Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

PRIMEIRAS EDIçõES > DOMINGO ILEGAL

Gugu Liberato e o PCC superstar

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

DOMINGO ILEGAL

Nelson Hoineff (*)

Parece Ionesco. Um programa vespertino de TV põe no ar dois integrantes de uma das mais cruéis facções criminosas do país. Os bandidos fazem ameaças explicitas a apresentadores de programas sensacionalistas de outras emissoras. No dia seguinte, os apresentadores reagem. Levanta-se a hipótese, praticamente comprovada, de que os criminosos nem criminosos são. Ou nem criminosos eram, posto que agora são responsáveis por falsidade ideológica, apologia ao crime e ameaças de morte, para dizer o mínimo.

Instaura-se uma guerra entre animadores de programas policialescos. O pivô da disputa ? e seu grande herói ? é o Primeiro Comando da Capital (PCC), organização dedicada a organizar massacres. Os advogados da nobre entidade garantem que os entrevistados de Gugu Liberato, no programa Domingo Legal (7/9), não pertencem às suas fileiras. O apresentador do SBT, portanto, cometeu uma fraude. Se os dois cidadãos fossem, de fato, das fileiras do PCC, o que Gugu teria cometido?

Tal discussão, evidentemente, só existe a partir dos valores envolvidos em todo esse imbróglio. Levar ao ar assassinos autênticos ? e não os que simplesmente se fazem passar por eles ? é uma grande conquista num universo em que eles são os superstars. Pode-se dizer que, neste particular, todos esses assassinos, estupradores e traficantes não têm grande culpa. Seu negócio é traficar, matar, estuprar. O dos apresentadores de TV é transformá-los em heróis.

Analogamente, todos os apresentadores de programas desse gênero não têm a menor culpa de terem sido, eles mesmos, transformados em heróis. Seu negócio é falar sobre estupradores, traficantes e assassinos. O negócio de muitos diretores de programação é transformá-los em heróis de suas emissoras.

Por isso a programação da TV aberta e o PCC guardam tantas semelhanças. Ambos pensam no proveito imediato e não levam em conta o futuro; ambos não se importam com o mal que possam causar às suas vítimas; ambos acham que guiar a vida por normas éticas é um conceito abstrato; ambos carecem de talento e criatividade para ganhar a vida de forma honrada.

As mesmas cabeças

Focar no "horário de acesso" da televisão brasileira é um rico exercício. Horário de acesso é aquele entre o final de tarde e o início do horário nobre. As atrações que hoje o compõem são quase todas idênticas na forma e no conteúdo. Os cenários são iguais, os apresentadores se comportam da mesma maneira e os repórteres disputam a primazia de encontrar algo ruim numa tarde em que, por um capricho do destino, nada de muito ruim está acontecendo. Individualmente são competentes no que fazem. Mas o fato de serem todos iguais cria o acirramento de valores que, em si, não têm a menor importância. O helicóptero que chega antes ao local de algum pequeno desastre; a exposição pública de gente comum envolvida em brigas conjugais; a valorização do papel do criminoso ? porque é dos crimes hediondos e não dos ladrões de galinha que vivem estes programas.

O inquietante, portanto, não é a existência de cada um deles, mas a insistência na clonagem. Esses programas estão disputando algo em torno de 15 pontos de audiência. Cinco pontos, portanto, configuram um sucesso de público, ainda que não necessariamente de receita, porque os grandes anunciantes tendem a rejeitá-los.

É muito improvável, estatisticamente impossível, que não existam formatos capazes de fazer cinco pontos ou mais no mesmo horário. Formatos que possam competir com os programas policiais, que têm ali legitimamente o seu lugar, e propor à audiência experiências diferentes de televisão. Experiências não necessariamente elitistas ou cifradas, mas populares, de massa e também originais. Formas capazes de atrair público e anunciantes e ainda assim trilhar caminhos éticos que venham ao encontro da sociedade e não se voltem contra ela.

Tais idéias e tais programas existem. Não estão no ar porque há entre eles e o espectador a barreira do medo. Um medo muito pior que o medo dos bandidos. Medo das diferenças. Medo de fazer qualquer coisa que não se pareça com o que existe à exaustiva repetição. Medo de fazer algo melhor.

