Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > , 100 ANOS

Hipólito e Euclides, lições inesquecíveis

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

OS SERTÕES, 100 ANOS

Deonísio da Silva (*)

"Ivan, o terrível, senhor das Rússias, alimentava os seus ursos favoritos com criancinhas de mama, porque os ursos, pobres queridos, se deleitavam com essa carninha muito tenra, dum sabor de leite." Depois de acrescentar, secamente, como era de seu estilo, que havia outros Ivans disfarçados de gente de bem, continuava o escritor: "Toda a diferença está na largueza do poder. O sinistro Ivan possuía a onipotência ? era, por direito, tão dono das crianças como dos ursos, a quem podia com a mesma segurança atirar uma criança ou todo um povo".

O escritor era Eça de Queiroz. Escrevia na Revista Moderna. O morteiro acima foi disparado no dia 20 de agosto de 1897, um mês antes de a jovem República brasileira despachar para Canudos a quarta expedição, comandada pelo general Artur Oscar e prestigiada com a presença do próprio ministro da Guerra, o marechal Bittencourt, que permaneceu em Monte Santo entre setembro e outubro do mesmo ano, conforme observa o professor Marco Antonio Villa na apresentação de um verdadeiro achado de pesquisa, o recentemente lançado Canudos, história em versos (co-edição da Editora Hedra, Imprensa Oficial SP e EdUFSCar), de Manuel Pedro das Dores Bombinho ? um poeta que acompanhou a Guerra de Canudos, registrando-a num poema de 5.984 versos que, se falham em rimas e metros, ganham em documentação:


"O Conselheiro viu a derrota da batalha

Disse ele: de fato perdemos a questão

Acabaram-se de tudo as esperanças

Nos venceu é certo a quarta expedição".


Antes de todos os citados, Hipólito José da Costa, pai, fundador, medianeiro e nume tutelar do jornalismo brasileiro ? todos os encômios a essa figura extraordinária serão poucos ? escrevia:


"O primeiro dever do homem em sociedade é de ser útil aos membros dela; e cada um deve, segundo as suas forças físicas ou morais, administrar, em benefício da mesma, os conhecimentos, ou talentos, que a natureza, a arte ou a educação lhe prestou. O indivíduo, que abrange o bem geral duma sociedade, vem a ser o membro mais distinto dela; as luzes, que ele espalha, tiram das trevas, ou da ilusão, aqueles, que a ignorância precipitou no labirinto da apatia, da inépcia e do engano".


Alberto Dines destaca justamente esse trecho no já antológico "O patrono e seu modelo" [publicado no primeiro volume da edição fac-similar do Correio Braziliense ou Armazém Literário, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001]. E Dines acrescenta: "Em poucas linhas, o desenho de um amplo projeto político e cívico. Mais do que um projeto jornalístico, autêntica revolução cultural. O subtítulo ?Armazém Literário? é, na realidade, sua súmula. Literatura tomada no sentido mais amplo, o conteúdo dos livros ? as idéias".

Fogo das cinzas

Euclides da Cunha, como todo escritor, afeito a outros ofícios, acolheu a lição e, excelente aluno, tornou-se ele também um mestre. A imprensa está repercutindo a memória de Os Sertões, que mais que livro e documento, é monumento em nossa vida literária, equivalente a uma das pirâmides de Quéops, Quéfren ou Miquerinos, no deserto de idéias que às vezes o Brasil dá a entender que é. Aliás, o corajoso Osvaldo Aranha não deixou por menos e proferiu a frase célebre "o Brasil é um deserto de homens e idéias".

Exagerado o grande Aranha, a face culta e ilustrada do governo Getúlio Vargas quando fundava quase todos os aparelhos de Estado que fazem hoje do Brasil o Brasil. Não creio que se possa concordar com tão duro diagnóstico. Nossos homens de letras escrevem em português, um dialeto na Galáxia Gutenberg. Considerados no conjunto, os livros brasileiros levados aos latins do império ? como o inglês, o francês, o espanhol, o alemão ? não são nem os mais representativos e ainda assim demoram a chegar a outras terras, outras línguas, outros merecimentos, outras críticas.

Mas alguns chegaram. É verdade que não raro aparecem mais aqueles que foram traduzidos por razões extraliterárias, obra dos serviçais silvícolas que no exterior, em vez de apoiar tradução de autores nacionais pelo único critério que se sustenta sozinho, a qualidade literária, cederam sem vacilação a cultuar livros pouco representativos de nossa produção literária, mas nascidos da pena de quem estava no poder. Josué Montello, quando embaixador do Brasil na Unesco, que autores brasileiros mostrou, além de "Josueu" e seus blue caps? Certamente não foi exceção no trato com os livros brasileiros no exterior.

Enquanto isso, autores fundamentais, guiados pelo exemplo de Euclides, autor de um livro essencial sobre Brasil, freqüentemente ficam ao relento dos apoios oficiais. A questão demanda reflexões mais demoradas, cujo fogo das cinzas atiçamos aqui e agora.

