Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > FHC & SÉRGIO BUARQUE DE HOLLANDA

Hipotrélico irreplegível e as Raízes do Brasil

Por lgarcia em 24/07/2002 na edição 182

FHC & SÉRGIO
BUARQUE DE HOLLANDA

Ana Bruno (*)

O que pretende um jornal como O Globo quando expõe um personagem de extrema magnitude como Sérgio Buarque de Hollanda boiando em raciocínio obtuso no artigo anêmico "Sérgio, um jovem eterno", de Fernando Henrique Cardoso, publicado no domingo, 14/7? Melhor esteve a Folha de S.Paulo (23/6/02), quando lhe dedicou, também num domingo, um caderno completo, o Mais, com depoimentos consistentes de Peter Burke, Raymundo Faoro, Gabriel Cohn, Maria Sylvia Carvalho Franco, Ronaldo Vainfas, Luiz Costa Lima, Alcir Pécora, Kenneth Maxwell, Maria Odila Leite da Silva Dias e Antonio Arnoni Prado.

O Globo, ao que parece, preferiu optar por uma tênue erudição ao encomendar artigo a Fernando Henrique, desprestigiando assim a ótica patriótica de um contrapondo a desapaixonada visão do outro: "Aqui é apenas lazer e descanso, trabalhar mesmo, só lá fora", FHC.

Chega a ser uma afronta já na manchete do jornal avistar um nome ilustre associado ao esquálido personagem deste quase ex-presidente: até o analfabeto que passou no vestibular da Estácio de Sá saberia que não há tal alcance. Mas, deixe estar, só mesmo um hipotrélico irreplegível para ousar dessa maneira sobre tal expoente de nosso país. (Segundo o mestre Guimarães Rosa, hipotrélico é sengraçante imprizido, indivíduo pedante, importuno agudo, falto de respeito para com a opinião alheia; e hirreplegível é insaciável.)

Frases inesquecíveis

Deixe estar. Para quem se atreveu ao texto, ficou patente a vaidade com que o autor discorreu sobre si próprio em detrimento do astro maior, Sérgio Buarque. A cada estocada na história, imperava sua veleidade. Mesmo quando o homenageado era enaltecido, junto desta ascensão seguia impávido o autor da digressão vocabular. Eloqüente e saliente ao discorrer sobre si mesmo, FHC parecia estar novamente diante do concurso de doutorado sendo argüido pelo mestre Buarque. Vimos FHC se servindo de uma página de um veículo não para elucubrar a respeito da "modernidade de Sérgio" tão amplamente citada em sua resenha, mas para nos fazer relembrar de sua rançosa naftalina, sempre exposta no hálito de seu verbo, exalada em cada frase onde escamoteou o mestre para que pudesse despontar.

Para bom entendedor, Rosa basta: "Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois". Talvez aí esteja a síntese do governo de FHC, primeiro e segundo round, em seus oito anos de ausência sobre nosso ringue social. É, não haverá ciência que explique por que os bancos, em seu governo, sempre foram socorridos em lugar de pessoas ? não haverá.

Logo no início do texto o autor cita Sérgio Buarque: "Teriam eles lido Burke ou eram na verdade, como penso, apenas atrasados?" E segue em foco próprio: "A ironia de Sérgio talvez se aplique a alguns políticos e pensadores progressistas dos dias de hoje…" ? encerrando o parágrafo de forma reticente, talvez tentando se ocultar, talvez. É que ainda não deu para esquecer FHC tomando para si a frase de Juscelino Kubitschek de Oliveira ? outro dos quatro homenageados pelo Globo, juntamente com Carlos Drummond de Andrade e Lucio Costa: "Deus não me deu o sentimento do medo", cunhando: "Eu, mais humildemente, longe de Juscelino, posso terminar dizendo que Deus não me deu o sentimento do ressentimento. Deus não fez de mim alguém que tem mágoas, fez de mim alguém que só quer uma coisa: estender as mãos a todos que estão dispostos a estender as mãos pelo Brasil". E pensar que sua única derrota foi a prefeitura de São Paulo justamente quando revelou ser ateu. Quem sabe, para alguém tão nobre e poderoso feito FHC, perder para Deus pode até ser considerado um jogo bem justo. Vai saber o que passa pelo pensamento de seu umbigo, vai saber.

E, antes que FHC esqueça do que FHC disse, encerro com algumas de suas frases, tão impróprias para um sociólogo quanto para o líder de uma nação:


"Estou há sete anos, entrando no oitavo, tentando implementar alguma coisa". (O Globo, 30/12/01)

"Quanto mais livre, mais incômoda for a imprensa, maior será o sinal de que o país é democrático". (Na abertura da 2? Assembléia do Movimento Mundial pela Democracia, São Paulo, deixou o evento sem falar com a imprensa ? O Globo, 13/11/2000)

Se a pessoa não consegue produzir, coitada, vai ser professor. (2001)

Se a pessoa não se torna pesquisadora, está condenada a dar aula a vida inteira e repetir o que os outros fazem. (2001)

Rendo-me a esta plasticidade de Gilberto Freyre que nos revelou um outro lado do Brasil que é tão Brasil quanto o lado de que nós não gostamos. (2001)


(*) Jornalista

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