Terça-feira, 13 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Hélio Contreiras

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

REDE GLOBO EM CRISE

“Murdoch ronda a Globo”, copyright IstoÉ, 2/09/02

“O nome do magnata das comunicações, Rupert Murdoch, da News Corporation, está circulando de boca em boca no Jardim Botânico, na zona sul do Rio de Janeiro, onde fica a sede do império dos Marinho. Murdoch estaria disposto a fechar uma nova associação com as Organizações Globo na área de tevê por assinatura. É a parceria que a Globo almeja (e precisa) para tentar se livrar do prejuízo que representa a operação. Para torná-la saudável é preciso dobrar o número de assinantes de 1,5 milhão para três milhões, o que só se faz com enormes investimentos. O empresário australiano naturalizado americano, 71 anos, seria a salvação. O grupo de Murdoch, dono do The Time e do The Sunday Time, na Inglaterra, entre muitos outros veículos espalhados pelo mundo, entraria com a nova legislação brasileira, que vai permitir a participação estrangeira na composição acionária das empresas de comunicação. Ele tem um superprojeto para a criação de uma rede mundial de televisão.

Queda de mercado – Ter a perspectiva de um parceiro desse peso é certamente um bom motivo para que Roberto Marinho e seus principais herdeiros – Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto – tenham um sono mais tranquilo, o que muito provavelmente eles não têm tido. A Rede Globo foi atingida pela queda do mercado publicitário no ano passado, especialmente no segundo semestre. A tevê por assinatura, por sua vez, não apresentou os resultados esperados, e a Globocabo acabou recorrendo a um aporte financeiro de R$ 284 milhões, do BNDES.

A palavra crise não é pronunciada no Jardim Botânico, mas tudo indica que alvoroça os bastidores. Henri Philippe Reichstul acaba de ser afastado da presidência da Globopar, para a qual tinha sido contratado com plenos poderes há apenas sete meses. Roberto Irineu Marinho, 54, o homem forte da Rede Globo, assumiu a presidência executiva da Globopar e do conselho de administração. Reichstul continua integrando o conselho, o que aos olhos do mercado seria aquela tradicional queda para cima, que geralmente dura pouco. Atuando diretamente com Roberto Irineu, o executivo Ronnie Moreira sobe da diretoria financeira para a presidência da Globopar, enquanto o comitê operacional das Organizações Globo permanece sob a coordenação de Octávio Florisbal, homem da confiança dos Marinho que tem o que Reichstul não conseguiu: consenso dentro da empresa. A cúpula das Organizações Globo quer simplificar a estrutura corporativa, o que significa reduzir custos. É uma reformulação vigorosa. Várias funções desempenhadas pela Globopar serão realizadas pela TV Globo Ltda. A Globopar passa a exercer a gestão financeira do grupo. Foi adiada a criação da Globo S.A.

Entre tantas más notícias, a pior seria divulgada oficialmente na terça-feira 24: a diretora-geral da TV Globo, Marluce Dias da Silva, 52, está licenciada, para tratamento de um câncer de mama. Citada até por seus desafetos como guerreira, Marluce poderá retornar ao cargo no primeiro semestre de 2003. No comunicado assinado pelos irmãos Marinho, eles dizem que estão ?totalmente seguros quanto aos rumos da TV Globo durante esse período porque o modelo de gestão da tevê será mantido exatamente como vem funcionando e gerando resultados positivos?. Marluce enviou uma carta aos colegas da emissora dizendo que, ?depois da cirurgia a que me submeti no final de agosto, não está mais dando tempo de conciliar tudo (família, trabalho, lazer) como eu sempre fiz. Porque agora tem mais uma demanda: cuidar da saúde, como eu nunca fiz. Faço isso tranquila, porque sei que tudo vai ficar bem comigo e com a tevê. (…) Durante os intervalos do tratamento vou estar à disposição da TV Globo. E à disposição de vocês, vou estar sempre. Porque a relação que construímos não é só de trabalho. É de respeito pessoal e muito bem querer. E isso só faz bem, muito bem à saúde. Beijo com enorme carinho, Marluce?.”

“Globo afasta mais dois ligados a Reichstul”, copyright Folha de S. Paulo, 27/09/02

“Outros diretores da Globopar mais ligados ao ex-presidente Henri Philippe Reichstul também estão deixando a empresa.

