Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Hélio Campos Mello

Por lgarcia em 08/07/2003 na edição 232

GOVERNO LULA

"O boné da discórdia", Editorial copyright IstoÉ , 7/07/03

"Mais do que de ações, um governo também vive de símbolos. Para uma liderança popular e carismática como a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem relação direta com o povo e sabe como poucos falar a linguagem do brasileiro médio, qualquer gesto tem significado que transcende o imediato. O fato de colocar um boné do MST deveria terminar com a foto nos jornais e as imagens na televisão. Assim como aconteceu com a visita das estonteantes Sheilas, dançarinas de axé, que estiveram com Lula no mesmo dia e serviram de inspiração para os chargistas de plantão. No episódio do boné, os três segundos que o pedaço de pano passou pela cabeça presidencial podem dar muita dor de cabeça. Talvez o momento não tenha sido mesmo muito feliz. O mimo aconteceu logo agora que a situação no campo recrudesce, quando fazendeiros voltam a falar em milícias armadas, sem-terra radicalizam e partem para novas e violentas invasões. Pode ter sido inoportuno, mas é coerente com os seis meses de Lula na Presidência. Consta que ele convidou a UDR para um encontro. Nada mais natural. Assim como em sua lapela a estrela vermelha foi substituída pelo mapa do Brasil, também seria natural que em encontro com a UDR, boné da UDR. Encontro com o MST, boné do MST.

Para a oposição, PFL à frente, foi um prato cheio de mágoa. Num momento de tensão, chegou-se a falar em impeachment. Menos. Um boné, por mais metafórico que possa ser, é apenas um boné. Lula gosta muito deles. Já andou com vários na cabeça. Fernando Henrique nem tanto. É uma questão de estilo. Querer transformar algo tão banal numa crise política é perigoso. Leva ao impasse institucional que não interessa a ninguém, principalmente num momento em que o transatlântico – em que todos estamos – começa a tentar se mexer rumo ao tão sonhado ?espetáculo do crescimento?. É hora de maturidade. Não de oportunismo. E também de menos maldade e menos ingenuidade."

 

"Reforma agrária já!", Editorial, copyright Correio da Cidadania, 6/07/03

"A leitura do jornal O Estado de São Paulo, de quarta feira passada, é muito útil para quem acredita que a elite aceitou o Lula. Bastou um leve toque do presidente na direção das matérias por ela vetadas, para que desabasse o noticiário negativo e uma cautelosa, porém inequívoca, advertência sobre o que lhe espera se ultrapassar a linha traçada pelos poderosos da República.

Na terça feira, Lula lançou o Plano de Safra – o maior e o melhor que já foi feito para atender às necessidades de financiamento dos agricultores familiares. No seu discurso, anunciou a etapa seguinte: reforma agrária. Antes dele, Manoel dos Santos, Presidente da CONTAG, havia cobrado essa reforma em termos candentes, provocando aplausos entusiasmados em um auditório em que se entremeavam lideranças rurais, políticos e funcionários do novo governo. Dose demasiada para o estômago de uma elite que ?segurou? a abolição da escravatura por 388 anos e está ?segurando? a reforma agrária há, pelo menos, 115 anos. Por isso, o Estadão resolveu ?aconselhar? o presidente a não transigir com a baderna.

Um editorial e uma coluna de Dora Kramer (notória transmissora dos recados de FHC) compuseram o torpedo, devidamente recheado com um extenso noticiário sobre tropelias imaginárias dos sem-terra e referências negativas aos seus líderes. O objetivo é o de sempre: apresentar o MST como um movimento semi-clandestino, composto por radicais que desejam mudar o regime social pela força e que usam a reforma agrária como um mero pretexto para a consecução de seus fins.

Parece incrível que, diante da realidade dramática da pobreza rural, ainda haja pessoas capazes de levantar argumentos do tempo da ?Guerra Fria?, para excitar o anticomunismo irracional das classes abastadas contra os movimentos que procuram conscientizar e organizar essa parcela injustiçada da nossa população, a fim de que ela reivindique seus direitos.

Oxalá o presidente Lula comece a executar a reforma agrária, o mais rapidamente possível, porque, esta sim, interessa a todo o povo brasileiro. Está madura. Melhor: está quase passando do ponto, de tão madura que está.

Não há, no elenco de alternativas para melhorar a situação do emprego, nenhuma que seja tão barata e tão rápida quanto o assentamento de pessoas sem terra em um pedaço de chão mantido na ociosidade por um proprietário rural que não cumpre sua função social. E para se ter uma idéia de como está a situação do emprego no país, nada melhor do que ver o que está acontecendo com o concurso para gari, no Rio de Janeiro.

Urge que os brasileiros, convencidos da necessidade de resolver de uma vez por todas o impasse da questão agrária, se reunam em torno do MST, da CONTAG e das outras organizações do campo, a fim de dar a Lula a certeza de que, com esse passo histórico, ele removerá o principal obstáculo ao cumprimento das suas promessas de mudanças."

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