Esse tipo de medo só pode prosperar numa estrutura de criação monolítica, que dificulta e virtualmente impede a circulação de idéias. Numa estrutura onde tudo o que é produzido nasça dentro da própria televisão e das mesmas cabeças. Onde nem mesmo o fracasso de audiência serve como indicador de que alguma coisa está errada, de que a mesmice já não funciona.

Um grito aqui, um protesto ali

É neste terreno que florescem fatos como a glorificação da bandidagem ? porque não só as idéias como os valores que elas expõem estão dentro do mesmo saco. Vez por outra isso se torna muito explícito ? como no caso da entrevista e glorificação dois supostos integrantes do PCC. Na maioria das vezes, porém, seu efeito é mais sutil. O espectador tem acesso a programas vulgares e de nível cada vez mais baixo que, antes de agredir qualquer de seus valores, desestimulam sua capacidade de raciocínio. Compara um com outro e faz sua escolha, baseado em pequenas diferenças de empatia com um ou outro apresentador. Não percebe, no entanto, a vastidão do que está lá fora e simplesmente não lhe está sendo apresentado nem oferecido a seu julgamento.

Se não está é porque uma estrutura tão perigosa quanto uma organização criminosa lhe está sonegando essa possibilidade ? por falta de competência ou medo de fazê-lo. Essa é uma situação única no mundo. Em nenhum outro lugar é assim, em nenhum outro lugar existe tal ditadura da criação, em nenhum outro lugar as exibidoras produzem quase tudo o que exibem.

O mito da eficiência da TV brasileira como negócio também já caiu há muito tempo. Entre as muitas mentiras contadas pela televisão, poucas são maiores do que a relação entre o estímulo da vulgaridade e a resposta de receita. Na verdade, os sábios que estão desenhando uma televisão ruim estão moldando também a forma para uma televisão deficitária. E com uma impunidade administrativa de fazer inveja aos diletos entrevistados do Gugu.

Na sexta-feira (12/9), num encontro privado, o ministro José Dirceu, da Casa Civil, negou mais uma vez que esteja em curso um Proer da televisão. Pode ser. Mas se estivesse, ele não poderia estar dissociado do que as televisões estão exibindo e de que forma estão assentados os seus modelos de produção.

Se a televisão ? de um modo geral e salvo as exceções que configuram a regra ? deixa de lado a possibilidade de oferecer ao público uma programação diferenciada e de qualidade, de criar produtos televisivos que levem em conta as inúmeras possibilidades criativas do veículo, de ampliar o mercado para uma produção mais plural, se elas glorificam a bandidagem e ainda assim não obtém bons resultados financeiros, então é evidente que alguma coisa está errada. E é ela que deveria ser a primeira interessada em descobrir como mudar para melhor, como ganhar dinheiro e cumprir o seu papel social ? esta última, aliás, uma obrigação constitucional.

O mercado pode se encarregar disso ? mas precisa de uma mãozinha regulatória. Aos 50 e pouco anos, a televisão brasileira ainda age como uma criança que depende de pequenas instruções para que não destrua o que está em volta e a si própria. Não é a simples legislação e muito menos instrumentos coercivos forjados pelas circunstâncias que vão mudá-la, mas está na hora de a TV se comportar como um adulto, como o cinema o faz desde os 10 anos.

Um grito aqui e um protesto ali não vão fazer com que os programas policiais tornem-se refinados nem que a selva vespertina dos domingos deixe de glorificar a bandidagem. Não há como mudá-los e nem por que mudá-los ? talvez por uma semana ou duas, mas no modelo atual isso está na natureza dessas atrações.

Ser nocivo é que não está na natureza da televisão. Quando ela muda, cresce, ganha nobreza, adquire relevância artística e social, então cada uma de suas partes ganha a importância que merece. No fundo, cada vez que tentamos consertar o que há de errado com um Gugu, deixamos de tentar consertar o que há de errado com a televisão.

(*) Jornalista e diretor de TV

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