Clarissa Lins, que cuidava de assuntos corporativos, e Luiz Fernando Nogueira, responsável pela controladoria, saíram da companhia. Eles trabalharam com Reichstul na Petrobras e também estavam incumbidos de transformar a Globopar na Globo S.A., que teria seu capital aberto a investidores das Bolsas.

Outros dois diretores (Ronaldo Mascarenhas e Pedro Carvalho), não ligados a Reichstul, também foram afastados. A exceção é Ronnie Vaz Moreira, que também veio da equipe da Petrobras e agora substituirá Reichstul na presidência da Globopar.

Segundo a assessoria da Globopar, a saída dos executivos se deve à necessidade de redução de custos gerada pelo adiamento da Globo S.A.

Alternativa

A alternativa agora para as Organizações Globo abrir seu capital a investidores de Bolsas, depois da suspensão de seu projeto Globo S.A, seria separar a TV Globo, seu maior atrativo financeiro, de outras empresas do grupo, como a Editora Globo e o jornal ?O Globo?. A avaliação foi feita ontem pelo analista de investimentos do banco Itaú, Alexandre Torrano.

Segundo ele, o projeto Globo S.A., suspenso na terça-feira passada, não tinha mesmo condições de ir para a frente neste momento de instabilidade da economia.

?Nenhum investidor está disposto a comprar participações em empresas brasileiras no momento. O projeto terá de ser adiado, e acreditamos que apenas a TV Globo é que terá seu capital aberto?, afirmou Torrano.

Ao mesmo tempo que informou a suspensão do projeto Globo S.A., a Globopar anunciou na terça-feira a saída de Reichstul. Ele foi nomeado membro do conselho de administração das Organizações Globo.

Segundo um analista de mercado, a mudança de cargo de Reichstul pode ser encarada como um enfraquecimento dele no grupo. Mas Reichstul ainda teria uma função importante na futura reestruturação das Organizações Globo.

Torrano, do Itaú, concorda com a avaliação. ?Não faria sentido manter Reichstul na presidência da Globopar. Ele é um executivo de planejamento, que ficará resguardado no conselho das Organizações Globo até poder tocar novamente o projeto de reestruturação do grupo.?

A nomeação de Ronnie Vaz Moreira para a presidência da empresa teria ocorrido justamente por causa disso. ?Moreira é um executivo que atua no dia-a-dia e sua responsabilidade será continuar a efetuar cortes nas despesas das Organizações Globo.?

Descontentamento

Um executivo ligado às Organizações Globo afirmou, no entanto, que o relacionamento entre Reichstul e o conglomerado estava muito desgastado nas últimas semanas. Reichstul não teria conseguido reduzir benefícios de executivos e pessoas do alto escalão das Organizações Globo e estaria irritado com a situação.

Executivos favoráveis a Reichstul afirmam que seu trabalho foi muito bem aceito na área de mídia escrita do grupo (jornais e revistas), mas não conseguiu vingar na TV. Reichstul não teria obtido apoio para realizar tarefas consideradas básicas, como corte de custos nas produções de novelas.

As Organizações Globo, por sua vez, não estariam satisfeitas com os resultados de Reichstul no seu projeto de reestruturação do conglomerado. A saída foi Reichstul deixar a Globopar e assumir o cargo de membro do conselho de administração do grupo.

A reportagem da Folha procurou ontem Reichstul. Ele não foi localizado. Segundo informações de um executivo das Organizações Globo, ele estaria em Washington, EUA, para tratar de assuntos não revelados.

A dívida da Globopar, responsável atualmente pelas finanças dos negócios das Organizações Globo, era de R$ R$ 2,1 bilhões no final do primeiro trimestre deste ano. A empresa registrou prejuízo de R$ 425,9 milhões no período, uma queda de 9,5% em relação às perdas de R$ 469,8 milhões do mesmo período de 2001.”

“Globo adere ao Lula-já”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 30/09/02

“O mundo realmente se tornou um lugar ainda mais estranho nos últimos tempos. Quem diria, há quatro meses por exemplo, que o Império Global estaria desesperadamente torcendo por uma vitória do Sapo Barbudo num primeiro turno de eleição presidencial? Pois é exatamente o que está ocorrendo nesta reta final de campanha eleitoral, depois de todo um esforço para dar gás ao candidato governista. ?Mas o que houve? O Império se converteu e agora se preocupa com o futuro do país??, perguntará você, compreensivelmente incrédulo.

