Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > GUERRA DOS DOMINGOS

Hélio Schwartsman

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

A TV E A MORTE

"Duas notícias recentes despertaram especial atenção da TV. Falo do câncer de Ana Maria Braga e da morte da modelo Fernanda Vogel num acidente de helicóptero. Infelizmente, não podemos afirmar que a cobertura dada a ambos os episódios dignifique a televisão brasileira. Mas estou sendo injusto. Idêntico raciocínio, ainda que com nuanças de grau, se aplica ao jornalismo em geral, impresso e cibernético.

O caso Ana Maria Braga choca pela transformação do evento mais intransferivelmente particular que pode afetar uma pessoa -a descoberta de um câncer- em espetáculo para as multidões.

Para agravar o quadro, o show mercadológico não se deveu à iniciativa de jornalistas inescrupulosos e insensíveis, mas foi capitaneado pela própria apresentadora e secundado por toda a estrutura da poderosa Rede Globo. Contou até com a participação do clero, na trepidante figura do padre Marcelo.

É evidente que Ana Maria Braga pode e deve enfrentar a moléstia da forma que julgar mais adequada. Se as milhares de manifestações de solidariedade e os pontos extras no Ibope lhe dão forças, ótimo. Eu também torço por ela. Há pessoas que reagem melhor às adversidades com algum isolamento e outras que simplesmente não podem sentir-se sozinhas.

O golpe de marketing da apresentadora global tem -é preciso reconhecê-lo- a virtude de dar publicidade aos avanços da oncologia, mostrando a milhares de pessoas que um diagnóstico de câncer há muito já não representa uma sentença de morte.

Serve, assim, para combater o preconceito em torno da moléstia. Trata-se, sem dúvida, de um efeito salutar, ainda que colateral.

No fundo, o que nos constrange no modo como Ana Maria Braga metamorfoseou sua doença em espetáculo é a facilidade com que a morte é dessacralizada. (Por maiores que sejam os avanços químio e radioterápicos, ainda associamos a palavra ?câncer? a morte.)
O caso de Fernanda Vogel é mais brutal. Ela era jovem, bonita e estava fazendo sucesso. Os jornais até que mantiveram certa compostura, mas o mesmo não se pode afirmar de alguns programas de auditório e de sites da internet. Gugu, por exemplo, além de explorar o tema de forma sensacionalista -o que já era mais ou menos esperado-, chegou a mostrar fotos da modelo seminua.

É verdade que Fernanda posou para essas fotos e autorizou sua publicação. Mas exibi-las enquanto se falava do que já era então o provável óbito da modelo é atitude de extremo mau gosto.

É como se Gugu procurasse dar à morte um caráter sensual. Pode funcionar na literatura e no cinema, mas, na vida real, beira o ofensivo. E olhem que eu não sou de ficar chocado com picuinhas. Em ambos os eventos, o que verificamos é a inabilidade da TV em lidar com as várias reações emocionais que o público inexoravelmente exibe diante da morte ou do câncer (que, no plano simbólico, ainda opera como metáfora para a cessação da existência, como escala do cemitério).

De fato, se há um aspecto da psique humana que desafia a abordagem racional, é a atitude diante do fim. Por mais que venhamos a compreender a fisiologia da morte, sua dimensão racional, ela segue sendo percebida emocionalmente com um misto de reverência e terror.
Talvez nós não nos surpreendêssemos tanto se o desconforto com a morte afetasse tão profundamente apenas representantes de civilizações ?primitivas?, cuja expressão religiosa se dá principalmente pelo culto aos ancestrais falecidos.

Mas o fascínio amedrontador segue prosperando mesmo em sociedades científico-tecnológicas, nas quais -gostaríamos de acreditar- as decisões são pautadas pela razão. Nem a atéia União Soviética escapou da maldição, como o atesta a múmia de Vladimir Ilitch ?Lênin? Ulianov. Hoje ninguém sabe o que fazer com os restos humanos do velho líder bolchevique.

Desconfio de que o buraco seja mais embaixo. Para várias religiões, antigas e modernas, não só existe uma vida ?post mortem? como ela é muito melhor do que a atual. Paradoxalmente, não encontramos os fiéis desses sistemas todos ansiosos por ?passar desta para melhor?. Se o assunto é morte, até quando acreditamos, desconfiamos.

