Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES >

Grande enciclopédia cultural

Por lgarcia em 05/06/1998 na edição 46

M.M.

 

C

omo tanta gente conhecida, gosto de enciclopédias e outras obras de referência, que uso o tempo todo.

Fiquei feliz com a aparência bonita da Grande Enciclopédia Larousse Cultural escolhida recentemente para a prática da brindodependência pelos jornais Folha de S. Paulo e O Globo.

Cheio de simpatia, fui folhear o primeiro volume (mandado de graça com o jornal de assinante), e meu entusiasmo arrefeceu.

Resolvi compará-la com uma ancestral (não imediata, porque a editora Nova Cultural fez uma enciclopédia com a Larousse na década passada), a Grande Enciclopédia Delta Larousse publicada em 1972 pela Editora Delta, do Rio de Janeiro.

Estamos ainda no primeiro volume. Então, letra a.

Abolicionismo. Caiu de seis colunas, em duas páginas, para coluna e meia. A definição da palavra na versão atual é melhor, abrange em seu enunciado, por exemplo, o movimento pela abolição da pena de morte na Inglaterra. Na parte de história, perdura uma grande bobagem herdada da edição de 1972: “Foi criada a Sociedade Brasileira contra a Escravidão, que teve orientação de um grande negro, o engenheiro André Rebouças”. Escrever “um grande negro” em 1998 é de lascar. Alguém escreve que, digamos, Tancredo Neves foi “um grande branco”?

Alencar, José Martiniano de, caiu de duas colunas para 23 sumárias linhas. Exatamente o mesmo espaço dedicado a Abramo, Livio. Abramo, Cláudio, ou Abujamra, Antônio, chegam perto (19 linhas). Allen, Woody passa longe: 31 linhas – os quatro ausentes, claro, da edição de 1972. Isto faz sentido?

Ainda é cedo, faltam 23 volumes, mas desconfio que a enciclopédia a preço de banana vai me desapontar mais ainda.

Leio a matéria jornalística de um quarto de página com que a Folha de S. Paulo saudou o novo produto, na página 17 do primeiro caderno de 17/5/98. Nem uma palavra sobre qualidade. É tida como “a mais abrangente em língua portuguesa” (mania de quantidade). De qualidade, o papel, com direito a “encadernação gravada a ouro”. O nível da abordagem não pára de cair. Argumento definitivo: “Seu preço de mercado gira em torno de R$ 1.000,00. Quem comprar nas bancas, pagará R$ 158,70”.

De duas, uma. Ou a enciclopédia é vendida no mercado por ladrões, ou a turma da Folha resolveu fazer caridade pública.

Fui ler a lista de colaboradores da heróica versão de 1972, feita sob a direção de Antônio Houaiss – heróica porque, entre outras coisas, abrigava perseguidos pela ditadura e outros “malditos”, artistas populares.

Cito alguns desses colaboradores. Uns poucos só da letra a: Afonso Arinos de Melo Franco, Alceu Amoroso Lima, Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho, Álvaro Lins, Ariano Suassuna, Augusto de Campos, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.

Dá para perceber a diferença cultural?

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