Infelizmente, não. Pelo Império, Lula poderia ir para o quinto dos infernos, com passagem só de ida e levando o resto do PT junto. O problema é que houve dois movimentos simultâneos – com algum contato entre eles – forçando a torcida, que poderá chegar até a uma adesão explícita às vésperas do dia 6 (tradicionalmente o jornalão imperial declara seu voto, um dia ou dois antes das eleições). O primeiro movimento foi o da população brasileira que, nas últimas três semanas, decidiu que vai mesmo votar na oposição. Isso pôde ser constatado pela estagnação das intenções de voto em José Serra e a concomitante ascensão de Lula e Garotinho, que poderia levar dois candidatos oposicionistas ao segundo turno. E mesmo que o ex-governador fluminense não tenha fôlego para chegar à decisão com Lula, a parada de Serra demonstra que o segundo turno seria uma mera formalidade a ser cumprida em 27 de outubro.

O problema, do ponto de vista imperial, é que as três semanas que decorreriam entre o primeiro e o segundo turno seriam de uma ampliação do ataque especulativo contra o Real que jogou o dólar para cerca de R$ 3,80. E isso seria intolerável às finanças imperiais. Para você ter uma idéia, somente nos últimos 30 dias, a dívida total do Império deu um salto de mais ou menos R$ 1 bilhão. As coisas continuando desse jeito por mais três semanas, os danos só seriam reversíveis com uma venda de ativos que não estava nos planos, como a da NET, do restante da participação na Sky ou mesmo de alguma jóia mais cobiçada da coroa, como um jornal, a gráfica ou a editora. Algo péssimo, pois diminuiria o valor da holding, quando ela finalmente fosse abrir o capital.

?Ué, essa idéia não tinha sido arquivada com a caída para o lado do Francês??, pergunta você. Não, segundo declarações de Roberto Irineu Marinho, agora responsável direto pelas empresas neste momento. Ele afirma que não houve arquivamento do projeto, mas uma meia-trava diante da confusão reinante no mercado e da necessidade de procurar se adequar a ela e suas conseqüências. Acredito nisso porque tem lógica: a abertura do capital da holding (a futura Globo S/A) é uma necessidade vital, agora que o dinheiro para investimento em países emergentes evaporou-se e diante da necessidade de muita grana para se investir na chegada da TV Digital ao país, entre outros planos. Henri Phillipe Reichstul foi contratado para levar avante esta tarefa, e como ela não acabou, ele apenas foi encostado no conselho de administração e não defenestrado. Outro sinal, ainda mais forte, de que houve apenas uma paradinha no processo é que foi posto a comandar a Globopar (agora novamente apenas braço financeiro do grupo) um homem da confiança do Francês, Ronnie Vaz Moreira, que trabalhou com ele também na Petrobrás.

Você pode perguntar: se é assim então por que o Francês precisou ser encostado? O mais lógico é que ele ficasse onde estava, comandando a mudança. É, seria o mais lógico mesmo se não houvesse um problema pessoal. É que Reichstul é amigo íntimo de Serra, amizade construída nos tempos duros de ditadura e juventude, mas como Serra é um sujeito difícil (para dizer o mínimo) talvez não entendesse o fato de o conglomerado em que o velho amigo tem posição de poder aderisse à candidatura do seu maior adversário e por isso ele teria sido afastado (daí a análise de Antônio Ermírio de Moraes na Folha). É o que Graham Greene chamava de ?o fator humano? e que muito mais vezes do que imaginamos interfere nos grandes planos.