Já se definiu o homem como o único animal que sabe que vai morrer, e há correntes psicanalíticas que atribuem a essa consciência a origem de todas as nossas neuroses. Parece de fato fazer sentido ligar a própria noção de humanidade a uma relação especial com a morte. Registros fósseis indicam que o homem de Neanderthal, nosso primo mais próximo, já realizava rituais fúnebres (inumação) entre 120 mil e 80 mil anos atrás.

Normalmente, a iconoclastia não me assusta. Até gosto dela, porque
nos faz pensar. Mas, se vamos dessacralizar a morte, passando por
cima de tradições de dezenas de milhares de anos,
pelo menos tão antigas quanto o homem, devemos ter boas razões
para fazê-lo, maiores do que dois ou três pontos de
ibope."

GUERRA DOS DOMINGOS

"Globo paga caro para vencer o ?Domingo
Legal?", copyright Folha de S. Paulo, 12/8/01

"Dia desses, Silvio Santos desabafou no ar: ?Com o futebol, não dá para competir…?. Partilhando da mesma visão, a TV Globo investiu US$ 73 milhões (algo em torno de R$ 175 milhões) na exclusividade de transmissão de partidas do Campeonato Brasileiro deste ano. E o resultado foi imediato. Já no primeiro jogo exibido para a Grande São Paulo -Corinthians x Vitória, na quarta 1/8-, a emissora marcou 33 pontos contra 15 da atração de perguntas apresentada pelo dono do SBT. Cada ponto na audiência corresponde a 80 mil telespectadores na região metropolitana de São Paulo.

No último domingo, outro jogo do Corinthians, contra a Ponte Preta, interrompeu uma série de derrotas que o ?Domingo Legal?, do SBT, vinha impondo ao ?Domingão do Faustão?. Mas, o placar de 25 pontos a 16 na audiência não resistiu ao apito final do juiz. Encerrada a partida, Gugu virou o jogo em minutos.

Essas vitórias no Ibope, porém, custam caro. Se transmitir os 206 jogos anunciados para a primeira fase (Globo, SporTV e pay-per-view), mais os oito da segunda e quatro da semifinal e final, cada uma dessas partidas terá custado às Organizações Globo cerca de R$ 800 mil só em direitos. O valor é quase dez vezes o que o SBT gasta para produzir cada edição do ?Domingo Legal?, orçada em R$ 90 mil.

?Vamos tentar conquistar o público feminino e o infantil no horário do jogo, mas é difícil; em vez de usar a criatividade, a Globo ?contratou? o Corinthians e o Flamengo?, diz o diretor do ?Domingo Legal?, Roberto Manzoni. Hoje, quando a bola rolar para Paraná x Corinthians (de novo o Timão), Gugu deverá apresentar videocassetadas e comandar uma emocionada homenagem a um galã.

O assessor do Departamento Técnico da CBF José Dias disse ao TV Folha que ?a Globo escolhe os jogos que quer transmitir e tem o direito de determinar o dia e o horário deles?. Segundo Dias, ?nada é imposto, mas como ela [a Globo? está pagando, os jogos são marcados de acordo com o seu interesse?.

Esses interesses explicam por que a emissora não está transmitindo jogos aos sábados -?Caldeirão do Huck? tem boa audiência-, por que Corinthians e Flamengo estão jogando fora de suas sedes mesmo com o mando de campo (a Globo quer exibir os jogos para as maiores capitais do país) e por que os dois clubes de massa têm preferência nas transmissões.

?A Globo manda no futebol brasileiro?, afirma o ex-parceiro da emissora em negociações de campeonatos passados, e agora desafeto, deputado Eurico Miranda (PPB-RJ), presidente do Vasco da Gama. Mestre em mudar horários e datas de jogos para beneficiar o clube que dirige, Miranda agora é só lamentações: ?A Globo fez mais de 70 mudanças na tabela divulgada pela CBF e dá a última palavra sobre qualquer alteração?.

As queixas contra o monopólio global nos gramados vêm também de torcedores de Flamengo e Corinthians que moram nas capitais do Rio e de São Paulo. ?A Globo tira presidente, bota presidente, nós não iremos contra ela. Mas o Flamengo perde muito de sua força quando joga fora do Maracanã. A direção do clube aceita porque a cota é maior e as prefeituras locais ajudam?, afirma Mário Gordo, vice-presidente da Raça Rubro-Negra, que, segundo ele, tem 70 mil associados.

Para Ronaldo Pinto, vice-presidente da Gaviões da Fiel, ?a CBF vendeu o futebol para a Globo?. Segundo ele, a torcida corintiana na capital paulista incentiva e cobra mais do time do que a do interior."

 

    
    
                     

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