Lições à universidade

Muito provavelmente nossa intelectualidade laborou num equívoco ao absolutizar a formação acadêmica apenas no que ela representa em títulos. Quantos talentos não vêm sendo amordaçados por orientadores nas dignificantes dissertações e teses, amarradas a espartilhos que têm o fim de reproduzir mais um doutor, de clonar mais um mestre?

De minha parte, sinto que a universidade raramente apóia um ser criativo e tende a consagrar o médio. Voltando do exílio, Paulo Freire tornou-se professor universitário. É lenda universitária ou verdade pura que ele foi contratado como auxiliar de ensino de um jovem que era doutor em Paulo Freire e que com isso recebia o dobro da remuneração de seu ? como direi? ? objeto de pesquisa?

Euclides da Cunha era engenheiro, geógrafo, botânico, topógrafo, antropólogo. E tais qualificações não atrapalharam sua atuação na imprensa, antes engrandeceram o jornal que o contratou. E Hipólito José da Costa, formado em direito, doutor avant la lettre em economia, era ainda versado em política internacional, agricultura, artes. Sabia ainda dedilhar ao piano. O jornalista Luiz Egypto anotou no bilhete em que pautou o signatário: "O fundador do jornalismo brasileiro e o autor da maior reportagem do jornalismo brasileiro têm um traço comum: ambos são multidisciplinares, intelectualmente inquietos, curiosos e, sobretudo, muito aplicados".

Acrescentaria ainda modelo de minha especial predileção: o Visconde de Taunnay, engenheiro militar, político (Santa Catarina, meu estado natal, tem muito a ver com sua atuação política) e romancista, que deu exemplos de como quem escreve não pode resvalar para a coisa menor, para a picuinha, para a polêmica estéril. Ele nos legou o magnífico documento que é a Retirada da Laguna e um romance que marcou a segunda metade do século da Guerra do Paraguai, que é Inocência. Se tivesse escrito apenas esses dois livros, já estava bom, mas ele escreveu muitos outros e fez muito mais coisas, guiado por um olhar mais generoso, posto mais adiante.

Na prosa de Euclides, sintomas de romance extraordinário:


"Os jagunços eram duzentos ou eram dois mil. Nunca se lhe soube, ao certo, o número. Na frente dos expedicionários o enigmático da campanha se antolhava mais uma vez, destinando-se a ficar para sempre indecifrável. (…) Conforme confessa em documento oficial onde define, com lastimável desquerer, o adversário temível que o fizera parar, não podia admitir que duas ou três centenas de bandidos sustivessem a marcha da segunda coluna por tanto tempo".


Em que ficamos? Que os mestres tiveram e têm poucos alunos, mas que as coisas estão melhorando. Nem a imprensa limitou-se a agasalhar homens de boa pena num rodapé, nem escolas, empresas e universidades deixaram de dar atenção aos que ousam cruzar as fronteiras do apenas conveniente. A imprensa tem dado lições à universidade, às letras. E têm tomado aulas com freqüência, estabelecendo a necessária permuta que leva o schollar para fora dos muros dos campi e devolve o cavalo de Tróia que adentra aos pastos universitários relinchando inconformidades.

Esforços mútuos

Na praça, recentemente lançados, dois exemplos do segundo caso. Elio Gaspari obriga a atenção de todos para os seus A Ditadura Escancarada e A Ditadura Envergonhada. Ele escreve para leitores que sejam alfabetizados em português e em Brasil. Se seu projeto fosse escrever uma tese de doutoramento, escreveria mais relatórios às agências financiadoras de projetos semelhantes do que a interpretação segura e cheia de verve dos desconcertantes documentos que desencavou.

Quando intelectuais, principalmente escritores, enlaçam matrimônio com a imprensa, os prazeres não ficam restritos à costumeira meia dúzia de leitores no Brasil, sem contar que a ascese estilística precisa quebrar os vidros de compota que conservam a língua para obrigar o escrevente a chegar aos leitores, nem que seja por ínvios caminhos, numa linguagem que leve em consideração que não está escrevendo para uma banca que o examinará ou para críticos que o resenharão, mas que está escrevendo para todos os que sabem ler.

Por isso, nossas dificuldades diante de Euclides da Cunha ou de Guimarães Rosa talvez não se devam aos esforços inauditos para fazer a travessia dos livros, mas a conhecidos atavismos ou preconceitos que concebem o bom autor como incapaz de ser entendido sem baixar o nível. Mas é possível o milagre vivido por Euclides, Hipólito, Eça de Queiroz e tantos outros: o leitor melhora sua dieta de leitura justamente em obras como essas referências, por meio de um aperfeiçoamento dos seus conhecimentos da língua escrita, que leva uns e outros a dialogarem, em esforços mútuos, que têm o fim de que as duas partes interessadas se encontrem em algum ponto do texto.

(*) Escritor e professor da UFSCar, escreve semanalmente neste espaço; seus livros mais recentes são A Vida Íntima das Palavras e o romance Os Guerreiros do Campo

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