Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Grave risco de contágio

Por lgarcia em 20/10/2000 na edição 100


Roberto Mitsuo Takata (*)

Não tem jeito. Sempre que aparece o papo de "modernização" no tratamento de assuntos tecnológicos e científicos pode apostar que vem coisa. E não exatamente a prometida. Não que seja eu favorável ao uso da linguagem esotérica (no sentido de hermética aos que não são iniciados) da academia, mas o problema é o risco de outro esoterismo (o misticismo, o anticientificismo) ? um risco quase líquido e certo quando não se tomam os devidos cuidados para evitar o contágio (a escolha dessa expressão far-se-á mais clara adiante) do rigor de pensamento pela lassidão de estilo.

A Superinteressante ? veículo jornalístico especializado em Ciência e Tecnologia da Editora Abril ? já está no terceiro número após sua mais nova reforma gráfica e editorial. Que digo? "Presta um desserviço", "Atenta contra a saúde de seu público", "Age irresponsavelmente", "Ignora o bom senso"? Servem os quatro e todas as variantes.

A revista simplesmente cede espaço, na seção dedicada a "polêmicas", à divulgação da inclassificável idéia (eufemismo para bobagem braba e cabeluda) do biogenismo. Nada contra a pregação da busca de uma vida regrada como elemento-chave de uma boa saúde. O problema (e que problema) é a negação sistemática da participação de agentes infecciosos (vírus, bactérias e fungos) na origem de diversas doenças adquiridas (gripes, resfriados, meningite, pneumonia, Aids e tantas mais).

Pregam eles, os biogenistas, que as vacinas não funcionam ou são elas mesmas causadoras de doenças ? gritam contra as campanhas de vacinação, uma das poucas coisas que têm funcionado em nosso sistema de saúde pública. O ridículo (está difícil de evitar palavras fortes) é que a própria acusação de que algumas vacinas teriam induzido a doenças que deveriam evitar há de ser encarada como admissão de que os microorganismos podem ser agentes patogênicos (uma vez que os poucos casos de contaminação se devem à grave má desativação desses agentes ? digo poucos tanto por serem raríssimos em números absolutos como por serem desprezíveis em relação ao número de crianças e adultos beneficiados pela imunização).

Seriedade comprometida

O autor da "polêmica" cita o caso de seus filhos, que não foram vacinados e não adoeceram como prova da ineficácia das vacinas. Grandes chances de ter sido outra a história, se os governos não garantissem com as campanhas uma baixa incidência, entre outros, de paralisia infantil, sarampo, coqueluche e varíola. Esta última, aliás, erradicada do planeta (salvo por cepas mantidas em alguns centros de pesquisa ? esta, sim, uma polêmica real e procedente), por coincidência via aplicação sistemática e maciça de vacinas. Não consta que os maus hábitos do mundo tenham mudado para corresponder a esse fato como haveria de se esperar se as vacinas fossem ineficazes e todos os males fossem causados apenas por vícios de comportamento.

Mas não é o biogenismo que se discute aqui e, sim, o absurdo de sua divulgação (ainda que providencialmente a revista registre ao pé da página que as opiniões não coincidem necessariamente com as do veículo) em um meio de jornalismo científico. Não se trata nem de Jornalismo, nem de Ciência.

Até porque faltou o essencial, o senso crítico ? vulgarmente conhecido como "simancol". Pretende a revista livrar-se da responsabilidade com o simples aviso de que apenas cede espaço a uma opinião "polêmica"? Teria a Superinteressante a coragem de publicar então uma opinião sobre uma alegada política monopolista da Editora Abril, simplesmente avisando que não necessariamente concorda com o que for expresso na página?

São quase 15 anos de trabalho sério desenvolvido pela revista, que de uma hora para outra numa reles página final se desfaz.

Quem junta os cacos?

(*) Mestrando em Biologia no Instituto de Biociências da USP

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