta não apenas os americanos, porque muitos países perderam cidadãos. Existem ainda os problemas que resultaram do imenso grau de destruição provocado pelos ataques e que também afeta a economia, principalmente de Nova York. E, como todos os americanos, estávamos preocupados em saber onde poderia ocorrer outro ataque.

De que maneira a experiência da CNN na cobertura de guerras ajudou a rede desta vez?

Isaacson – Uma das peças-chave de nossa cobertura foi possuir presença internacional. Além disso, ter pessoas nos lugares atingidos pelos ataques nos possibilitou equilíbrio e perspectiva do episódio. Ao longo dos anos, adotamos medidas para dar conta dessa cobertura. Usamos videofones.

Duas semanas depois, como o sr. avalia o trabalho da imprensa americana, especialmente das TVs?

Isaacson – Acredito que, de modo geral, a mídia americana tratou dos episódios de maneira responsável.

Uma emissora de rádio americana suspendeu temporariamente músicas pacifistas da programação e alguns importantes veículos adotaram uma postura nitidamente patriótica em relação ao atentado. Qual a posição da CNN a respeito disso?

Isaacson – A CNN sempre foi cautelosa em relação à sua independência. Esta é uma das nossas marcas em mais de 20 anos. Somos uma das mais respeitadas organizações de comunicação do mundo, em grande parte por causa da qualidade dos homens e mulheres que trabalham como correspondentes, produtores e editores. Como jornalistas profissionais, cuidamos para assegurar que nossos relatos estejam livres de qualquer viés. Seguimos regras profissionais rígidas. Nunca somos influenciados pela importância de uma história. Importância é um elemento essencial, mas não nos deixamos influenciar por ela.

A CNN sofreu alguma censura, pressão ou apelo por parte do governo no sentido de apoiá-lo na reação ao terrorismo?

Isaacson – Não houve censura alguma ou ordem do governo sobre o que a CNN pode ou não mostrar. Cobrimos os fatos ocorridos da mesma forma que sempre caracterizou o trabalho do grupo CNN, com precisão, autoridade e imparcialidade. Qualquer informação que afirme o contrário é falsa. A CNN nunca aceitou e nunca aceitará censura. Exibimos algumas cenas de pessoas feridas e à morte, durante a cobertura contínua sobre os ataques do dia 11 e durante o desenrolar dos fatos que se seguiram. No entanto, devido à destruição em massa vivida pela cidade de Nova York, tem sido extremamente difícil chegar mais perto de muitas das vítimas. O acesso a muitas áreas foi fechado, as telecomunicações estão mais difíceis e foram tomadas medidas restritivas e de segurança que nos impedem uma aproximação maior com nossas câmeras. Em muitos casos, entretanto, foi simplesmente uma decisão pelo bom gosto e pela decência, tomada com muito cuidado e juízo. Há grande quantidade de imagens que não são adequadas para exibição e que tampouco agregam valor jornalístico algum às reportagens. A CNN conta com ampla experiência na cobertura de notícias ao vivo, mas os jornalistas, em qualquer organização para a qual trabalhem, conhecem e compreendem os limites daquilo que é decente e de bom gosto reportar.

O sr. acredita que, depois dos ataques, as tevês terão de se preparar para um novo tipo de cobertura diante de uma ofensiva americana contra o terrorismo?

Isaacson – O presidente George W. Bush fez um pronunciamento à nação e nos disse que a ?guerra da América contra o terrorismo não acabaria até que todos os grupos terroristas de alcance internacional fossem encontrados, interrompidos e vencidos?. A CNN está preparada para cobrir todos os aspectos dessa guerra contra o terrorismo à medida que os episódios ocorrerem nos próximos dias, semanas, meses ou anos. O alcance internacional da CNN não tem rivais, e o alcance internacional dessa cobertura vai exigir contínua presença global de nossa TV. Atualmente, o número de pessoas da CNN trabalhando na Ásia Central e no Oriente Médio chega a 60. É o dobro do que tínhamos antes dos ataques. Trinta pessoas estão no Paquistão, incluindo os repórteres Nic Robertson e Alfredo de Lara, expulsos do Afeganistão. Além disso, temos mais de 300 pessoas sediadas fora dos EUA. Posso citar 20 repórteres prontos para entrar no ar a qualquer momento em lugares como Índia, Líbano e Iraque.

Os cortes de pessoal (400 jornalistas, aproximadamente) feitos no começo deste ano prejudicaram a cobertura?

