Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > DOMINGO ILEGAL

Gugu está nu

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

DOMINGO ILEGAL

Luiz Carlos Bittencourt (*)

A denúncia de que Domingo Legal tinha forjado entrevistas com traficantes do PCC causou uma polêmica que inspira soluções que até agora não apareceram. Polêmica entre pares, diga-se de passagem. Os ingredientes da história são de causar inveja ao melhor novelista de televisão.

Falsos traficantes fazem ameaças a conhecidos jornalistas e apresentadores rivais em audiência do próprio Gugu. Os farsantes foram pagos por um picareta de marca maior até no nome, já que é conhecido pelo apelido de Barney. Até padre Marcelo Rossi entrou no enredo. Todos eles, os ameaçados, com algum grau de relação profissional com Gugu Liberato.

Aliás, em nota na coluna Radar da revista Veja, o jornalista Lauro Jardim informa que Gugu pediu desculpas ao padre Marcelo Rossi "três semanas após a megaencrenca em que se meteu". Mas o pior vem depois. Gugu teria aproveitado para convidar o padre a ir ao programa dele no dia 28 de setembro.

Neste meio, ninguém faz nada de graça. Claro, Gugu estava de olho na audiência. Queria faturar em cima da encrenca que arrumou levando ao programa o padre santo para incensá-lo diante do país. O padre Rossi, que não é bobo, recusou o convite. Isso já ultrapassa questões éticas para avançar no terreno do caráter. (E isso conta na guerra por audiência entre as emissoras comerciais?).

Muitas lições

Não passou pela cabeça do apresentador do Domingo Legal que, agora se sabe, de legal só tem o nome, a iniciativa de avisar antecipadamente aos envolvidos da até então "ameaça verdadeira". E foi cobrado por causa disso. Gugu se desculpou com o recurso de que dispõe. Até mesmo doença em família foi alegada em participação no programa de Hebe Camargo. Como se fosse motivo para esquecer as regras básicas da ética profissional (quanto à pessoal, há muito tempo deixou de ser invocada na arena da audiência televisiva). O repórter Marcelo Rezende, uma das vítimas da farsa, não poupou Gugu em conversa que mantiveram ao telefone. Falta de caráter foi a expressão mais amena.

Não cabe aqui requentar a novela da "pegadinha" do Gugu. O Congresso Nacional se manifestou, o Ministério Público conseguiu, por força de liminar, punir o SBT com a suspensão de um Domingo Legal. Houve quem discordasse da medida lembrando a censura. Houve também quem apoiasse a decisão invocando a lei de concessão de canais.

Independentemente da conclusão do caso, o interessante de tudo isso é que a farsa gerou uma discussão sobre os programas ao vivo e apelativos da televisão brasileira. E não são poucos. Até a TV Globo entrou na lista com as cenas "impróprias" de suas novelas.

Seja qual for o resultado, e sabemos que geralmente não chega a lugar algum, tivemos a chance, não de toda aproveitada, de debater a tevê que fazemos. A tevê que deveríamos ter não chegou a ser cogitada, porque aí também era demais, porém ficou implícita na polêmica.

E a megaencrenca do Gugu serviu de lição, embora saibamos, também, que cada um tira a sua moral da história. Tivemos o constrangimento de presenciar um Gugu Liberato tentando justificar-se como adolescente pego na mentira. Fez caras e bocas, beicinho magoado e representou seu papel de todos os domingos para milhões de brasileiros. Um fato positivo, porém, é o reconhecimento do apresentador de que não deveria ter se metido a fazer jornalismo.

Ainda na estrada

Está aí o problema maior de toda a polêmica. Jornalismo é coisa séria e não deve ser exercitado por gente que não é da área. Livro recém-editado no Brasil de autoria de Bill Kovach e Tom Rosenstiel, Os elementos do jornalismo, resultado de uma pesquisa entre os principais jornalistas norte-americanos, enumera nove leis essenciais à atividade jornalística. Abre a lista: "A primeira obrigação do jornalismo é com a verdade."

Jornais e revistas deram ampla cobertura ao caso enquanto durou a maturação. Poderíamos pensar: pegaram o Gugu. Mas há um dado preocupante, que também não é novidade: pesquisa internacional prova que o brasileiro lê mas não entende o conteúdo. Há outro dado: quando se fala mal de alguém de que gostamos a reação costuma ser de rejeição ao que está sendo dito.

O brasileiro entende o que vê? A televisão é o principal meio de informação da maioria dos brasileiros, acostumados que estão ao estilo simplista e espetacular da linguagem televisiva. Nela, o princípio de entendimento é mediado também pela imagem, cujo poder cognitivo é mais indicial/reativo do que simbólico/lógico, conforme o semioticista Charles Pierce. E nossos programadores, apresentadores e marqueteiros sabem disso. Tanto é que conseguem contornar as curvas mais perigosas com pouca derrapagem.

Gugu Liberato derrapou mas continua na estrada. Em suas aparições defensivas (Hebe Camargo, Domingo Legal etc.) contrapôs à lógica discursiva jornalística o apelo sentimental espetacular. Está dando certo, para variar. E isso lembra aquela história do garoto que, na sua inocência, apontou para o meio da multidão e gritou aquilo que todos sabiam mas não tinham a coragem de dizer: "O rei está nu!". E todos disseram: "Viva o rei!".

Viva o Gugu!

(*) Jornalista e professor da ECO/UFRJ

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