Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Hipólito, hoje

Por lgarcia em 02/12/2003 na edição 253

IMPRENSA & HISTÓRIA

Alberto Dines

Quero aproveitar as formalidades de abertura do seminário para prestar minha homenagem à direção da Fundação Casa de Rui Barbosa por esta iniciativa e pelo esmero com que a está realizando. Refiro-me em especial ao presidente da Casa, José Almino Alencar e, principalmente, à historiadora Isabel Lustosa, querida amiga e diligente parceira na empreitada de reeditar e reviver em letra de forma o Correio Braziliense em versão integral.

Embora reconheça a impropriedade, não resisto à tentação de fazer um "comercial" num evento de tamanha importância. Em pouco mais de 3 anos conseguimos reproduzir os 29 volumes do Correio com uma qualidade senão superior pelo menos igual à dos originais pertencentes ao bibliófilo José Mindlin, introduzidos com pequenos textos atualizadores. Acrescentamos um volume com a reprodução do índice remissivo editado pela Biblioteca Nacional em 1974 e outro com 21 estudos de pesquisadores brasileiros e portugueses, nova e completa iconografia e uma vasta bibliografia coligida por Maria Helena Vignolli de Moraes.

O feito tornou-se possível graças à feliz cooperação entre uma entidade pública, a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, uma empresa privada, o atual Correio Braziliense e uma instituição do Terceiro Setor, o Observatório da Imprensa, então representado pelo Instituto Uniemp. Mas não fosse o empenho, o entusiasmo, a capacidade técnica e os recursos do parceiro público (a Imprensa Oficial), este projeto ficaria engavetado como tantos outros. Faço este registro com clara intenção política de modo a não deixar dúvidas sobre o papel do Estado ? e não do mercado ? na liderança das empreitadas para preservar nossa história e nossa cultura.

Na realidade, estamos discutindo "Hipólito, hoje" graças à recuperação e socialização deste precioso acervo que, de outra forma, estaria restrito a meia dúzia de coleções em bibliotecas e outro tanto em coleções particulares.

Termino este preâmbulo com os agradecimentos à generosidade dos organizadores em convidar-me para proferir na honrosa companhia da professora Cybelle Ipanema as palavras iniciais deste seminário. Num momento que não pode ser classificado como dos mais felizes da história da nossa imprensa, vejo como ousadia este convite a um jornalista dos outros tempos para examinar o passado e o presente de nossos jornais. Considero esta distinção como um voto de confiança nas novas gerações de jornalistas de modo que, algum dia, devidamente capacitados e, sobretudo, inspirados nos ensinamentos de Hipólito da Costa, possam atender aos seus compromissos com a sociedade que têm obrigação de servir.

E com este mote ? imprensa e sociedade ? começo estas reflexões. Sirvo-me do primeiro texto, da primeira página, da primeira edição do Correio, legítimo documento fundador da nossa imprensa que, quase 200 anos depois, mantém-se como sua principal referência e, por isso, vai ocupar grandes parte destas reflexões.

Hipólito começa sua Introdução dizendo que "o primeiro dever do homem em sociedade é ser útil a seus membros". Cada um deve servi-la "com suas melhores forças físicas e morais", mas aqueles que espalham as luzes "são os membros mais distintos da sociedade porque tiram das trevas ou da ilusão aqueles que a ignorância precipitou no labirinto da apatia, da inépcia e do engano". Porém, segundo Hipólito, ninguém é mais útil do que aquele que sabe "evidenciar os acontecimentos do presente e desenvolver as sombras do futuro." (Correio Braziliense, vol. 1 p. 2.)

Jornalistas e jornalismo eram palavras e conceitos ainda inexistentes no vocabulário internacional naquele início do século XIX (o que viria acontecer na França algumas décadas depois), a própria noção de Imprensa ainda estava associada à atividade impressora e tipográfica, mas Hipólito já divisava claramente a importante função social daqueles que designava como "redatores das folhas públicas": munidos de uma crítica sã e de uma censura adequada, devem apresentar "os fatos do momento, as reflexões sobre o passado e as sólidas conjecturas sobre o futuro".

