Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > VIOLÊNCIA

Hélio Schwartsman

Por lgarcia em 21/02/2001 na edição 109

QUALIDADE NA TV

CRÍTICA / NO LIMITE

"‘No Limite’ entre o chato e o filosófico", copyright Folha de S. Paulo, 18/02/01

"Confesso que não compreendo bem essa onda de ‘reality shows’ que tomou conta das TVs, no mundo e no Brasil. Por aqui, o programa que melhor representa essa tendência de substituir a ficção pela ‘realidade’ é ‘No Limite’, da Rede Globo, que já está em sua segunda edição.

Em princípio, o telespectador típico, quando liga o aparelho de TV, está em busca de recreação, uma esfera tradicionalmente mais afeita ao domínio da ficção do que do real. Nem poderia ser de outra forma. A realidade é, no mais das vezes, aborrecida, sem ritmo ou então desmedidamente cruel, arrasadora. Não há romance possível na queda de um avião que não deixe sobreviventes.

No geral, a novela é infinitamente mais interessante que o mundo real, não importando muito aqui o significado de ‘real’. É verdade que a arte imita a vida, mas o faz melhorando-a, tornando-a mais romanesca, mais humana.

Vale lembrar que ‘recreação’ vem do verbo latino ‘recreo’, que significa ‘criar de novo’, ‘renovar’. Quando em referência ao corpo ou à mente, ‘recreo’ tem o sentido de ‘recobrar-se’, ‘convalescer’, ‘estimular’ e, daí, ‘divertir-se’. Assim, a diversão, que tem poderes curativos, é essencialmente algo recriado, algo aperfeiçoado pelo engenho humano.

O paradoxo dos ‘reality shows’, contudo, não está num suposto desvio das funções recreativas da TV. Na verdade, chamar qualquer coisa exibida na TV de ‘reality show’ é uma impostura, uma tremenda de uma mentira.

Não estou afirmando que até o noticiário televisivo seja necessariamente falso, embora, num sentido mais amplo, essa interpretação seja cabível, e não só para a TV. Quero dizer que o que é chamado de realidade em ‘No Limite’ ou qualquer outro programa do gênero tem muito pouco de realidade. Os personagens se dirigem à câmera de um modo sem paralelo no mundo real. A câmera se torna personagem, um interlocutor que não existe de verdade. Os protagonistas fazem diante das lentes coisas que não fariam em circunstâncias normais. Cria-se uma situação em que é impossível ‘observar’ sem, ao fazê-lo, alterar o observado.

Nem mesmo para o telespectador o ‘reality show’ guarda realismo. Para começar, as imagens são todas devidamente editadas. E é exclusivamente nessa edição que a história é contada. Não existe uma narrativa natural, um ponto de vista absoluto. A temporalidade da ação também é totalmente alterada. É fácil imaginar o quão maçante seria um ‘No Limite’ em tempo real, em que cada segundo transcorrido na chapada fosse levado sem edição à casa do telespectador. As várias câmaras necessárias para contar integralmente as histórias de todos os personagens exigiriam um tempo de transmissão equivalente às 24 horas do dia multiplicadas pelo total de dias e pelo número de participantes. Seria uma programação que irritaria até faquires pacifistas em coma profundo.

Realidade na TV é uma impossibilidade teórica. Mesmo eventos sobre os quais a câmera em princípio não atua, como uma partida de futebol, têm sua narrativa definida pelos câmeras e pelo editor, de modo não-natural.

Se fosse dado ao árbitro consultar um ‘replay’, o próprio curso do jogo seria alterado pela TV. Aquela falta feita às costas do juiz não passaria impune, a incidência de pênaltis não-marcados seria fortemente reduzida.

Num certo sentido, quando um ‘reality show’ se proclama ‘real’, está tentando dizer que é uma ficção de outra ordem, uma representação que permanece representação, mas que tem a pretensão de ser uma ficção menos fictícia do que, digamos, a novela.

Parece haver aí uma tentativa de aproximar o mundo da TV do telespectador. A ação que de fato transcorre num ‘No Limite’ é pífia. Em termos objetivos, os eventos não passam de uma gincana de adolescentes -e adolescentes particularmente imbecilizados, acrescente-se. O que seduz no programa não é, portanto, seu conteúdo propriamente dito, mas o fato de ser protagonizado por gente ‘de verdade’ e não artistas. É notável que os participantes, ao serem escolhidos, já se tornam astros, esvaziando um pouco a proposta de levar gente normal à tela. O programa passa a operar como loteria. Pessoas comuns obtêm a chance de se tornar astros. Há o prêmio em dinheiro, a fama rápida, a possibilidade de posar para revistas masculinas, femininas ou gays -mais dinheiro.