Isaacson – Quando fizemos nossa reestruturação, a diretoria reorganizou a CNN para que pudesse atender as necessidades de um mundo que é hoje mais rápido e mais interligado. As medidas melhoraram nossas operações de jornalismo e os serviços de TV e internet fortaleceram nossa posição nos EUA e ao redor do mundo. Entre as mudanças, aceleramos a implementação dos planos de usar equipamentos mais compactos e de alta tecnologia. Isto nos permite operar com equipes menores, como a dupla que até a semana passada operou no Afeganistão, Nic Robertson e Alfredo de Lara. Deste modo, aumentamos a velocidade e a eficiência da reportagem, edição e distribuição.

O sr. assumiu a posição de comando da CNN Group há três meses. Quais são os seus planos para o grupo?

Isaacson – Esta situação trágica nos ajudou a reforçar nossa verdadeira missão e a ver a vital importância do que fazemos. Nossa verdadeira missão é apresentar a cobertura mais extensa e a análise mais pertinente. No começo deste ano, a CNN decidiu voltar à sua tradição de apresentar mais cobertura ao vivo em sua programação diária. Temos a intenção de continuar a ser a fonte que as pessoas procuram para ter a notícia primeiro, seja por meio da TV, da internet, do rádio ou de serviços móveis.

A CNN foi acusada de ter contribuído para toda a confusão que ocorreu durante as eleições presidenciais de 2000. O sr. acredita que a imagem da emissora ficou arranhada por causa disso?

Isaacson – A CNN sempre enfatizou três princípios em seu jornalismo: ser preciso, confiável e responsável. Depois das eleições de 2000, a CNN adotou mudanças que vão fortalecer seu compromisso com esses três princípios. Nós não pretendemos repetir os erros da noite da eleição de 2000. Antecipando-se a uma eleição apertada, a CNN preparou sua equipe durante semanas sobre como faria a cobertura daquela noite. Todos os que participaram da operação foram avisados de que estar certos seria a nossa prioridade e não ser os primeiros. Porque a CNN, e mais todas as grandes redes norte-americanas, estava se baseando no sistema VNS (serviço de pesquisa de boca-de-urna) que tinha um registro perfeito para se comunicar com todos os Estados nas eleições de 1992 e 1996. A CNN não tinha apropriado controle de qualidade para se resguardar de uma falha de informação da pesquisa da VNS que nos levou a ter um resultado errado da Flórida. Agora, estamos cientes desses riscos.

Que precauções vocês pretendem adotar?

Isaacson – Pesquisas (de boca-de-urna) não vão ser mais usadas para projeções em eleições apertadas. A CNN só vai usar pesquisas feitas na boca-de-urna para fazer projeções do resultado final apenas quando os dados indicarem que um candidato possui larga margem de vantagem. Sobre as pesquisas de opinião feitas na boca-de-urna no ano passado, 26 Estados avaliados pela CNN usavam os dados da VNS no momento em que as pesquisas haviam sido encerradas. Todas foram pesquisas corretas. Apesar disso, vamos aumentar significativamente nossos critérios em relação a essas projeções além daqueles que foram utilizados na noite da eleição. Além disso, a equipe que decide esse tipo de questão – a mesma que analisa informações sobre o dia das eleições e recomenda à rede quando e onde fazer projeções – , vai, no futuro, usar uma segunda fonte para cruzar os dados obtidos pela VNS no caso das eleições apertadas.

Fala-se que a CNN está em crise desde o final do ano passado, devido à queda de audiência em todo o mundo e à concorrência mais forte da Fox. Como a CNN está brigando com a Fox?

Isaacson – Para continuar a ser os melhores no que fazemos, vamos persistir com o propósito de oferecer a mais precisa e completa cobertura jornalística de eventos nacionais e internacionais. Mas, para dizer a verdade, não estamos preocupados com a concorrência. Nossa prioridade é ter certeza de que estamos atendendo nossos telespectadores, dando-lhes a cobertura mais minuciosa da tragédia e suas futuras repercussões. Eu acho que existe uma percepção lá fora, e de alguma maneira aqui dentro também, de que a CNN está perdendo seu caminho e que não sabe mais o que quer. Espero ajudar a superar isso e tornar claro que nossa meta é simples e crucial. Os últimos dez anos viram o surgimento de muitos programas de entrevistas no rádio) e outras mídias. Boa análise é importante, mas nossa meta é oferecer boa reportagem.

É verdade que a CNN e a Rede Globo estão negociando uma parceria?

Isaacson – A CNN não tem planos concretos neste momento para se associar com a Globo, embora nós estejamos sempre abertos para avaliar qualquer oportunidade de novo negócio. Durante anos nós estudamos a possibilidade de criar uma rede da CNN em português. Atualmente, não temos planos de lançar uma rede CNN no Brasil, mas vamos continuar a explorar essa perspectiva."

    
    
                     
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