Historiador nato, sempre empenhado em relacionar o presente com o passado, Hipólito lembra ainda o papel desempenhado pela Gazeta de Lisboa na mobilização popular em defesa de D. João IV no episódio da Restauração (1649). Pretende repetir a experiência daqueles que designa como jornais políticos agora em benefício do Império do Brasil, que vê como uma das primeiras potências do mundo. Estão definidas assim as bases de um jornalismo militante, político, a serviço da sociedade. (Hipólito comete uma imprecisão histórica ao afirmar que "devem-se à Nação Portuguesa as primeiras luzes destas obras que excitam a curiosidade pública". Talvez quisesse referir-se ao uso político das gazetas e boletins das cortes.)

Adiante estabelece um terceiro paradigma jornalístico ao afirmar que não pretende ser apenas o "primeiro despertador da opinião pública para os fatos que excitam a curiosidade dos povos". Recusa claramente o papel de mero repórter, noticiador, porque está empenhado em tarefa de maior dimensão e profundidade: esclarecer, explicar. Quer costurar os fatos e, com eles, contextualizar as novas situações. Já discernia a diferença entre "hard news", a notícia quente, e a sua interpretação e dimensionamento. Por isso propõe-se "traçar as melhorias das Ciências, das Artes e de tudo que pode ser útil à sociedade em geral."

Com esta ambiciosa profissão de fé de apenas 62 linhas, o jornalismo deixa de ser um ofício para alçar-se à condição de instância política e função social. Cônscio da sua primazia, Hipólito oferece não apenas as coordenadas de um novo periódico mas desenha um projeto cultural de grande porte, capaz de servir de inspiração e modelo para uma sociedade até então utilizada apenas como vassala de um império àquela altura visivelmente decadente.

Ao materializar sua proposta logo na primeira edição, sem esperar por milagres e apoios, Hipólito da Costa abre um precedente: ao invés das inalcançáveis utopias e vãs promessas, coloca-se entre os "sonhadores pragmáticos". A revolução cultural que todos achavam necessária, mas ninguém ousava implementar, começou no exato instante em que era anunciada.

Hipólito é, assim, não apenas o precursor do jornalismo brasileiro mas um revolucionário capaz de enxergar como devem começar as transformações duradouras: para dar certo, elas devem começar no espírito e nas mentes. Ao mesmo tempo, reunindo pensamento e ação, Hipólito é o primeiro jornalista interpretativo, o primeiro jornalista cultural, o primeiro jornalista científico e consegue ser ainda o iniciador de um gênero surgido recentemente (na última década), ainda pouco discutido, designado como "jornalismo público" ou "jornalismo cívico" e articulado com ações afirmativas.

Do exame das 175 edições mensais ao longo de 14 anos, podemos atribuir-lhe outros galardões igualmente inovadores: Hipólito é também o primeiro repórter investigativo, primeiro analista internacional, primeiro repórter político, primeiro repórter de economia e primeiro defensor da liberdade de imprensa em língua portuguesa ao traduzir e inserir no Correio o famoso tratado de John Milton, "Areopagítica" impresso em 1644 e, depois disso, ao defender a liberdade de expressão em todas as oportunidades que se apresentavam. (Correio Braziliense, Maio e Junho de 1810, vol. IV, pp. xi, 479-503 e 616-639)

E, como se não bastasse, é também nosso primeiro crítico da imprensa porque, ao responder às críticas e insultos gerados pelo despeito e os interesses contrariados, procurou estabelecer normas e padrões de correção jornalística e civilidade. Homem público, porém reservado, quase anônimo, seu nome raramente é mencionado, em geral fala na terceira pessoa do singular, como Redator (tal e qual acontece ainda hoje no "Economist"). Quando eventualmente é obrigado a assumir opiniões ou responsabilidades pessoais, evita nomear-se. Mesmo em ocasiões solenes, como a Introdução da primeira edição e o Anúncio aos Leitores da última.