Todo o processo lembra um pouco o poeminha ‘Do Rigor na Ciência’, de Jorge Luis Borges, em que o escritor argentino conta a história do Império que levou a arte da cartografia à perfeição. O mapa de uma Província era tão detalhado que tinha o tamanho de uma cidade. O mapa do Império ocupava uma Província. O Colégio de Cartógrafos, contudo, achou que era pouco. Fizeram um mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia com ele ponto a ponto. As gerações seguintes, menos viciadas no estudo da cartografia, entenderam que um mapa assim era inútil. Deixaram-no ser destruído pelas inclemências do sol e dos invernos.

‘No Limite, 1, 2 ou 3’, é um programa meio chatinho, mas um excelente problema filosófico."

VIOLÊNCIA

"Cresce a violência explícita nos filmes da tevê", copyright Jornal da Tarde, 15/02/01

"Exibições recentes do Telecine Action e do Telecine Classic permitem assinalar a evolução da linguagem da violência no cinema e na televisão.

O Classic exibiu durante um mês um festival de filmes noir, chamados de cinema das sombras. Anos 40 e 50. Crimes, detetives, bandidos, diálogos curtos e fortes, mulheres fatais, homens durões, traições, dores de cotovelo, cinismo, cigarro, meia-luz, jaquetões e uísque. Apesar de todos esses ingredientes, não houve uma cena de violência explícita. Quando o bandidão desalmado vai matar a tiros a velhinha cega que gosta de blues, a câmera desloca-se discretamente para a vitrola (os jovens talvez precisem recorrer ao dicionário para saber o que é isso), onde um disco está girando, ouve-se o tiro, corta, acabou.

O Telecine Action (nomes idiotas os desses canais de filmes da Net) está exibindo uma série de filmes de James Bond. Anos 60 e 70. Supercriminosos psicóticos, gatas tentadoras, explosões apocalípticas, licença para matar, cinismo, humor, imaginação, mas nada chocante, nenhuma fratura exposta, nada de sangue jorrando. Quando Bond, em O Satânico Dr. No, vai torcer o pescoço de um dos homens que manipulam o grande aparato destruidor do cruel Dr. No, a câmera se move e vemos a ação através de um vidro canelado. Na cena seguinte, Bond já está vestindo o uniforme do homem e tomando seu lugar.

Isso – essa discrição, essas cortinas, essas elipses – acabou. Vemos jorros de sangue, olhos arrancados, cabeças explodindo, peitos abertos, membros decepados. Somos convidados a barbarizar as vítimas, junto com algum sádico.

Há uma exasperação do visual, uma necessidade de mostrar, uma estetização da destruição do ser humano (é mais do que matar). É provável que essa tendência tenha surgido com as imagens de algumas guerras, como a do Vietnã, quando vimos nos telejornais um general cambojano estourar a cabeça de um guerrilheiro. Pode ser que os relatos de morte sob tortura e matanças, em regimes militares dos anos 60 e 70, como o chileno, o argentino, o uruguaio, o brasileiro, os africanos, os asiáticos, os da periferia da Europa (remember os massacres da Bósnia) tenham esgotado nosso horror, tenham tornado suportáveis cenas antes inadmissíveis.

Um filme abjeto sob todos esses aspectos foi exibido na segunda e na terça-feira no Telecine Action: O Dentista 2. Uma coisa inimaginável.

Quando, há alguns anos, no filme Marathon Man, Laurence Olivier usava uma broca de dentista para fazer Dustin Hoffman falar, a câmera retirava-se discretamente após o close no instrumento ligado. Era uma coisa que doía na imaginação da gente. Agora não. O diretor dessa idiotice sádica mostra não apenas a broca trabalhando, o dente sendo furado, o sangue espirrando, o ferrinho cutucando o nervo, o freio mantendo a boca aberta, depois dentes sendo arrancados, e, num crescendo, toda a face da vítima sendo destruída.

Um absurdo. A idéia de que houve um filme antes, que possibilitou a produção de um segundo com o mesmo personagem, é chocante, humanamente insuportável.

Igualmente revoltante é saber que há por trás da exibição um programador que achou legal oferecer esse lixo a seus telespectadores, à uma hora da tarde de terça-feira.

Bicheiro Eu tinha uma boa lembrança de Amei um Bicheiro, filme ‘policial’ brasileiro de 1953, produzido pela Atlântida, com direção de Jorge Ileli. Foi visto com simpatia, na época, talvez por ser dos primeiros a voltar-se para os problemas urbanos brasileiros, junto com Agulha no Palheiro, de Alex Vianny, do mesmo ano. Este, uma crônica, e mais feliz na representação do Rio de Janeiro. Era um cinema que antecipava o que viria depois, a partir de Rio 40º. Revi Amei um Bicheiro no Canal Brasil, nesta terça-feira. Decepção.

Direção ingênua, atores bisonhos (Cyl Farney e Eliana, então, Deus me livre), iluminação amadora, historinha comum – mas uma boa tentativa, se olharmos para trás e para os lados, e considerarmos aquelas chanchadas bobocas, hoje injustamente cultuadas. Bom que o Canal Brasil dê oportunidade aos mais jovens para conhecer filmes de certa importância histórica e a nós, mais velhos, de reavaliar alguns deles."

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