Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & NAZISMO

Heil, Bertelsmann!

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

MÍDIA & NAZISMO

Estudo de quatro historiadores independentes demonstra que a Bertelsmann, corporação gigante de mídia da Alemanha, cresceu rapidamente na época do nazismo. A direção admitiu que a história de que os nazistas fecharam a companhia porque fazia oposição ao regime é inventada e pediu desculpas publicamente por tantos anos de omissão.

Holtzbrinck, outro grande grupo alemão de mídia, com pesada participação no mercado americano, informou que também está pesquisando seu passado para verificar qual foi sua relação com o governo de Adolf Hitler. Seu dono na época, Georg von Holtzbrinck, filiou-se ao Partido Nazista em 1933, mas criou amizade com líderes judeus no pós-guerra, apoiando suas causas. As empresas de comunicação são as últimas a entrarem na onda de revisão histórica que atingiu as grandes corporações alemãs. Volkswagen, DaimlerChrysler e Deutsche Bank, por exemplo, já foram atrás de seu passado. O problema é que boa parte das firmas está nas mãos de famílias. Assim, para o proprietário, descobrir coisas ruins sobre a empresa significa descobrir coisas ruins sobre o avô ou o pai.

As 800 páginas da nova história da Bertelsmann dão conta de que a produção de livros para os soldados no front elevou exponencialmente seu lucro. Em pouco tempo, a pequena editora provinciana de textos religiosos se transformou na maior fornecedora de leitura para as tropas de Hitler. Durante esta fase, vendeu 19 milhões de exemplares aos militares. Outra revelação chocante é que a editora usou judeus como escravos em filiais nos países bálticos. A matriz na Alemanha, ao que tudo indica, não recorreu a essa prática. Heinrich Mohn, proprietário da Bertelsmann durante a guerra, ao contrário do que dizia a história oficial da empresa, apoiava boa parte do ideário nazista e contribuía para a SS, a tropa de elite do Führer. O fechamento da editora em 1944, portanto, não se deve à sua oposição ao regime, mas, provavelmente, à vontade dos nazistas de terem sua própria editora liderando o mercado.

No pós-guerra, a Bertelsmann teve fôlego para ressurgir, e, graças à suposta oposição ao nazismo, obteve licença de funcionamento dos Aliados sem dificuldades. Naquela época, assumiu o filho de Heinrich, Reinhard Mohn. Os quatro historiadores que a própria companhia contratou ? depois que, em 1998, um pesquisador independente botou a história oficial em dúvida ? confirmaram que Reinhard sempre soube que a corporação fora colaboracionista. O motivo mais provável para ter escondido isso, além da tendência geral de empurrar o passado para debaixo do tapete na Alemanha pós-guerra, é que ele teve que recorrer a diversos administradores nazistas para reerguer sua editora. As informações são de The Wall Street Journal [8/10/02], The New York Times [14/10/02] e Reuters [7/10/02].

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