Além de tantos pioneirismos e prioridades é preciso reconhecer nele um esmerado editor disposto a oferecer aos leitores as facilidades necessárias ao entendimento de matérias tão complicadas e distantes de suas realidades. A cobertura dos eventos no Correio Braziliense é contínua, sem fragmentações, sempre ajudada por notas de referência, mapas e tabelas estatísticas. Tudo isso amarrado num elaborado índice no fim de cada semestre de modo a garantir sua condição de obra periódica ? como ele próprio a designou ? e não uma coleção de espasmos desconexos.

É evidente que Hipólito não inventou tantos procedimentos jornalísticos, inspirou-se na imprensa do Reino Unido ? a melhor do mundo naquele momento ? mas a sua capacidade de adequar estes procedimentos a outro idioma, outra cultura e, sobretudo, a outros hábitos de leitura, confirma uma extraordinária criatividade e um pacto com a qualidade.

Não procurou nivelar por baixo como seria de esperar numa sociedade
constrangida pela censura desde 1536 (há 272 anos), despreparada
para o consumo de informações periódicas e
livres. O padrão de qualidade informativa quando começou
em junho de 1808 mantém-se praticamente no mesmo nível
até dezembro de 1822 quando o Correio deixou de circular.
No intervalo, obviamente, promoveu aperfeiçoamentos tanto
na rede de informantes (luso-brasileiros e internacionais) como
nas técnicas de atualização das edições.

Mesmo sem conhecer traços pessoais mais profundos, apenas pela avaliação da obra que deixou, percebe-se nele um obsessivo, um torturado que se manteve no mesmo patamar de qualidade jornalística graças a um nível de exigência que, mesmo hoje, com tantas facilidades, recursos humanos e pesquisas de opinião, raramente é igualada.

Esta coerência e linearidade têm uma explicação: Hipólito pretendia falar com "o andar de cima" (como diríamos hoje). E o conseguiu plenamente graças a uma estratégia consistente e persistente. Como não havia uma elite, criou-a.

Em matéria mercadológica o Correio é um caso de estudo impar: o produto antecipou-se ao seu público. Daí a sua penetração, daí a sua aceitação, daí a fidelidade dos leitores que o colecionavam zelosamente e daí o número de concorrentes ou adversários que tentaram substituí-lo junto daquele público privilegiado.

São três os veículos que surgiram com a finalidade precípua de contestá-lo:

** Em 1809-1810, portanto em seguida ao lançamento, temos o aparecimento das "Reflexões sobre o Correio Braziliense" assinadas pelo Frei Joaquim de Santo Agostinho Brito França Galvão aparecidas em seis fascículos.

** Em 1810 foram lançadas também as "Reflexões feitas em abono da verdade sobre os números VII, VIII e IX do Correio Braziliense" de autoria não assumida.

** E no período 1810-1811 saíram 14 fascículos intitulados "Exame dos Artigos Históricos e Políticos que se contém na coleção de periódicos intitulada Correio Braziliense" editado por José Joaquim de Almeida e Araújo Correa de Lacerda.

Isto sem contar concorrentes de grande porte, quase todos financiados pela Coroa ou interesses próximos como O Investigador Português em Inglaterra, editado de 1811 a 1819, O Português que circulou de 1814 a 1826, O Campeão Português ou o Amigo do Rei e do Povo, entre outros.

São confrontações políticas e pessoais mas é principalmente uma disputa pela mais importante fatia do mercado consumidor de idéias no Reino e na Colônia: o estamento administrativo que encorpou-se a partir das reformas pombalinas reforçado pelo abrandamento dos controles inquisitoriais e o fim da influência jesuítica.

