Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Guálter George

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

O POVO

"A vitrina de papel", copyright O Povo, 18/1/04

"A primeira página é a ?vitrina?, através da qual um jornal expõe o melhor do que tem a oferecer em cada edição que lança às ruas. Há, por conta disso, um rigoroso processo de seleção para definir o que deve e o que não deve constar naquele espaço, teoricamente o mais selecionado de qualquer publicação. As decisões que se toma neste ponto são pensadas e repensadas, discutidas à exaustão, muitas vezes, porque, dentre outras conseqüências, podem definir uma melhor ou pior performance de vendas, na sua perspectiva avulsa. É uma decisão de caráter estratégico e, por conta disso, de um interesse que costuma ir além do editorial.

A Redação começa a pensar na capa já de manhã, nas pautas elaboradas ao nascer da rotina do setor e na primeira discussão que os editores têm entre si para projetar a edição que estará sendo trabalhada ao longo daquela jornada que se inicia. Falo, naturalmente, da rotina estabelecida dentro do O Povo. O processo tem sua segunda etapa à noite, quando os editores voltam a se reunir para fazer um balanço do que foi realizado, compará-lo àquilo que se planejou na manhã e, a partir de então, dar início à sua fase final. Na qual ainda está contemplada uma outra roda de editores, envolvendo gente da Chefia de Redação, Arte, Fotografia e o jornalista responsável pela primeira página. A partir dali, então, é que a capa começa a ganhar contornos concretos, muitas vezes em meio a várias simulações, experimentadas para se chegar à versão definitiva, pretensamente a melhor.

O filtro do filtro

Os tópicos anteriores foram postos como meio de demonstrar ao leitor o nível de dificuldades que a Redação se estabelece para manter um esforço diário de apresentar a melhor capa possível, a melhor arrumação que a ?vitrina? contemple. Seja no ponto de vista editorial, que foca as melhores matérias e as melhores imagens, seja também quanto aos aspectos, também ponderados, relacionados ao poder de venda de uma informação, em texto ou imagem. A manchete, dentro do contexto, é apenas um dos elementos considerados, certamente o mais importante, mas não o único.

Pois foi um problema de capa o primeiro que vi justificar uma abordagem nesta Coluna de domingo, que é externa. Não tratei dele nas críticas internas porque diz respeito a um período anterior ao meu início efetivo de atuação como ombudsman. Decidi que valeria a pena abordá-lo por duas razões básicas: porque encontrei mensagens na caixa de e-mail ainda relacionadas ao tema e, depois, devido à ligação telefônica de um leitor que ainda se declarava revoltado, quase uma semana depois daquela primeira página na qual uma seqüência mostrava um jogador da seleção brasileira pré-olímpica, Diego, tendo o calção sendo abaixado pelo companheiro Robinho enquanto posava para uma foto oficial. Foi na edição do último dia 7.

O que alegam os leitores? O jornal teria apelado ao apresentar na capa o que um deles define, em aparente exagero, como strip tease do jogador. ?Espetáculo deprimente?, ?artifício de que O Povo não precisa?, argumentações do tipo foram registradas ao ombudsman, numa queixa que aguçou minha curiosidade. Pensei, inicialmente: será que com tanto cuidado que se adota, com tanta gente chamada a opinar e refletir, ainda assim não se consegue blindar o jornal de decisões que depois possam ser consideradas, por um, dez ou duzentos leitores, uma ?grosseria??.

Muita queixa, pouca resposta

Fui à Chefia de Redação pedir uma análise do fato para inserir dentro da abordagem que, informei, traria à Coluna. Confesso que o que me chegou frustrou a expectativa de que receberia uma argumentação bem elaborada sobre as razões de ter optado pela seqüência de fotos. Argumentos técnicos, editoriais, enfim, dados concretos indicando convicção de acerto entre os que participaram da decisão de expor o fato daquela forma. O que diz a nota da Chefia da Redação, laconicamente: que respeita as manifestações dos leitores que se sentiram ofendidos e que o material era jornalístico e foi disposto na capa daquela forma sem qualquer sentimento de maldade. Argumenta-se que as fotos, disponibilizadas no material das agências noticiosas, apenas flagravam um momento de descontração entre os jogadores. Este resumo aproveita quase tudo o que foi encaminhado ao ombudsman, como manifestação da Chefia da Redação sobre o episódio. É pouco.

O nível de indignação que a capa provocou, seja em quantos leitores tenha sido, exige uma reflexão mais séria acerca do que colocamos em nossa capa naquele dia. Há necessidade de ficar claro o critério que levou à opção de se potencializar as fotos, apresentando-as em seqüência, inclusive, mesmo que não se consiga atender à expectativa dos que ainda manifestam indignação. A capa daquele dia, por exemplo, pode haver atendido uma expectativa de vendas. É uma hipótese, apenas. A questão é que o esforço de seletividade, que sei existir e foi objeto de relato na parte inicial desta Coluna, deveria determinar uma base melhor de argumentação, com dados mais claros acerca das razões que indicam o acerto da linha adotada, na perspectiva da Redação. O episódio pode ser utilizado para se tirar algumas lições importantes, algo impossível se a opção for, como parece ter sido até agora, de apenas minimizá-lo."

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