Assumido – Um grande sábio da tradição protestou contra a minha afirmação de que o Império estaria a fim de favorecer o candidato do governo (isso claro depois de a histeria financeira levar ao quadro descrito aí em cima). O sábio disse que estava me tornando ?um velho paranóico?. Discordo por dois motivos:

1. Não estou me tornando um velho paranóico. Eu sou paranóico desde pequeno.

2. Se o Império está tão neutro assim, deviam avisar ao colunista mais importante do jornal principal. É que na semana passada ele comparou Lula a um lobo (usando uma foto para isso), e disse que as ações da Petrobrás caíram na sexta, dia 27, porque o candidato petista teria oferecido o comando da empresa para Garotinho se este o apoiasse num hipotético segundo turno contra Serra (desconsiderado o fato de que a estatal é grande importadora num setor ameaçado por uma guerra insana). Tudo bem que o tal colunista é compadre do dublê de deputado tucano e banqueiro Ronaldo Cezar Coelho e poderia estar fazendo uma ?servicinho extra? para o tucanato, mas, de qualquer maneira, que as futricas saíram no jornalão imperial é incontestável…

Queda livre – E por falar em crises imperiais e ações, as da NET na Nasdaq fecharam em US$ 0,74 na sexta, numa queda de 25,25% em relação a quinta, quando o valor era de U$ 0,99. Como a Nasdaq não está com essa bola toda também, a NET vai ficando por lá, embora as antigamente rígidas regras da bolsa eletrônica determinem que só empresas cujas ações valessem mais de U$ 1 teriam direto a serem listadas no pregão. E com o valor em queda, a venda da empresa não geraria tanta grana assim.

Glauberiana – Angustiante o combate que rola todos os dias das últimas semanas, na Irineu Marinho, 35. De um lado, o Santo Guerreiro, com os seus proverbiais bom-senso e capacidade de negociação (ambos herdeiros diretos do igrejismo petista de um passado profundo); de outro, o Dragão da Maldade financeiro; no meio, a redação. Torço descaradamente pelo Bem.

Enquanto isso… – Na Rio Branco, 110, no entanto, não tem essa de ?combater o bom combate?. O pássaro preto pousado no alto do edifício Conde Pereira Carneiro vai comer o coração de algo entre 15 e 20 vítimas nesta semana (possivelmente na segunda). O sacrifício da redação do JB acontecerá pela necessidade de se cortar R$ 200 mil mensais. Por que este valor? Porque os brilhantes cérebros (mais para ?pinkys?) que assessoram o maior acionista da empresa esqueceram de botar em sua contas que a mudança do prédio da Avenida Brasil para os andares no Centro implicariam em pagamentos de IPTU e outras taxas mais caras. A conta foi espetada na redação.

Vexame – Já notou que de vez em quando o pessoal cisma com uma palavra forte e começa a repeti-la, repeti-la, repeti-la até que ela perde totalmente a força e a originalidade? É o que está acontecendo com a palavra ?vexame? nos noticiários esportivos aqui do Rio.

Baseados na obviedade que realmente a campanha dos cariocas no Brasileirão é vexaminosa, os jornais, por analogia, passaram a considerar qualquer derrota de time do estado como um vexame. Assim, na quarta 25, o Vasco tomou um sapeca-iaiá de 4 a 0 do Cruzeiro em BH, e o Fluzão perdeu para o Atlético-PR no Maracanã por 1 a 0. No dia seguinte – batata! – O Globo vinha dizendo na capa que os dois tinham dado ?vexame?.

Não discuto que o Vasco cair de quatro é vexame em qualquer parte do país, mesmo jogando com outro grande. Mas perder para o campeão brasileiro (o Atlético-PR ganhou o título em dezembro passado), que ainda se mantém como um dos melhores do Brasil, por apenas 1 a 0 não pode ser considerado vexame, mesmo jogando no Maracanã. É apenas uma derrota. Vexame é perder de 6 a 0 para o São Paulo em qualquer lugar. Pelo critério esquisito, qualquer derrota pode ser considerada vexame, mesmo diante de adversários fortes em jogos equilibrados, desde que seja no Mário Filho.

Este fenômeno que está ocorrendo com ?vexame?, me parece, reflete dois problemas sérios da imprensa:

1. ?Síndrome da droga? – Chamo dessa maneira aquela necessidade de chocar cada vez mais o público, a fim de chamar-lhe a atenção. Como ocorre nos casos das drogas, as doses precisam ser aumentadas a fim de provocarem o mesmo efeito. Assim, a palavra ?derrota? foi superada pela mais forte ?vexame?, que, no futuro, deverá ser superada por ?desastre? ou outra na linha.

2. Pobreza vocabular – Essa é uma praga que assola as redações há tempos e só pode ser curada com dedicação à profissão e leitura de bons autores. Ou seja, se o vivente não quiser melhorar – por preguiça ou por achar que está tudo legal – não tem jeito.”

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