Ao escolher como sub-título do seu periódico a expressão "Armazém Literário" Hipólito da Costa deu início a uma revolução sócio-cultural que talvez só encontrará similar no Segundo Império, sob a batuta do próprio D. Pedro II. Na verdade o tal armazém literário é um armazém de idéias, um "think tank" como se diz hoje, refinadíssimo Reader?s Digest destinado àqueles que detinham ou estavam próximos do processo decisório nos dois lados do Atlântico.

"Literário" aqui não se refere à literatura como arte, é a matéria contida nos livros destinada a injetar naquela sociedade periférica e apática alguma adrenalina intelectual. Sua idéia era transformar aquele público restrito, pré-iluminista, numa liderança intelectual moderna através da veiculação em vernáculo das novidades em matéria científica, tecnológica, cultural e política que circulavam na América do Norte e na Europa. Defendia na ocasião um Reino Unido sediado no Brasil e para evitar sua transformação "num imenso Portugal" considerava indispensável formar quadros dirigentes competentes, informados e, sobretudo, capacitados para enxergar o Brasil num mundo acelerado por mudanças drásticas.

Alguns críticos de Hipólito tentam minimizar a extensa e cuidada cobertura internacional do Correio atribuindo-a às suas ligações pessoais e materiais com a maçonaria e a Casa Real britânica. Essa nova teoria conspiratória vê o Correio Braziliense como uma extensão da política externa do Reino Unido. Nada mais errado: a declarada admiração de Hipólito pelas instituições e feitos políticos dos Estados Unidos manifestou-se quando a Coroa britânica ainda não superara a ressaca pela perda das colônias norte-americanas. Isto antes da desinibida declaração de amor de Tocqueville pelo sistema democráticos dos EUA.

Critica-se Hipólito pelo encarniçado anti-gaulismo. Mas este ressentimento era natural na Península Ibérica e seu anti-bonapartismo compartilhado por centenas de intelectuais europeus ? como Beethoven ? decepcionados com o expansionismo, o despotismo e a fascinação monárquica do caudilho francês. Favorecer o invasor de Portugal era crime de lesa-pátria.

Junto com a inevitável Abertura dos Portos, Hipólito pretendia desenvolver uma abertura cultural verdadeiramente internacionalista. Suas devoções iluministas e maçons levavam-no a uma postura universalista naquela conjuntura considerada revolucionária e progressista. Sua cruzada contra a Inquisição transcendeu a sua militância maçônica e a penosa experiência pessoal nos cárceres de Lisboa. Desenvolveu-a junto com sua cruzada contra a escravidão, a favor da tolerância e das liberdades. O mundo deveria ser melhorado concomitantemente, em todas as direções e latitudes. (A.D., Luz e Trevas, Estrangeirados e Inquisição, in Correio Braziliense, edição facsimilada, vol. XXX, Estudos, p. 437-465)

O projeto hipolitano é um projeto holístico: para melhorar o mundo era necessário melhorar a humanidade e para isso contava com a palavra impressa, multiplicada, livre dos constrangimentos e do obscurantismo.

Na primeira edição do dicionário de seu amigo Moraes (1789) não consta o vocábulo preconceito, mas Hipólito pretendia utilizar o seu periódico para espantar as "trevas" e acabar com a "barbaridade". Não é por acaso que a palavra "luzes" aparece duas vezes no preâmbulo.

***

Encerro esta intervenção com uma observação sobre a nossa atualidade. Imagino que eu não seja o único a observar que, neste momento, estamos enfiados num infindável circuito de querelas relacionadas com o nosso presente e o nosso futuro. Não tenho a menor pretensão ou capacidade para resolver este emaranhado de rixas mas parece-me que poderíamos minorar as divergências se conseguíssemos chegar a algum consenso sobre o passado. E, como contribuição à pacificação retrospectiva, no capítulo sobre imprensa ofereço uma premissa para servir de base a um entendimento: nossa imprensa quando começou prometia muito mais do que promete hoje. Graças a Hipólito.

(*) Palestra proferida no seminário "Imprensa, História e Literatura", realizado no Rio de Janeiro, na Fundação Casa de Rui Barbosa no dia 26 de novembro de 2003

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